Tom Brenner/ The New York Times
Tom Brenner/ The New York Times

Torturado no Vietnã, McCain se declara contrário à indicada por Trump para CIA

Senador por Arizona diz que a recusa de Haspel de reconhecer a tortura como imoral é desqualificante; votação deve acontecer no fim de maio

O Estado de S.Paulo

10 Maio 2018 | 16h24

WASHINGTON - A indicação feita pelo presidente norte-americano Donald Trump para que Gina Haspel assuma a direção da Agência Central de Inteligência (CIA) provocou divergências dentro do Partido Republicano. O senador John McCain, forte liderança do partido e que ocupa desde 1987 uma cadeira no Senado, é um dos que rejeitam a nomeação de Haspel, acusada de ter sido conivente com as práticas de tortura perpretadas pela CIA, onde trabalha há mais de 30 anos.

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"Como todos os americanos, eu entendo a urgência que levou à decisão de recorrer aos chamados métodos de interrogatório aprimorado. Eu sei que quem utilizou estes métodos estava tentando proteger os americanos dos danos. Mas, como argumentei muitas vezes, os métodos que empregamos para manter nossa nação segura devem ser tão corretos quanto os valores que aspiramos viver e promover no mundo.", disse McCain em uma declaração.

A apreensão de McCain é reflexo de suas experiências pessoais. Proveniente de uma família de militares, o senador por Arizona lutou na Guerra do Vietnã em 1967, onde foi capturado e mantido refém por quase seis anos. Na cela de quatro metros quadrados onde ficou retido, sofreu com a violência e as práticas de tortura dos vietnamitas.

A despeito de não duvidar do patriotismo de Gina Haspel, McCain tem dúvidas quanto ao pensamento da funcionária da CIA sobre a tortura.  "O papel de Haspel em supervisionar o uso de tortura pelos americanos é preocupante. Sua recusa em reconhecer a imoralidade da tortura é desqualificante. Eu acredito que o Senado deve exercer o seu dever de conselho rejeitar esta nomeação", escreveu o senador.

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Haspel tem uma longa carreira na CIA. Ao longo de 30 anos exerceu, principalmente, a função de agente clandestina em zonas de guerra pelo mundo. Pouco se sabe sobre suas campanhas, mas Haspel se viu no centro de uma grande polêmica em 2014, quando a Comissão de Seviços Secretos do Senado divulgou parcialmente um extenso e custoso relatório - mais de 6 mil páginas elaboradas durante 5 anos e com o preço de US$ 40 milhões - sobre as práticas de tortura da CIA.

O estudo constatou que diretores e funcionários da CIA mentiram ao Congresso, ao Departamento de Justiça, ao Conselho de Segurança Nacional e à Casa Branca sobre os "métodos de interrogatório aprimorado" - afogamentos, privação de sono, entre outros - utilizados em detentos supostamente ligados a grupos terroristas. À época, o senador McCain disse que o relatório comprovava "a ineficácia da tortura".

De acordo com o Washington Post, McCain, que preside o Comitê de Serviços Armados do Senado, não é o único republicano que está incomodado com a nomeação de Haspel. Rand Paul, senador por Kentucky, e Jeff Flake, do Arizona, já sinalizaram que podem votar contra Haspel

Nesta quarta-feira, 9, em uma sabatina no Comitê de Inteligência do Senado norte-americano, Haspel  afirmou que a CIA não vai retomar os programas de tortura de prisioneiros quando estiver sob sua tutela. Haspel utilizou como argumento as atuais regras militares que proíbem expressamente a prática da tortura. "Nunca, nunca voltaria a adotar o programa de interrogatórios da CIA. Eu apoio a lei e não apoiaria uma mudança da lei."/ WASHINGTON POST

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