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Tradição egípcia

O Egito se apega a sua tradição, entregando as chaves do país aos militares

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

27 Março 2018 | 05h00

O Egito, com 93 milhões de habitantes, terá um novo presidente escolhido pelo voto, de 26 de março a 28 de março. É um momento raro. Na verdade, muito raro mesmo. Por mais de 50 anos, os presidentes eram nomeados. E sempre militares: Nasser, o inventor do Novo Egito, de 1954 a 1970, Anwar Sadat, de 1970 a 1981. E, mais tarde, Hosni Mubarak. 

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Nada disso agora. Haverá votação democrática, mas o vencedor, provavelmente, será ainda um militar, até mesmo um marechal, Abdel Fatah al-Sissi, que chegou ao poder por um golpe de estado em 2013. As ruas do Cairo se beneficiam do retorno à democracia. Jovens desfilam com faixas glorificando o marechal. As ruas barulhenta ganharam mais decibéis graças à música desenfreada.

Inicialmente, a campanha foi tranquilizadora. Diante do marechal Sissi, as candidaturas se agrupavam. Contamos até seis. Infelizmente, os candidatos não ia muito adiante com suas ideias. Além disso, eles estavam sem sorte: Khaled Ali, especialista em direitos humanos, e Ahmed Shafiq, ex-primeiro-ministro, tiveram de responder a perguntas feitas pela Justiça. Outro militar, o coronel Ahmed Konsowa, anunciou que se apresentaria, mas foi condenado a seis anos de prisão. 

Em resumo, a tropa de candidatos foi dizimada antes mesmo de entrar em combate. Deve-se admitir que é um problema de impossível solução que o Egito tem de resolver: organizar uma eleição livre e justa, com candidatos (além de Sissi) que não conseguem nem chegar a tempo na linha de partida. Por sorte, no último momento, houve um que registrou sua candidatura. Melhor ainda: ela foi aceita, de modo que as eleições serão irrepreensíveis e até exemplares, uma vez que haverá a presença de dois candidatos: o marechal e o senhor Moussa Mostafa Moussa. 

Uma aprovação adicional: Moussa é bem conhecido porque era amigo de Sissi. Essa mudança de curso, na véspera da eleição, demonstra sua coragem e e virtude moral. Moussa, de 68 anos, é arquiteto e até tem um programa: o “capitalismo nacional”. Ele tem ainda outra virtude, a habilidade dialética. “Quando vi que Sissi não tinha ninguém à sua frente, entendi que tinha de entrar na corrida. Foi meu dever patriótico participar, porque devemos jogar o jogo democrático”. 

Há uma dificuldade: se quisermos nos informar sobre Moussa, vamos nos deparar com o programa de Sissi e seus slogans. Não é preciso entrar em pânico. Moussa não teve tempo para “mudar” a sua página do Facebook, mas ele vai fazê-lo, tudo indica. 

No entanto, e apesar do terrível Moussa, os especialistas acreditam que Sissi tem chances. Ele nasceu em uma família pobre, no Cairo. Seu pai tinha um quiosque no Bazar. Ele cresceu no distrito de Gamaliya, onde mesquitas e palácios dão testemunho da grandeza e beleza do Egito. Tendo abraçado a carreira militar, sua estreia foi discreta. Foi nomeado ministro da Defesa e chefe das Forças Armadas. E o que ele fez?

Em 2011, reconheceu que a polícia praticou testes de virgindade em garotas que haviam sido presas durante a revolução na Praça Tahrir. Ele explica: “Trata-se de proteger mulheres jovens de estupro e, ao mesmo tempo, proteger soldados da acusação de serem estupradores”.

Sissi tem outro feito. Em 2014, ele apresentou um aparato inventado por um médico militar que permite a cura da aids e da hepatite C, ao mesmo tempo. Cientistas políticos se perguntam como Sissi, com tal currículo e um nome de desenho animado, chegou à cúpula do Estado.

A resposta vem da história recente. A população ficou tão perturbada com a desordem da revolução que “ficou assustada” com qualquer “mudança”. Deve ser lembrado que Sissi substituiu Mohamed Morsi, primeiro presidente, desde Nasser, eleito e civil ao mesmo tempo. Além disso, ele era um irmão muçulmano, um trunfo nesse período de instabilidade.

Mas Morsi era de uma mediocridade incomum. Em poucos meses, ele arruinou as conquistas da revolução. Então, seria preciso nos livrar disso. Então, o povo egípcio disse: “Tudo é melhor do que um civil, até um militar”. E é Sissi quem substitui Morsi. O Egito se apega a sua tradição desde Nasser, entregando as chaves do país aos militares.

Será uma boa ideia? O lançamento do novo “rais”, em 2013, custou 3 mil mortos, 17 mil feridos e 1,9 milhão de prisioneiros. Milhares de sites foram fechados. As liberdades , esmagadas. O terrorismo, desencadeado. Em 2017, houve 800 atentados no país. A Península do Sinai é hoje o grande teatro do terror. Em 2017, na TV France 24, Sissi disse que não havia mais presos políticos no Egito. As ONGs não concordam e dizem que há mais de 60 mil. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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