Tomada da Crimeia marca fim da nova ordem mundial

ANÁLISE: 

Christopher Hill, Project Syndicate/O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2014 | 02h01

A anexação da Crimeia por parte da Rússia e a contínua intimidação de Moscou à Ucrânia parecem significar o fim de um período de 25 anos cuja marca foi um esforço para trazer os russos para um maior alinhamento com metas e tradições euroatlânticas. A pergunta é: o que vem a seguir? Conforme as semanas passam, torna-se claro que o desafio não está na Ucrânia e sim na Rússia - com sua regressividade, sua reincidência e seu revanchismo.

Há exatamente 25 anos, a Polônia e outros países daquele que era conhecido como "Bloco Oriental" deram os primeiros passos para se libertar de sua aliança forçada com a União Soviética. Aquela que parecia ser uma divisão permanente do mundo em duas esferas de interesse concorrentes chegou ao fim subitamente em 1989, quando o bloco deixou a órbita soviética, exemplo logo seguido pelas repúblicas da própria URSS.

A Rússia emergiu não como uma URSS rebatizada e sim como um Estado com sua própria história e seus próprios símbolos, um membro do sistema internacional. E, à sua maneira, a Rússia renascida parecia dedicada a objetivos semelhantes aos de seus vizinhos pós-soviéticos: pertencimento às instituições ocidentais, economia de mercado e uma democracia parlamentar pluripartidária, mas com feições russas.

Esta nova ordem mundial foi mantida por quase 25 anos. Com exceção da breve guerra da Rússia contra a Geórgia, em agosto de 2008 (conflito tido em geral como iniciado pelos irresponsáveis líderes georgianos), a aceitação (ainda que problemática) da nova ordem por parte da Rússia e seu compromisso com ela foram grandes feitos da era pós-Guerra Fria.

Nos Estados Unidos, a mídia costuma destacar que a maioria dos americanos teria dificuldade em localizar a Ucrânia num mapa. Eles não precisam fazê-lo. Mas os americanos precisam compreender o desafio que enfrentam numa Rússia que não parece mais interessada naquilo que o Ocidente ofereceu nos últimos 25 anos.

Assim, o que o Ocidente deve fazer? A verdadeira questão deve ser o reforço das estruturas de segurança e os preparativos para o longo prazo. A crise da Ucrânia é na verdade uma crise russa. A Ucrânia - seja o que sobrar dela - se tornará um país cada vez mais ocidental. A Rússia não dá sinais de que seguirá esse rumo.

Em vez disso, o presidente Vladimir Putin parece estar se preparando para um longo inverno diplomático. Os EUA precisam se preparar, especialmente em relação ao reforço de suas relações com parceiros e aliados, esforçando-se para garantir que a Ucrânia seja a última vítima da Rússia - e não a primeira.

*Christopher Hill foi secretário de Estado Assistente dos EUA para o leste da Ásia.

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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