Trabalhistas pedem punição a grampos na Grã-Bretanha

Escândalo envolve secretário de imprensa de Cameron

Sarah Lyall & Don Van Natta Jr. / The New York Times, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2010 | 00h00

Opositores estão pedindo para o governo britânico responder às acusações de que Andy Coulson, secretário de imprensa do primeiro-ministro, David Cameron, encorajou repórteres a interceptarem ilegalmente mensagens de celular de personalidades quando foi editor do jornal sensacionalista The News of the World.

Ao mesmo tempo, algumas pessoas cujas mensagens telefônicas podem ter sido interceptadas acusam a polícia de não examinar todas as evidências em sua investigação criminal de 2006 e 2007. O trabalhista John Prescott, vice-premiê de Tony Blair, foi citado como uma das centenas de pessoas cujos telefones podem ter sido grampeados. Ele disse que a polícia nunca lhe ofereceu uma explicação satisfatória do ocorrido.

Em 2007, o editor de assuntos da monarquia do News of the World, Clive Goodman. e um investigador do jornal, Glenn Mulcaire, foram presos após se declararem culpados de haver interceptado mensagens de correio de voz dos príncipes William, Harry e de seus principais assessores.

Coulson disse que não tinha nenhum conhecimento do grampo, mas, mesmo assim, se demitiu do jornal em janeiro de 2007. No ano passado, o Guardian publicou um artigo dizendo que centenas de pessoas foram grampeadas. Um artigo publicado pela revista do News York Times deu mais detalhes e afirmou que Coulson estava ciente do grampo.

Mais de uma dezena de repórteres e editores que já trabalharam para o News of the World, entrevistados para a reportagem da revista do New York Times, acusaram Coulson de promover uma cultura temerária em que repórteres eram encorajados a usar quaisquer meios para obter histórias exclusivas.

Na semana passada, Tessa Jowell, ex-ministra trabalhista e parlamentar, disse que a polícia lhe confirmou que seus telefonemas haviam sido interceptados pelo menos 28 vezes durante o tempo em que esteve no governo. O jornal The Independent on Sunday afirmou que Peter Mandelson, outro veterano trabalhista, também teve mensagens interceptadas.

Pedido oficial. John Yates, subchefe da polícia metropolitana de Londres, disse, no domingo que, estuda reabrir o inquérito criminal se surgirem novas evidências. Yates afirmou que a polícia havia pedido ao New York Times informações sobre a matéria, incluindo anotações de entrevistas.

Bill Keller, editor executivo do Times, disparou. "A Scotland Yard rejeitou nossos pedidos de entrevista e se recusou a fornecer informações que pedimos nos termos da lei britânica da liberdade de informação. Após nossa matéria ser publicada, a Scotland Yard manifestou renovado interesse no caso e nos pediu para fornecermos materiais e anotações de entrevistas. Nós recusamos, como teríamos feito com qualquer pedido do gênero pela polícia. Nossa matéria fala por si e deixa claro que a polícia já tinha evidências que resolveu não investigar."

Tom Watson, deputado trabalhista e membro da comissão parlamentar que investigou os grampos, escreveu uma carta ao chefe da polícia metropolitana, Paul Stephenson, dizendo que "o histórico contínuo e o tratamento impróprio do assunto está começando a colocar em descrédito a força policial e nossa democracia".

O governo britânico disse que considera o assunto encerrado e não investigará Coulson, que foi contratado para ser secretário de imprensa do Partido Conservador após deixar o News of the World. O ministro de Desenvolvimento Nacional, Alan Duncan, saiu em defesa do governo e acusou o Partido Trabalhista de agir por razões políticas.

O News of the World negou as alegações do Times e o acusou de publicar o artigo para desacreditar um jornal rival, pertencente ao império de mídia de Rupert Murdoch. Cinco pessoas que tiveram telefones clonados moveram ações contra a empresa que controla o News of the World e um número crescente de figuras públicas diz que pretende fazer o mesmo. Outras, incluindo Brian Paddick, ex-subchefe da polícia metropolitana, dizem que pedirão uma revisão judicial das investigações, o que deve ocorrer até o fim de semana.

Novas acusações. Líderes trabalhistas exigem também um novo inquérito no Parlamento. A publicação do artigo da revista do New York Times expôs as falhas geológicas no panorama midiático e político na Grã-Bretanha. Jornais que apoiam o governo dedicaram pouco espaço às novas acusações. Empresas de mídia opositoras, porém, repercutiram extensivamente o artigo.

Em editorial, o jornal The Financial Times disse que deveria haver uma revisão independente da acusação feita pelo New York Times de que "a polícia pode ter abandonado uma investigação válida". O jornal também pediu a Cameron uma investigação sobre o assunto. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

SÃO JORNALISTAS DO "NEW YORK TIMES"

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