Tour atrai milhares, apesar do frio

Música e dança animaram multidão que ouviu empolgada discurso de Obama em Wilmington

Fernando Dantas, Wilmington, EUA, O Estadao de S.Paulo

17 de janeiro de 2009 | 00h00

A temperatura de -10°C não esfriou o entusiasmo de Linda Watts, de 58 anos, que, com milhares de outras pessoas, foi até a estação de trem de Wilmington, no Delaware, para ver e ouvir o presidente eleito Barack Obama em sua primeira parada da simbólica viagem de trem da Filadélfia a Washington. "Está até quente, com essa música e essa dança", disse Linda, no terreno ao lado da estação onde o público se aglomerou para aclamar Obama e seu vice, Joe Biden, com suas respectivas mulheres. O sistema de som tocava músicas pop e gospel que se misturavam com trechos gravados de discursos de Obama."Eu estou absolutamente empolgada em vê-lo aqui, não perderia isso por nada neste mundo", acrescentou Linda. Para ela, Obama vai "abrir novos canais na diplomacia, ouvir as pessoas e falar a verdade". Bem humorada, ela resumiu as qualidades do futuro presidente: "Ele é honesto, merece confiança e também não tem nada de feio."A programação em Wilmington, capital de Delaware e terra de Biden, começou pouco depois do meio-dia. A primeira atração foi um grupo de crianças negras que dançou uma coreografia ao som de um hip-hop com o inevitável refrão de "sim, nós podemos mudar o mundo". Curiosamente, o movimento inicial era um erguer do braço direito com o punho fechado (e envolto em luva negra), que lembrava mais o movimento de contestação agressiva do movimento panteras negras do que a mensagem de união racial de Obama. Depois de um rápido desfilar de personalidades com mensagens curtas, como o prefeito de Wilmington e o governador de Delaware, Biden subiu com sua mulher ao palanque para aquecer o público para a atração principal. Conhecido e elogiado por fazer diariamente o trajeto de ida e volta de Wilmington a Washington para exercer seu cargo de senador (a população americana não é exatamente entusiasta dos habitantes da capital), Biden não deixou de fazer uma menção ao fato: "Não é todo o dia que a gente faz nossa viagem diária de trem com o próximo presidente dos Estados Unidos", disse, pouco antes de chamar Obama e sua mulher, Michelle, em meio a gritos, aplausos calorosos e o agitar de milhares de bandeirinhas americanas.Obama subiu no palco sorridente, inteiramente descontraído, e seus primeiros comentários foram para dizer que sexta-feira foi o aniversário de Michelle - a multidão ensaiou um tímido Happy Birthday To You. Em seu discurso de cerca de dez minutos, o presidente eleito naturalmente ressaltou a biografia e as qualidades de Biden, que estava em sua base eleitoral. Obama disse que Biden "sempre lutou pela classe média", um tema recorrente da campanha dos dois. Depois, o presidente eleito enveredou em um caloroso elogio ao homem comum americano, como bombeiros, policiais, condutores de trens, operários, chegando a citar pessoas reais pelo nome, como uma assistente social que perdeu uma irmã, vitima da violência. Também não faltou em seu discurso o tradicional apelo à bravura americana diante da adversidade (uma referência à crise econômica, principal desafio inicial do seu governo). "Quando nós americanos somos derrubados, nós sempre, sempre ficamos de pé de novo", disse. Ao fim do breve discurso, Obama desceu do palco e distribuiu cumprimentos ao público por 10 a 15 minutos - basicamente para os convidados que ficaram nas cadeiras e na pequena arquibancada em torno do palanque e eram na maioria cidadãos comuns selecionados para o evento.Um deles era o contador Robert Neugebauer, de 37 anos: "Eu vim aqui para um dia poder dizer aos meus filhos e netos que eu participei de um momento histórico", explicou. Ele acrescentou que achou uma excelente ideia de Obama repetir a histórica viagem presidencial de trem a Washington para a posse, realizada por Abraham Lincoln em 1861, antes de iniciar seu primeiro mandato.Já Sayuri Padmanhabhan, de 8 anos, que foi ver Obama pela primeira vez juntamente com os pais, tentava explicar, com precoce clareza e sinceridade, os motivos de seu apoio ao presidente eleito: "Ele vai mudar a economia e a política; no mais, eu não sei."

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