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ANDREI NETTO / ESTADÃO
ANDREI NETTO / ESTADÃO

Tomado da esquerda, discurso de ‘elite contra o povo’ é tática central

Estratégia de atrair apoio de um operariado que já foi ligado ao movimento sindical de esquerda é vital para populistas

Andrei Netto, Enviado Especial / Florange, França, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2016 | 05h00

FLORANGE, FRANÇA - Depois do Brexit, no Reino Unido, e de Donald Trump, nos EUA, a França é a próxima potencial vítima da onda de revolta popular que o ex-ministro das Relações Exteriores francês Hubert Védrine chamou de “a era das revoluções eleitorais”. A cinco meses da votação presidencial, a candidata do partido de extrema direita Frente Nacional (FN), Marine Le Pen, continua na frente na maior parte dos cenários, segundo pesquisas de opinião.

Cansados das perdas econômicas, os “lepenistas” adotam o discurso populista à espera de “derrubar o sistema” nas eleições de abril. O discurso maniqueísta de “elite versus povo”, empregado durante a campanha pela saída do Reino Unido da UE, e nas eleições americanas, é o mesmo que vem catapultando movimentos populistas - de direita ou esquerda - em diferentes países europeus.

O Alternativa para a Alemanha (AfD), a Liga Norte, o Movimento 5 Estrelas (M5S), na Itália, o Partido pela Independência do Reino Unido (Ukip) e o Partido pela Liberdade, na Holanda, surfam na onda denuncista contra o livre-comércio, a mão de obra estrangeira, a globalização, o Euro, a UE e as “elites” que, supostamente, defendem essas causas.

Como estratégia, essas legendas se dizem em defesa do povo. Nessa linha, na quinta-feira, Marine Le Pen apresentou seu slogan: “Em nome do povo”.

Fins. O discurso dos populistas em ascensão é moldado para atingir o eleitorado de pequenas cidades vítimas da desindustrialização ou da falência agrícola, e vem funcionando na França. Sobre Florange, por exemplo, um panfleto da Frente Nacional denuncia que “a cada dia, há vários anos, uma usina fecha na França”.

Verdadeiro ou não, o discurso tem funcionado e ameaçado os partidos tradicionais. Nas últimas eleições departamentais na França, a Frente Nacional foi a legenda mais votada por assalariados de empresas privadas, chegando a 35% dos votos. Até mesmo a Fundação Jean Jaurès, think tank do Partido Socialista, reconhece os vínculos entre o desemprego, a desindustrialização, o declínio do campo e o crescimento de Marine.

Nas eleições locais, aquelas que mais refletem a proximidade entre os eleitores e seus eleitos, 22,6% dos candidatos da FN eram operários e do PS apenas 6,5%. Em lugar de trabalhadores de indústrias e do campo, o maior partido de esquerda do país optou por executivos urbanos e educadores.

“O que conta para os eleitores é sentir a empatia pelo FN”, explica Jerôme Fouquet, cientista político do instituto Ifop. Para o expert, Marine e os candidatos do partido se apropriaram de um discurso de esquerda. “O movimento operário se estruturou historicamente na ideia ‘eles contra nós’, a ideia de que os interesses das elites e dos patrões se chocam com os dos assalariados.”

Em Florange e Gandrange, os efeitos dessa ofensiva se fazem sentir nos sindicatos. “Desde 2006, Sarkozy assumiu, depois Hollande, uma política de direita, outra de esquerda, e as consequências foram as mesmas”, lamenta Lionel Burriello, secretário-geral da CGT na Arcelor Mittal. “Assim, nós caímos no populismo”, avalia.

A decepção com a esquerda causa até fraturas familiares. Sindicalista histórico da Força Operária (FO), Walter Broccoli, um dos líderes do movimento contra o fechamento da usina de Florange, viveu o que considera “um drama” ao abrir o jornal e descobrir que seu filho David, de 39 anos, havia se tornado candidato pela FN. “É a raiva, o ódio contra a sociedade de hoje, o ódio contra os políticos”, diz o sindicalista. David, técnico informático que recebia, segundo seu pai, € 480 por mês - um terço do salário mínimo francês - não respondeu aos pedidos de entrevista do Estado. 

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