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‘Tolerância zero’ na fronteira é imoral e antiamericana

Essa política vai se mostrar ineficaz, no longo prazo

Jeh Charles Johnson / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

20 Junho 2018 | 05h00

Minha mulher e eu passamos o Dia das Mães em 2014 nos EUA, no centro de patrulha fronteiriça em McAllen, Texas. A instalação havia sido construída para adultos solteiros, mas parecia uma creche tosca, transbordando de crianças.

No meio daquela inundação, meus olhos foram atraídos para uma garotinha sentada sozinha em uma mesa e sendo atendida por um agente da Patrulha da Fronteira. Fiquei impressionado com seu longo cabelo preto, que era lindo, apesar da jornada quente e suja da América Central que ela acabara de completar. Eu perguntei a ela: "Por que você veio para cá?" Ela respondeu: "Estou procurando minha mãe nos Estados Unidos". Ela começou a chorar, o tradutor começou a chorar e eu comecei a chorar.

Como eu testemunho a prática atual do governo Trump de separar as crianças de seus pais na fronteira com o México, a imagem daquela garotinha e de centenas de outras mulheres e crianças migrantes está fixada em minha mente.

Hesito em criticar meus sucessores no cargo, que estão sobrecarregados com a responsabilidade de manter o território dos Estados Unidos e suas fronteiras seguras. Hesito em lançar dúvidas sobre o trabalho árduo daqueles que já trabalharam para mim no Departamento de Segurança Interna. Mas, quando se trata de certas políticas ofensivas e equivocadas do governo, aqueles de nós com voz pública e entendem da questão não podem silenciar.

A atual política de dissuasão “tolerância zero”, que resultou na separação de mais de 2 mil crianças migrantes inocentes de seus pais, é imoral e antiamericana. Além disso, essa política vai se mostrar ineficaz, no longo prazo.

A experiência ensina (como sabem os funcionários de carreira no Departamento de Segurança Interna, DHS, sigla em inglês,) que mudanças bastante divulgadas na implementação de políticas de imigração podem causar crises agudas no nível de imigração ilegal no curto prazo. Mas os padrões de migração, em seguida, revertem para níveis mais elevados, níveis tradicionais no longo prazo, uma vez que as condições subjacentes persistam. Eu aprendi esta dura lição enquanto estava no departamento; a administração Trump está aprendendo a lição agora.

Em meus três anos como secretário de segurança interna, o governo deportou, repatriou ou devolveu cerca de 1 milhão de pessoas na aplicação das leis de imigração. Para tratar da migração ilegal, considerei e dirigi uma série de medidas muito pouco populares. Quando a migração ilegal aumentou em 2014, expandimos nossa capacidade de detenção familiar, uma medida que eu admiti livremente ser controvertida (embora, ao contrário da abordagem da administração Trump, ele mantivesse as crianças com seus pais). Nossos esforços trouxeram resultados diversificados. Em 2015, assistimos a uma acentuada diminuição das apreensões na fronteira sul, para os níveis mais baixos desde 1972. No entanto, no ano fiscal de 2016, os números aumentaram novamente.

É um instinto humano básico fugir, para se salvar e à sua família, de um prédio em chamas. Enquanto persistirem os poderosos “fatores de pressão” da pobreza e da violência na Guatemala, Honduras e El Salvador, os Estados Unidos continuarão a lutar contra o problema da migração ilegal na fronteira com o México.

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Além disso, a política atual é insustentável. Não podemos continuar a inundar os tribunais federais em todo o Sudoeste com milhares de migrantes por mês para extrair deles condenações em linha de montagem, ao mesmo tempo em que também preenchemos instalações para manter migrantes adultos, crianças e famílias. Essas instalações já estão operando em capacidade plena e a política está gastando somas imensas dos orçamentos do DHS, do Departamento de Justiça e do Departamento de Saúde e Serviços Humanos. Enquanto isso, outras prioridades vitais para a aplicação da lei e segurança interna estão sendo negligenciadas.

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A resposta para o problema básico é dupla. Primeiro, deve-se enviar mais ajuda para a América Central. Em 2016, o Congresso iniciou esse caminho, destinando US$ 750 milhões em assistência para a Guatemala, Honduras e El Salvador. Nos anos subsequentes, esse nível de apoio desabou. O Congresso precisa fazer mais. Em segundo lugar, deve-se encorajar os países vizinhos da região - México, Panamá, Costa Rica e Belize - a desenvolver seus próprios sistemas, como alternativas aos Estados Unidos, para aceitar refugiados e requerentes de asilo na América Central. Isto não é política; é bom senso básico

Também é bom senso que as crianças fiquem com seus pais. Os americanos deveriam exigir que seu governo acabe com sua atual política cruel e desastrosa na fronteira sul.  / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

É EX-SECRETÁRIO DO DEPARTAMENTO DE SEGURANÇA INTERNA (2013 a 2017)

 

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