Ivan Alvarado/Reuters
Ivan Alvarado/Reuters

Trabalhadores dos transportes suspendem greve no Equador

Após dois dias de protestos violentos, balanço oficial contabiliza 59 policiais feridos e 379 manifestantes detidos

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2019 | 02h25

QUITO - Trabalhadores do setor dos transportes no Equador suspenderam nesta sexta-feira (4) a greve contra a eliminação de subsídios aos combustíveis, que resultou em dois dias de protestos violentos por todo o país.

"Hoje terminam da nossa parte as medidas de fato", disse Abel Gómez, presidente da Federação Nacional de Cooperativas de Transporte Público de Passageiros e líder dos trabalhadores, em coletiva de imprensa junto a outros líderes do setor em Quito, na qual propuseram às autoridades estabelecer novas tarifas de compensação.

Apesar do anúncio feito pelo setor de transportes, que inclui os sindicatos de transportes pesados, ônibus e táxis, o fim das manifestações ainda é incerto. Apesar da adesão das categorias, alguns sindicatos, movimentos sociais e estudantis anunciaram que vão continuar as manifestações.

O presidente da Frente Unitária de Trabalhadores, Mesías Tatamuez, convocou “trabalhadores rurais e urbanos, estudantes, aposentados e as universidades” a aderirem à greve nacional na próxima quarta-feira.

Mais cedo nesta sexta, novos distúrbios tinham sido registrados no segundo dia da greve dos transportes, convocada contra a eliminação de subsídios aos combustíveis, que levou o governo a decretar estado de exceção.

"Que fique claro: eliminou-se o subsídio, acabou-se a vagabundagem e daqui em diante vamos construindo o novo Equador que todos desejamos", advertiu o presidente Lenín Moreno.

A eliminação de subvenções de 1,3 bilhão de dólares em um plano de ajuste fiscal pactuado com o FMI fez disparar os preços dos combustíveis e gerou revolta na população.

Dezenas de manifestantes voltaram a enfrentar a polícia em Quito, atirando pedras e artefatos incendiários em resposta a bombas de gás lacrimogênio. Os incidentes ocorreram no centro da capital, onde fica a sede da Presidência, assim como no setor do parque del Ejido, no norte, onde um blindado da tropa de choques foi atingido por uma bomba incendiária.

Os distúrbios, que segundo a polícia se estenderam a outras províncias, deixaram 59 policias feridos e 379 detidos, segundo o balanço consolidado mais recente. O Serviço de Gestão de Riscos também reportou 14 civis feridos.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), com sede em Washington, expressou no Twitter sua "preocupação pelo uso excessivo da força pela polícia no #Equador, como evidenciam imagens de repressão aos protestos sociais". O organismo mencionou "pelo menos 19 feridos e 20 jornalistas agredidos".

Com aulas suspensas em todos os níveis por determinação do governo, o Equador lida com a greve dos transportes. que desafia a medida de exceção imposta na quinta-feira para mobilizar os militares com vistas a restabelecer a ordem. Às manifestações incorporaram-se estudantes universitários e setores da oposição.

"Não queremos desestabilizar"

Sem táxis ou ônibus, os equatorianos tiveram que se virar para conseguir realizar suas atividades, enquanto as aulas foram suspensas por ordem do governo.

Em Quito, apenas o serviço de transporte municipal funciona - o que é insuficiente para atender à demanda - e as Forças Armadas habilitaram seus veículos para atender os cidadãos. 

Sob a medida de exceção declarada por 60 dias, os militares também estão nas ruas para controlar a segurança. "Não queremos desestabilizar o país, mas, infelizmente, neste momento o que está sendo tentado é sobreviver", afirmou o presidente da Federação Nacional de Transportadores Pesados, Luis Vizcaino. "Se os preços do combustível diminuírem um pouco, acho que pode haver uma saída para o Equador retornar à paz."

O descontentamento explodiu por conta do aumento de mais de 100% no preço dos combustíveis, desencadeando o desmonte dos subsídios por parte do governo de Lenín Moreno, depois de quatro décadas de vigência, o que fez dispararem os preços do galão americano de diesel (de US$ 1,03 a US$ 2,30) e da gasolina comum (de US$ 1,85 a US$ 2,40).

O Executivo adotou a medida impopular no acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), para obter empréstimos milionários devido à ruptura de sua economia dolarizada. 

O alto endividamento dos últimos anos - pelo qual Moreno culpa seu antecessor Rafael Correa - afetou a liquidez, segundo as autoridades.

Apesar dos protestos, Moreno disse que não mudará sua "opinião" sobre o fim dos subsídios - que representavam US$ 1,3 bilhão por ano.

"Minha mão não treme para fazê-lo. Devemos erradicar todas essas distorções que existem principalmente com relação à economia", afirmou. "Não são decisões fáceis de aceitar", acrescentou o presidente.

Sob essa figura constitucional, o presidente teve o poder de restringir direitos, embora, no momento, tenha usado essas atribuições somente para fortalecer o controle com os militares. 

Prejuízo milionário

Os protestos, que deixam prejuízos diários de 262 milhões de dólares, segundo os industriais, também foram fortemente sentidos em Guayaquil, uma das cidades mais populosas do Equador. Organizações indígenas e sindicais planejam protestar nos próximos dias contra a política econômica de Moreno, no poder desde 2017.

Sem maioria no Congresso e nas pesquisas de opinião pública, Moreno enfrenta as primeiras consequências do acordo de março com o FMI. 

Antes da esquerda assumir o cargo no Equador em 2007, os protestos sociais deram lugar à derrubada de três presidentes, dois dos quais tentaram ajustes econômicos.

Além do FMI, outras organizações multilaterais também concederão US$ 6,07 bilhões em empréstimos ao governo Moreno, que devido à falta de liquidez emitiu títulos por mais de US$ 10 bilhões.

A dívida externa pública do Equador Além do FMI, outras organizações multilaterais também concederão US$ 6,07 bilhões em empréstimos ao governo Moreno, que devido à falta de liquidez emitiu títulos de mais de 10 bilhões de dólares. aumentou 47% no atual governo (para 39,49 bilhões de dólares, 36,2% do PIB). / AFP e EFE

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