Tolerância com Chávez diminui em Washington

Até recentemente, o governo dos Estados Unidos tratou o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, como uma espécie de falastrão inconseqüente, com quem não havia razão para se preocupar.A política em Washington era avaliar o líder populista venezuelano não pelo que ele dizia, mas pelo que fazia, e confiar em que os bons conselhos dados a Chávez pelo presidente Fernando Henrique Cardoso e, mais recentemente, por seu colega mexicano, Vicente Fox, surtiriam efeito.Como Chávez falava muito e fazia pouco, ou quase nada, a administração Bush manteve a postura de indiferença adotada no governo do presidente Bill Clinton.Nas últimas semanas, as críticas que o presidente da Venezuela fez sobre as ações militares dos Estados Unidos contra o terrorismo no Afeganistão e várias medidas que adotou para fazer face à crescente oposição a seu regime evidenciaram uma clara perda de paciência em Washington em relação a Chávez.No início do mês passado, a Casa Branca chamou de volta sua embaixadora em Caracas, Donna Hrinak, depois que o líder venezuelano fez um discurso pela televisão, no qual equiparou a campanha militar americana no Afeganistão a uma ?luta contra o terror pelo terror?.Alguns dias depois, Washington excluiu a Venezuela dos benefícios de uma nova lei sobre preferências comerciais para os países andinos, em tramitação no Congresso.No último sábado, o Washington Post aprovou, em editorial, ambas as decisões da administração Bush, ?como uma sinal apropriado de que se opor à guerra dos EUA contra o terrorismo trará conseqüências?.O editorial, intitulado ?A Espiral Descendente da Venezuela?, não aconselhou o presidente George W. Bush a preparar-se para uma outra ?ameaça?: ?Não que o presidente venezuelano conseguirá obstruir a política americana, mas ele produzirá uma implosão política em seu próprio país, um grande fornecedor de petróleo para os EUA e um dos únicos países da América Latina a preservar a democracia nas últimas quatro décadas?.?Qualquer simpatia ou paciência que existia em Washington em relação a Chávez desapareceu?, disse ao Estado Peter Vaky, um ex-secretário de Estado adjunto para a América Latina, que foi embaixador na Venezuela nos anos 70.?Não creio que os EUA estejam preparando ou farão qualquer intervenção contra Chávez, mas não há dúvida de que ele está polarizando a sociedade venezuelana, e isso é uma fonte de crescente preocupação e observação?.Vaky notou que, em sua encarnação política de coronel golpista que o projetou no cenário nacional na Venezuela, Chávez recuou em momentos de polarização. ?Mas ele hoje é presidente, se vê como um novo Fidel, acha que tem uma presença internacional e, contestado por uma oposição que finalmente está conseguindo se organizar e reemergir, pode recorrer à repressão?.Mesmo neste cenário, os especialistas acham pouco provável que os EUA tomem atitudes unilaterais contra a Venezuela.Um diplomata americano lembrou há dias que a nova Carta Democrática aprovada este ano pelos países da região, no âmbito da Organização dos Estados Americanos (OEA), justifica ações coletivas de isolamento político, diplomático e econômico de países que atentarem contra o regime representativo e poderá ser acionada contra Chávez, se ele passar dos limites.A questão é determinar tais limites. ?Chávez perdeu totalmente a credibilidade em Washington e é visto hoje como um líder pouco sério na busca de seus próprios objetivos, pois malbaratou o imenso apoio popular com que chegou ao poder e não tenha nada a exibir pelos anos que está na presidência?, disse Peter Hakim, o presidente do Diálogo Interamericano.

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