Imagem Gilles Lapouge
Colunista
Gilles Lapouge
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Tony Blair volta à cena

Os esquadrões negros de jihadistas do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Isil, na sigla em inglês) investem sobre as cidades do Iraque e o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair sai de sua caixa. Ele sacode a poeira e clareia a voz. Explica que, em 2003, teve toda razão em apoiar George W. Bush na guerra que este havia desencadeado contra o ditador iraquiano Saddam Hussein.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S. Paulo

21 de junho de 2014 | 02h01

Por que o ex-premiê britânico saltou dessa forma sobre a ocasião que representa, a seus olhos, a tomada pelas forças da jihad de Mossul e, quem sabe, da capital do Iraque, Bagdá? É que aquele dia de 2003 em que Tony Blair decidiu "colar" no americano George Bush e enviar soldados britânicos ao Iraque é uma lembrança lúgubre para Blair. Foi o começo de sua queda.

Até então, o brilhante, sedutor e moderno Tony Blair havia conseguido tudo. Mas, nesse percurso dourado, a intervenção no Iraque formou uma mancha sombria que os anos, longe de dissolver, adensaram. A Grã-Bretanha não perdoou jamais essa desculpa esfarrapada de Blair.

Alguns dias atrás, em 18 de junho, o deputado conservador Peter Tapsell pediu à Câmara dos Comuns que Blair fosse processado. Há pouca chance de isso ocorrer, ainda mais que, à época, o atual primeiro-ministro, o conservador David Cameron, havia votado pela guerra.

Onze anos depois, a invasão absurda do Iraque tornou-se um pesadelo para Tony Blair. A opinião pública não perdoou nem o envio de soldados britânicos ao Iraque, nem a falta de lamento de Blair, nem seu enriquecimento pessoal. Apesar de ter ficado muito rico, o pobre Blair sofre porque toda vez que se desloca é recebido por manifestantes que o acusam de crimes de guerra.

Eis por que ele tenta hoje utilizar em seu favor o caos do Iraque. A seu ver, a debandada das forças legalistas iraquianas deve-se não à guerra Bush/Blair de 2003, mas à guerra civil que massacra a Síria neste momento. "Devemos nos desfazer da ideia de que 'nós' provocamos essa situação. Isso simplesmente não é verdade", diz ele.

Blair parece não estar convencendo a opinião pública britânica. Ainda mais que, em face dele, há outros atores utilizando as desordens atuais no sentido exatamente contrário. Em primeiro lugar, o ex-primeiro-ministro francês Dominique de Villepin, que era chanceler no governo de Jacques Chirac em 2003 e conheceu seu momento de glória no dia em que, diante do Conselho de Segurança da ONU, explicou com eloquência (e com lirismo descabelado) por que a França não quis se envolver na guerra de Bush.

Villepin denunciou a ilusão da diplomacia americana. "Fracasso da construção nacional como sonham os engenheiros políticos americanos: no Oriente complicado, houve a tentação de fazer tábula rasa para construir novas nações. Isso é não ver que se abria a caixa de Pandora comunitária e, cedo ou tarde, todas as fronteiras herdadas da era colonial seriam questionadas em nome das purezas étnicas ou confessionais".

Villepin acrescentou uma ideia nova: a seu ver, a desgraça atual do Iraque era o antagonismo mantido por todos entre os dois ramos do Islã, os sunitas (Arábia Saudita, jihadistas, etc.) e os xiitas (Irã e outros). "Preservar a unidade do Oriente Médio é superar a clivagem sunita-xiita que se tornou a linha de frente comunitária em todo o Oriente Médio, no sul do Iraque, por exemplo, porque isso arrastaria para o caos o Irã, a Arábia Saudita, a Turquia e a Jordânia", disse ele. "Uma conferência regional deve colocar em volta da mesa todas as potências em torno do que é consenso para todas: a garantia das fronteiras num quadro de segurança coletiva."

Dominique de Villepin propõe aí um belo programa. Infelizmente, do lado dos jihadistas que estão devorando o Iraque, a análise é rigorosamente oposta porque se trata, ao contrário, de apagar todas as fronteiras herdadas não só do período colonial, mas mesmo da Idade Média e da Renascença, para substituir a confusão atual do país pelo califado islâmico que desconsidera as nações, as fronteiras e a história. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE EM PARIS

Mais conteúdo sobre:
GILLES LAPOUGE

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.