'Todo crime contra a humanidade deve ser punido'

Para diplomata armênio, desafio da comunidade internacional é evitar que novos genocídios ocorram e permaneçam impunes

Entrevista com

Ashot Galoyan, embaixador da Armênia no Brasil

RENATA TRANCHES , O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2015 | 02h03

Há pouco mais de um ano no Brasil, o embaixador armênio Ashot Galoyan disse respeitar a posição brasileira, que não reconhece o genocídio armênio. No entanto, ele espera que um dia ela possa ser revista. A seguir, trechos da entrevista que ele concedeu ao Estado.

Qual o significado dessa data para o povo armênio?

Vamos voltar às raízes e à natureza da atrocidade que ocorreu há cem anos, durante o Império Otomano e a 1.ª Guerra. Armênios foram abruptamente enviados para o "exílio", a propaganda oficial continua repetindo essa declaração. Mas, para os historiadores armênios, tratou-se de ações orquestradas com o propósito de tirar o povo de sua nação. A Armênia tem hoje o privilégio de enviar essa clara mensagem: a história tem de triunfar nas bases da justiça e da verdade. As pessoas foram simplesmente enviadas para o exílio e mortas sem justificativa. As vítimas dessas atrocidades ainda esperam por justiça.

Quando o sr. fala sobre justiça, a que exatamente se refere?

Raphael Lemkin, advogado polonês judeu, que nos anos 30 iniciou sua investigação sobre genocídio, surgiu depois com uma simples mensagem para a humanidade. Esse tipo de atrocidade política, segundo acreditavam os advogados internacionais, deve ser levada a uma organização internacional. Qualquer ação contra a humanidade deve ser punida. A questão é, quando falamos de política internacional, quão longe podemos ir para preservar a vida do ser humano no caso de falha de outra nação? Esta talvez seja a principal questão para podermos fazer prevalecer a justiça.

E como foi recebida a mensagem do papa?

Em seu pronunciamento no dia 12, ele mencionou claramente para todos que o primeiro genocídio que ocorreu foi o do povo armênio. Depois, houve o holocausto do povo judeu. Ele mencionou também o stalinismo, outros atos de genocídio ocorridos depois. Isso é algo que chamamos de justiça. O Parlamento Europeu também se posicionou e enviou uma clara mensagem aos turcos. É preciso bravura para reconhecer o fato, ser responsabilizado pelo evento que ocorreu em 1915 no Império Otomano. Isso é justiça em primeiro lugar.

A recusa da Turquia em reconhecer que houve um genocídio é um obstáculo?

Essa não é necessariamente a principal questão que temos tentado trazer quando falamos em justiça. Claro que há também países muito importantes no mundo que não reconhecem. A Turquia, como o principal perpetrante do genocídio armênio, claro, que deve ser responsabilizada. Mas uma questão muito importante é sobre como continuaremos em frente para impedir que qualquer um no futuro possa usar esse crime extremo em forma de atrocidade contra a humanidade quando estiver buscando seus objetivos políticos. Talvez esse seja o principal objetivo pelo qual os armênios e as pessoas e países que os apoiam tentam visualizar.

O Brasil é um dos países que não reconhecem o genocídio. O que o sr. acha?

Estamos contando com o vibrante comportamento democrático deste país onde sou embaixador e respeito muito sua decisão. Claro que é nosso desejo ver uma resolução relacionada ao genocídio no governo federal. No Brasil, o respeito aos direitos humanos é um de seus maiores valores. Para o povo brasileiro, essa é uma questão central, pois trata pacificamente as pessoas de diferentes grupos étnicos e origens que vieram para cá em busca de uma vida e um futuro melhor.

Há algum tipo de negociação entre os governos turco e armênio?

É sabido que, sob o apoio diplomático dos EUA, Rússia e países europeus, demos início ao que no Brasil chamam de "diplomacia do futebol". As seleções da Turquia e da Armênia jogaram duas partidas (nas eliminatórias da Copa de 2010) e os presidentes se encontraram na ocasião. A ideia era estabelecer protocolos para enviar documentos diplomáticos que pudessem preparar o caminho para tornar as relações melhores. Mas, depois de tudo, os turcos vieram com algumas queixas injustificadas, colocando precondições para fazer as ratificações oficiais. Espero que possamos voltar às negociações um dia.

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