Tomar Bagdá exigirá mais tropas e mais tempo, dizem especialistas

A súbita constatação de que o plano de guerra dos Estados Unidos para derrubar o regime de Saddam Hussein é falho ou foi mal executado e não previu um contingente de forças adequado para uma operação de cerco e tomada de Bagdá, com a proteção simultânea da retaguarda, levou alguns analistas a fazer avaliações, nas últimas 48 horas, que ilustram a gravidade potencial das conseqüências da invasão do Iraque.Uma delas foi feita na noite de quarta-feira por Samuel Gardiner, coronel reformado da força aérea e professor de estratégia e operações em academias militares americanas, no programa "Newshour", da Rede Pública de Televisão. "Gostaria de expor a dimensão político-militar", começou Gardiner. "Dois ex-generais de quatro estrelas, Wesley Clark (ex-chefe supremo da Otan) e Barry McCaffrey, que comandou uma divisão da Primeira Guerra do Golfo, disseram que não temos forças suficientes (para uma ataque contra a capital iraquiana)?, afirmou. ?Estejam eles certos ou não, os líderes dos Estados Unidos têm um problema: se entrarmos em Bagdá com duas divisões e houver perdas, isso é o tipo de coisa capaz de mudar o regime, e não estou falando em mudança de regime em Bagdá. Simplesmente, não se pode mandar soldados americanos à batalha sem tudo o que for necessário para (cumprir a missão). Isso é uma coisa muito séria", completou.Gardiner, um entre as duas dúzias de oficiais reformados que servem de comentaristas da guerra na televisão, disse não ter dúvidas de que, no final, as forças americanas e inglesas prevalecerão. Mas o simples fato de ele ter aventando a possibilidade de o conflito vir a liquidar o governo do presidente George W. Bush antes de acabar com o regime de Saddam Hussein reflete a reversão de expectativas produzida pelas dificuldades inesperadas que as forças aliadas estão encontrando para dar cabo de um regime repressivo, que era visto como podre e pronto para esfacelar-se ao menor abalo.Sem admitir qualquer erro ou falha no plano de guerra, o general Tommy Franks, chefe do Comando Central, já parece ter tomado a decisão de fazer uma pausa no avanço de suas forças e esperar pela chegada de reforços. A Quarta Divisão de Infantaria, que é tida como a unidade mais letal do exército americano, estará em posição dentro de duas a três semanas, depois que seu equipamento, originalmente destinado a chegar ao Iraque via Turquia, foi redirecionado para o canal de Suez, já que o governo de Ancara negou-lhe o direito de passagem por seu território."Está claro que a batalha de Bagdá será decidida pelas botas, e serão necessárias muitas botas", disse o general reformado William Odom, que é cético sobre a capacidade do poder aéreo e das bombas de precisão do arsenal americano decidirem uma guerra contra um regime que, por monstruoso e odiado que seja, parece ser preferível ao invasor estrangeiro para milhões de iraquianos. Segundo o professor Fawaz Gerges, especialista em Iraque do Sarah Lawrence College, a invasão reacendeu sentimentos nacionalistas mais fortes do que o repúdio a Saddam Hussein em boa parcela da população iraquiana. "Além disso, Saddam conta com o apoio ativo de uma importante parcela da sociedade que foi beneficiada por seu regime". Enquanto esperam pela chegada dos reforços, as tropas americanas e britânicas terão que acabar com os fortes bolsões de resistência que têm encontrado ao longo dos mais de 400 quilômetros da rota de suprimentos entre suas base principal, no Kuwait, e a linha de frente, que está a 80 quilômetros da capital iraquiana. "Esse trabalho pode levar todo o verão", afirmou o ex-general, sugerindo que o assalto a Bagdá poderá ter que esperar a chegada do outono no hemisfério norte.Neste tipo de cenário, Gerges vê o perigo de os Estados Unidos se tornarem reféns de uma situação extremamente difícil que criaram ao invadir o Iraque, mesmo depois de conseguirem derrubar Saddam. "Os riscos políticos dessa guerra são muito maiores do que quaisquer benefícios que ela possa produzir", disse o professor. Para ele, o plano de transformar o Iraque numa democracia é miragem, alimentada pela ignorância. O mesmo vale para a perplexidade dos americanos diante da ausência das imagens de cidadãos iraquianos agradecidos frente as forças invasoras, refletida pelos comentários dos apresentadores e analistas do noticiário sobre a guerra, segundo Fawaz."A invasão apenas alimentará o antagonismo aos EUA, no Iraque e na região", disse ele. Veja o especial :

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