Traços da Al-Qaeda, segundo a ilustradora de Guantánamo

Artista de Nova York é a única a dar relato visual dos julgamentos de acusados de terrorismo na base em Cuba, dando tons pastéis à jihad

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2013 | 02h10

Ao ver o rosto de Khalid Sheik Mohammed na corte da base americana de Guantánamo, em maio, Janet Hamlin ficou pasma. Não que fosse sua primeira vez naquele tribunal, nem mesmo frente a frente com o mentor dos atentados de 11 de Setembro, capturado pela CIA e levado à prisão em Cuba. Mas é que Mohammed, usando sucos e frutas distribuídos aos detentos, havia tingido de laranja sua espessa barba. Agora, a ilustradora de Guantánamo teria de se virar com um lápis pastel vermelho coral e tons alaranjados, marrons e cinzas para revelar as novas cores do algoz do World Trade Center.

Quem já viu na imprensa uma cena dos julgamentos de Guantánamo, encarou um trabalho de Janet, nova-iorquina de 51 anos. Até este ano, todas as imagens dos acusados de terrorismo processados pelo Pentágono saíam do papel craft tamanho médio que ela usa - a Justiça Militar dos EUA proíbe fotos no tribunal.

Janet já sabia que, além de estrategista do terror global, Mohammed é um grande narcisista. Em 2008, ela havia mostrado ao mundo, pela primeira vez em 5 anos, o rosto do homem que teve a ideia de sequestrar os aviões em território americano. E Mohammed desaprovou a gravura.

Por meio de seu advogado, o operador da Al-Qaeda fez chegar à ela a reclamação de que seu nariz tinha ficado grande demais no desenho. Janet devia "dar uma olhadinha" em seu retrato na lista dos 10 homens mais procurados do FBI, sugeriu. "Na vez seguinte em que KSM voltou à corte, ele tirou os óculos e ficou postado de frente para mim, posando", relembrou ela, em conversa com o Estado.

Janet perdeu a conta de quantos acusados de terror passaram por suas gravuras nas mais de 25 viagens que fez a Guantánamo, primeiro como contratada da Associated Press, depois como freelancer. Ela desenhou presos notórios, como os cinco acusados de planejar os atentados de 2001, o australiano David Hicks, o canadense Omar Khadr - preso aos 15 anos pelos EUA no Afeganistão - e o motorista de Bin Laden, o iemenita Salim Hamdan. "Mas também peixes menores, com os quais a imprensa não se importa."

Em 2010, o Estado acompanhou o trabalho de Janet nas audiências do jovem Khadr. Rapidamente, ela compõe um esboço de carvão sobre papel, a começar pelo réu. Depois, vêm as pessoas em volta e, por último, o cenário. O tom marrom do papel craft ajuda, explica ela, pois num julgamento "tudo é meio amarronzado". Quando o tribunal é tomado por uma cena inesperada - por exemplo, presos entoando versos corânicos ou gritando com o juiz militar -, Janet consegue terminar o esboço em 15 minutos (10 para os contornos, 5 para colorir). A cena é imediatamente enviada às agências de notícia. Cenas panorâmicas da corte, ricas em detalhes, podem levar três horas.

A artista lançará em outubro nos EUA um livro reunindo seu trabalho em Guantánamo e relatos de jornalistas (não há previsão de publicá-lo no Brasil).

Limites. Fazer ilustrações no buraco negro da guerra de Washington ao terrorismo global não é como pintar nos jardins de Giverny. Janet é obrigada a borrar com o dedo os rostos de testemunhas anônimas, parentes de vítimas e seguranças. Outro dia ela descobriu que não pode desenhar portas - censores temem que isso revele como e por onde entram no tribunal os acusados. Todas as gravuras têm de ser submetidas a um soldado que, após certificar que nenhuma regra foi violada, cola uma etiqueta branca no desenho.

Entre cálculos de perspectiva e paletas de cores, Janet vive os dilemas do jornalismo. "Tento ser imparcial e permitir que aquilo que estou vendo conte a história às pessoas", explica. A carreira de ilustradora em tribunais começou em 2002, quando ela foi enviada pela AP para o julgamento de Michael Skekel, sobrinho da mulher do senador Robert F. Kennedy, que acabou condenado à prisão perpétua por assassinar uma vizinha.

Ela não sabe explicar bem como foi do assassino vinculado ao clã Kennedy, julgado em Nova York, aos acusados de terrorismo, em Guantánamo. Mas lembra que a imagem que guardou do 11 de Setembro pode ter alguma coisa a ver com isso. "Eu morava no Brooklin, não muito longe de Manhattan, e minha rua ficou coberta de infinitos papéis que voaram do World Trade Center. Fiquei me perguntando 'como tantas pessoas morreram ali e aqueles papéis, tão frágeis, resistiram?'"

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