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Issa Goraieb
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Tortura nas prisões do Líbano

Os libaneses conheceram, durante 15 anos, as atrocidades da guerra civil. Contudo, com a chegada da paz, seus sofrimentos não acabaram em razão da onda de assassinatos políticos, atentados terroristas a bomba e até execuções de reféns que, a partir de 2005, se abateu sobre o país. Entretanto, é com profundo horror que a população, embora aguerrida, acaba de constatar o que acontece em todos os países, e mais particularmente nesta parte do mundo: no Líbano se pratica a tortura.

Issa Goraieb, O Estado de S. Paulo

28 de junho de 2015 | 03h00

Na realidade, o cidadão comum suspeitava que interrogatórios mais rigorosos eram moeda corrente nas delegacias de polícia, que a vida nas prisões libanesas nada tinha de invejável. No entanto,  este mesmo cidadão não imaginava que no Líbano se torturava não apenas nos interrogatórios, mas também para o prazer sádico de infligir sofrimentos e humilhações a presos desprovidos de qualquer defesa.

Em razão dessas práticas odiosas, a penitenciária de Roumieh, a mais importante dos 22 centros de detenção do país, de repente, conhece neste momento uma macabra notoriedade internacional, sendo comparada a Abu-Ghraib, Guantánamo e a outras prisões que constam da lista da infâmia.

Contudo, não é a primeira vez que se fala de Roumieh. Na realidade, ela foi palco de uma série de motins duramente reprimidos. Construída a 15 quilômetros de Beirute e projetada para receber cerca de 2,5 mil internos (homens, mulheres e jovens distribuídos em quatro enormes edifícios), abriga hoje mais de 8 mil.

A superlotação é consequência da prisão de numerosos ativistas islâmicos acusados de terrorismo, que, na maior parte, aguardam há anos um julgamento. Dispondo aparentemente de importantes recursos financeiros que lhes permitiram conseguir a sólida cumplicidade entre os guardas, estes fanáticos sunitas, próximos àAl-Qaeda ou ao Estado Islâmico, criaram um verdadeiro poder no interior da prisão, impondo sua lei aos demais detentos.

Em uma busca nas celas realizada no dia seguinte ao último motim, descobriu-se que eles dispunham até de celulares, de computadores com internet e se comunicavam constantemente com seus companheiros em liberdade.

No último fim de semana, a prisão de Roumieh ocupou novamente o centro do noticiário após a divulgação, em grande escala, nas redes sociais, de vídeos mostrando presos deitados no chão molhado, pés e punhos amarrados juntos e selvagemente espancados com a ajuda de mangueiras de plástico por guardas encapuzados.

 Enquanto chocava a opinião pública, o espetáculo insuportável escancarava ainda mais o fosso, já muito profundo, entre as duas alas do Islã libanês, os sunitas e os xiitas.

Para complicar a situação, os moderados sunitas da Corrente do Futuro, aliados da Arábia Saudita e do Ocidente e dirigidos pelo ex-primeiro-ministro Saad Hariri, conseguem cada vez menos opor-se à radicalização rápida de sua própria comunidade.

Por outro lado, a comunidade xiita rigorosamente controlada pela milícia do Hezbollah, aliada ao eixo sírio-iraniano, parece quase monolítica.

Sempre que nas aldeias libanesas de população majoritariamente sunita se aplaude a divulgação das cenas de tortura, a população se queixa de prisões em massa realizadas nos últimos tempos entre os islamistas sunitas, enquanto os xiitas se beneficiam de uma imunidade quase total.

Foram feitos apelos para a demissão do ministro do Interior (simpatizante de Hariri). Por sua vez, o ministro da Justiça, também membro do bloco de Hariri, acusa o Hezbollah de ter deliberadamente programado a divulgação desses vídeo,  a fim de exacerbar as tensões entre as comunidades.

Depois da investigação, cinco guardas de Roumieh foram presos, mas o problema continua inalterado. Na realidade, o debate não dá sinais de se abrandar num país em que os centros de detenção dependem praticamente de um ou do outro dos principais organismos de investigação, estes também considerados propriedade de comunidades religiosas precisas.

A inteligência militar no Líbano é vista como feudo dos cristãos, enquanto os serviços de informações da polícia seriam controlados pelos sunitas e as forças de segurança pelos xiitas. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA  

É JORNALISTA DO  'L'ORIENT-LE JOUR', DE BEIRUTE, E COLUNISTA DO 'ESTADO'


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