EFE/EPA/Jim Lo Scalzo
EFE/EPA/Jim Lo Scalzo

Tour no Capitólio na véspera da invasão levanta suspeita de cumplicidade interna

Devido às restrições da pandemia, turistas só podem entrar no prédio com aval de parlamentares ou funcionários; democratas demandam informações sobre os visitantes e pedem punição para colegas que incitaram ato

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2021 | 12h00

WASHINGTON — Após abrirem um novo processo de impeachment contra o presidente Donald Trump, deputados americanos levantam suspeitas de que a invasão do Capitólio tenha tido cumplicidade interna de republicanos. Mais de 30 deputados democratas demandam informações sobre tours com visitantes “suspeitos” na sede do Legislativo na véspera dos eventos do dia 6.

Em uma carta ao chefe interino da Polícia do Capitólio e aos responsáveis pela segurança da Câmara e do Senado, os deputados alegam terem “testemunhado um número extremamente alto de grupos externos no Congresso” no último dia 5. Excursões ao prédio, no entanto, estão proibidas desde março de 2020 devido à pandemia de Covid-19, e turistas só podem entrar com o aval de um parlamentar.

“Integrantes do grupo que atacou o Capitólio pareciam  ter um conhecimento detalhado da estrutura do complexo”, diz o documento, sugerindo que a finalidade da visita era fazer um reconhecimento do perímetro e que alguns dos visitantes “parecem ter associação com o comício na Casa Branca” que precedeu a invasão.

Liderados pela democrata Mikie Sherrill, os deputados pedem que os agentes de segurança divulguem o nome e as imagens das pessoas admitidas no prédio nos dias antes da invasão. Eles também questionam se as agências que investigam o incidente teriam solicitado os registros.

Ao site Politico, Sherrill não identificou publicamente a quem se referia, mas disse que nomes foram encaminhados para as autoridades. Outros democratas, como os deputados Tim Ryan e Debbie Wasserman Schultz, também indicaram ter conhecimento de colegas que realizaram tours para visitantes na véspera do evento.

“Eu só não sei se eles tinham conhecimento dos planos para o dia seguinte”, disse Wasserman Schultz em uma entrevista para o Washington Post.

Sem evidências

Dois agentes de segurança que falaram ao jornal Washignton Post, sob condição de sigilo, disseram que não há evidências de que parlamentares ou suas equipes ajudaram no ataque, mas afirmam saber das preocupações dos democratas. Além de insuflarem os manifestantes com sua retórica falsa, no entanto, diversos republicanos são alvo de críticas por supostamente ajudarem na organização do comício que antecedeu a invasão.

No mês passado, o ativista de extrema direita Ali Alexander, um dos organizadores do movimento “Stop the Steal” (Parem a Fraude), disse que os planos para o comício foram orquestrados em conjunto com os deputados republicanos Andy Briggs, Mo Brooks e Paul Gosar. Não há, no entanto, evidências de que tenham envolvimento direto na invasão.

“Nós quatro criamos um esquema para pôr pressão máxima no Congresso durante a votação”, ele disse em um vídeo posteriormente deletado, sem explicar a extensão dos planos. “[O objetivo] é mudar os corações e as ideias dos republicanos que estão lá, ouvindo o grande barulho do lado de fora.”

Após a invasão, Alexander e seu grupo foram banidos do Twitter em sua ofensiva para conter o discurso de ódio na plataforma. Ao Washington Post, representantes de Biggs e Brooks negam que os deputados tenham ajudado a organizar o evento.

Eles também negam que tenham insuflado a violência, apesar dos registros mostrarem o contrário. Brooks, por exemplo, disse no comício do dia 6 que aquele era o dia em que “os patriotas" começariam a “derrubar nomes e arrebentar”. Ele, que é alvo de uma moção de censura, disse posteriormente não se desculpar por “inspirar os americanos patrióticos a não desistirem do nosso país e lutarem contra socialistas anticristãos nas eleições de 2022 e 2024”.

14a Emenda

As parlamentares novatas Marjorie Taylor Green, adepta da teoria da conspiração QAnon, e Lauren Boebert, que comparou os invasores aos americanos que lutaram pela independência do Reino Unido no século XVIII, também são alvo dos democratas. Em seu Twitter, ela disse que aquele era o “momento 1776” dos republicanos, referindo-se ao ano de independência dos EUA.

Os democratas buscam também lançar mão de medidas legais para punir aqueles que incitaram a invasão. Vários deles pressionam pela ativação da 14ª Emenda da Constituição, cuja seção 3 permite a retirada dos direitos políticos daqueles que “se engajaram em insurreição ou rebelião”. A medida é uma herança da Guerra Civil, uma tentativa de limitar a influência dos confederados durante a Reconstrução.

Na segunda, a deputada Cori Bush apresentou uma resolução com 47 coassinaturas para iniciar uma investigação pela “remoção de parlamentares que tentaram reverter o resultado da eleição e iniciarem uma tentativa de golpe supremacista branco”. Ela disse não saber quantos integrantes se encaixariam nesta categoria, mas que uma investigação da Comissão de Ética da Câmara deve deixar o panorama mais claro.

No Senado, por sua vez, há grande pressão pela renúncia ou expulsão dos senadores Ted Cruz e Josh Hawley. Eles lideraram o movimento para apresentar objeções à certificação da vitória de Biden mesmo após a invasão do Capitólio, o que foi endossado por 138 deputados do partido. Ambos os senadores, que têm planos presidenciais para 2024, não dão sinais de que irão ceder à pressão, mas veem um número crescente de empresas suspendendo contribuições às suas campanhas.

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