Charlie Neibergall/AP
Caucus do Iowa foi realizado no dia 4, inaugurando o processo de primárias democratas Charlie Neibergall/AP

Tradicionalmente, presidente dos EUA começa a ser definido em Iowa

Desde o fim da década de 70, a escolha dos candidatos a presidente saiu do controle dos líderes partidários e passou a ser feita pela população. Iowa, onde vive só 1% dos americanos, é o primeiro Estado a indicar sua preferência

Beatriz Bulla / Enviada Especial, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2020 | 18h38

DES MOINES, EUA - Vinte oito pessoas e um golden retriever se espremiam em cadeiras improvisadas e um sofá de dois lugares no comitê de campanha de Joe Biden em Iowa City no início de fevereiro. Entre alguns apoiadores e muitos indecisos, eleitores da região buscavam ouvir de Jill Biden, mulher do ex-vice-presidente, por que ela considerava seu marido o melhor nome democrata para disputar a eleição presidencial de 2020. 

A resposta da candidata a primeira-dama apareceu nos primeiros minutos de discurso: “Joe é o único que bate Trump nas pesquisas eleitorais nos Estados-pêndulo”. “Quando estiverem cansados, andando no frio para fazer campanha, pensem no que sentiram no dia depois da eleição de Trump em 2016 para continuar a caminhar”, emendou. Iowa, um dos Estados-chave, deu início ao ano eleitoral nos EUA, com as primeiras prévias partidárias. 

A largada da campanha eleitoral dos EUA deveria ser sobre os democratas. Mas mesmo a disputa interna da oposição existente no início do ano, quando o partido ainda não tinha indicado que Biden seria o candidato democrata, era sobre Trump. “Eu quero alguém que bata Trump, isso é o mais importante agora. Biden, (Elizabeth) Warren e Bernie (Sanders) têm o apoio público, apoiam coisas similares. O que precisamos é tirar o presidente”, diz Maggie Martin, eleitora democrata em West Des Moines.

“Quero qualquer um que possa vencer Donald Trump nesse momento”, disse a eleitora Courtney Lighfoot. O processo de impeachment contra Trump, aprovado pela Câmara, de maioria democrata, chegava à sua etapa final naquela semana. O impedimento foi rejeitado pelo Senado, de maioria republicana. 

Desde o fim da década de 70, a escolha dos candidatos a presidente nos EUA saiu do controle dos líderes partidários e passou a ser feita pela população. Iowa, onde vive só 1% dos americanos, é o primeiro Estado a indicar sua preferência. Quem larga bem é beneficiado por um efeito cascata em outras prévias. O peso do Estado na política nacional é considerado desproporcional, se analisados o tamanho da população local, a falta de representação de minorias e apenas seis votos no colégio eleitoral. 

O Estado ainda tem a seu favor o fato de concentrar parte relevante da produção de grãos americana – soja e milho – e portanto atrair as atenções de qualquer presidente. Iowa e Illinois são os principais produtores de milho dos EUA, respondendo normalmente por um terço da safra do país. O milho é usado para produção de etanol, ração animal e exportação. “Iowa é um filtro. Os eleitores do Estado e os candidatos levam esse processo lá muito a sério”, diz John Zogby, estatístico americano dedicado às pesquisas eleitorais.

Depois de votar em George W. Bush em 2004, a maioria dos moradores de Iowa elegeu e reelegeu Barack Obama. Mas em 2016, o Estado ajudou Trump a chegar à Casa Branca. Se a eleição presidencial fosse na semana das prévias partidárias, em fevereiro, Trump ganharia de todos os pré-candidatos da oposição no Estado, com a margem mais apertada na disputa contra Biden - tido como o nome mais moderado entre os democratas e, portanto, com menos resistência no Estado rural.

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Em 2016, Trump recebeu 51,2% dos votos em Iowa e Hillary Clinton, 41,7%. A vantagem de mais de dez pontos foi superior à registrada em Estados considerados um reduto republicano, como o Texas, e Iowa chegou a ser retirado da lista de Estados-chave em 2020 por parte dos analistas políticos, devido ao amplo apoio dos eleitores locais a Trump.

O cenário político mudou depois da pandemia de coronavírus, no entanto, e Iowa entrou novamente na disputa. A vantagem de Trump sobre Biden no Estado, que chegou a ser de 6 pontos porcentuais no início de março, caiu para 0,7 ponto em julho. No final de outubro, a uma semana da eleição, Biden ultrapassou o republicano nas previsões, com 1 ponto de vantagem.

Moradores de Des Moines são orgulhosos pelo fato de o voto no Estado variar. “Eu quero o melhor para o país, não necessariamente votar só em um republicano ou só em um democrata”, afirmou Todd Christi, motorista de Uber.

“Desde quando o Obama foi eleito virou isso ‘do meu jeito ou então nada’. Eles não aceitaram ter um negro como presidente”, disse Gregory Allen, nascido na Pensilvânia e morador de Des Moines. Allen foi a primeira pessoa negra que a reportagem viu depois de dois dias percorrendo quatro cidades do Estado. Pouco mais de 3 milhões de habitantes moram em Iowa, sendo 91% brancos. 

O ex-vice-presidente democrata tem maior aceitação entre eleitorado branco do que Hillary tinha, o que o favorece no Estado. Em 2016, 31 dos 99 condados de Iowa elegeram Trump depois de votar duas vezes em Obama. O desafio da campanha de Biden é recuperar parte dessas regiões. 

Os termômetros marcavam -2ºC em Des Moines, na noite de 30 de janeiro, e a divisão política ficou fisicamente visível nas ruas. Trump quis marcar presença em um comício na capital do Estado. “Eu não vou perder esse Estado”, disse, sob aplausos. Na praça em frente, manifestantes contra Trump gritavam palavras de ordem olhando para a massa de bonés “Trump 2020" que se espremiam para assistir a um discurso pelo telão. 

Iowa mostra as fissuras de um país dividido entre centros urbanos, subúrbios de alta escolaridade, regiões industriais e campo. As grandes cidades e os subúrbios – regiões com renda e escolaridade acima da média nacional – são o teste da preferência do eleitor democrata padrão. Em 2008, Barack Obama ganhou força ao mostrar nas prévias feitas em Iowa que poderia levar a capital, mas também os condados ligados à indústria. Iowa, embora seja uma potência agrícola, tem experimentado um processo de urbanização, como o restante do país. 

O campo é considerado um importante reduto trumpista onde o esforço de campanha da oposição não necessariamente será recompensado em novembro. Iowa é menos urbano do que a maioria dos Estados. Nacionalmente, mais de 80% dos americanos vive em áreas urbanas. Em Iowa, 64%. O setor rural é fiel ao Partido Republicano e foi importante para a eleição de Trump. 

Fazendeiros 

Wendel Lutz bufa e permanece alguns segundos com olhar vago, enquanto toma fôlego para descrever como foram os últimos anos em sua fazenda, na divisa de Iowa com Illinois. “Esses bons resultados da economia? Não estão aqui”, começa. Ele foi um dos eleitores de Trump, em 2016. Para 2020, diz que seu voto está indefinido, apesar de dar todos os sinais de concordar com a plataforma do presidente.

Terceira geração de fazendeiros da família, Lutz mora com a irmã nas casas da propriedade comprada por seus avós. Assim como ele, os fazendeiros americanos foram castigados em dois anos de guerra comercial travada pela Casa Branca com a China. O preço da soja despencou e as exportações do grão para os chineses, que compram um terço da produção americana, também. 

É difícil encontrar quem esteja feliz com a situação econômica entre os produtores de grãos. Com queda média de 10% na receita dos fazendeiros no ano passado, o apoio a Trump aparece tímido nas conversas no setor rural, mas continua presente - mesmo após a pandemia de coronavírus.

Uma pesquisa da Quinnipiac University, divulgada em julho, mostrou que 55% dos eleitores de áreas rurais acham que Trump tem mais condições de lidar com a crise do que Biden. 

O fato de o vírus ter atingido em cheio os grandes centros urbanos, com maior densidade populacional, explica a relativa calma dos moradores de áreas rurais durante a pandemia. Nas cidades, a proporção cai para 25% e, nos subúrbios, para 33%. Enquanto em cidades e subúrbios mais de 55% das pessoas conhece diretamente alguém que tenha sido infectado, no campo o número cai para 42%.

"Ele tem um trabalho difícil a fazer. Eu não acho que ele poderia ter agido de maneira diferente", afirma Dave Walton, fazendeiro em Iowa, sobre a resposta de Trump à crise de saúde. "Pessoalmente, a minha vida seguiu. Ninguém na minha família teve problemas de saúde. Os fazendeiros ficam naturalmente isolados. Não é raro passar uma semana inteira sem contato com outras pessoas", conta Walton.

Os americanos figuram entre os maiores exportadores de grãos no comércio global. O censo de 2010 apontava que 60 milhões de americanos, 20% da população, vivia em áreas rurais, estando a maioria ao leste do Rio Mississippi, que corta o país de norte a sul e divide os Estados de Illinois e Iowa.

Juntos, os dois Estados produzem um terço de toda a safra de milho do país e estão no topo da produção de soja. Os grãos, e o gado, são as principais produções das fazendas americanas, que em sua maioria (87%) são tocadas por famílias.

Da fazenda de 200 hectares onde produz soja e milho, Lutz ecoa insatisfação com as perdas desde o início da disputa comercial com a China, mas diz que a situação já vinha se deteriorando antes da guerra de tarifas com Pequim. 

Já Dave Walton está entre os fazendeiros que ficam do lado oeste do rio, em Iowa. Em janeiro, ele dizia que seu voto ainda estava "em disputa", no início da conversa sobre política. Mas não demorava muito para que o fazendeiro mostrasse sua preferência: “Há coisas das quais posso discordar de Trump, mas ele merece crédito por ter feito a campanha eleitoral dizendo que levaria adiante algumas questões, como a da China. Talvez não tenha sido a abordagem mais fácil para nós pessoalmente, mas é preciso dizer: ele enfrenta alguns temas que outros políticos não encaram”. 

Em julho, a 100 dias da eleição, Walton afirmou que "certamente irá votar" em novembro, mas não abre o voto. A justificativa, no entanto, mostra que ele continua mais alinhado a Trump do que aos democratas. "Vendo os protestos que aconteceram nos centros urbanos, acho que essa eleição é muito importante para o rumo do país. As manifestações começaram corretamente, mas agora há anarquistas nas cidades", afirma.

A identificação de manifestantes que foram às ruas a partir de 25 de junho contra o racismo e a violência policial, depois da morte de George Floyd em Mineápolis, como anarquistas é feita por Trump. A opção do presidente diante dos protestos que se espalharam pelo país foi de radicalizar o discurso da "lei e da ordem", classificando os protestos em grande maioria pacíficos como parte de um movimento anarquista.

Já os democratas levantaram bandeiras de apoio ao movimento Black Lives Matter (vidas negras importam). Enquanto nos centros urbanos 61% dos eleitores dizem apoiar a remoção de estátuas de confederados dos ambientes públicos, um dos pleitos dos manifestantes, no campo o apoio ao movimento cai para 37%.

Walton é a quarta geração de fazendeiros de sua família. O terreno onde cultiva soja, milho e cria gado foi comprado por seu bisavô, em 1901. O pai, que nasceu e cresceu ali, ainda mora na propriedade. Walton e a família vivem em uma casa a 3 quilômetros de distância.

Nos últimos dois anos, Walton viu sua renda familiar cair em ao menos 20% e a produção de grãos, tradicionalmente dividida igualmente entre milho e soja, mudar. A briga com Pequim evoluiu mais rápido do que os fazendeiros esperavam, com a escalada de tarifas de ambos os lados. O valor de produtos agrícolas exportados para a China caiu de US$ 19,5 bilhões em 2017 para US$ 9,2 bilhões em 2018. 

Na fazenda de Walton, 60% do terreno passou a ser destinado ao milho e o restante à soja. “Foi muito penoso. Algumas conversas com o banco foram dificílimas. Saímos de um nível de lucro para a beira da falência”, conta. Mas a confiança em Trump permanece. “No longo prazo, estaremos melhores. Era preciso lidar com a China”, afirma.

Trump selou a trégua com os chineses, com a assinatura da primeira fase de um acordo comercial em dezembro, antes de entrar no ano eleitoral. O setor rural foi responsável por boa parte dos votos que fizeram Trump chegar à Casa Branca. Nas regiões urbanas, Hillary Clinton saiu na frente, mas Trump ganhou 62% dos votos das pequenas cidades rurais dos EUA, enquanto a democrata recebeu 34%. 

“Se eu não vencer, suas fazendas irão para o inferno”, disse Trump em um dos comícios no Estado. O discurso de que ele é o melhor nome para brigar pelos fazendeiros e que o cenário pode se deteriorar caso um dos democratas vença já se espalha no campo. Para Walton, democratas podem demonstrar fraqueza na negociação com os chineses e impor um revés nas negociações. 

“Temos que ser cuidadosos com o candidato que escolhemos. Esses acordos comerciais ainda não estão completos. Se tivermos uma mudança e o próximo governo for muito flexível no comércio ou fraco na política externa, nós definitivamente podemos sofrer”, diz. 

Não é apenas a questão comercial que afasta os fazendeiros dos democratas. “Votei no Trump porque não queria a alternativa a ele em 2016. Essas outras pessoas, eu não sei, o jeito que agem, que se comportam, nenhum deles é muito bom”, afirma Wendel Lutz. Ambos receberam pagamentos do governo, na verba injetada no setor rural afetado diretamente pela guerra comercial, mas afirmam que o dinheiro não foi suficiente para repor as perdas. 

“Muitas das pessoas com quem converso olham para Joe Biden da mesma forma que olhavam para Hillary Clinton. Ele esteve no governo por anos, não é o candidato que vai mudar as coisas, porque se fosse já teria feito”, afirma Walton. 

Crise climática

Em 2008, segundo pesquisa do Instituto Pew, apenas 1% dos americanos diziam que a crise climática estava no topo dos problemas do país. Em 2013, o porcentual já era de 40% e, no ano passado, chegou a 57% – um aumento puxado por eleitores democratas, segundo o instituto. Em Iowa, o tema ganha um forte componente de pressão: a memória de enchentes históricas enfrentadas em março de 2019 e a preocupação de fazendeiros com o efeito de temperaturas extremas sobre as safras de grãos.

A crise climática entrou de vez no radar dos produtores rurais após as fortes chuvas que fizeram os rios Mississippi e Missouri transbordarem. De maneira cirúrgica, os democratas passaram a prometer programas de incentivo à proteção climática direcionados especificamente a fazendeiros e agências de pesquisa agrícola. 

Rachell Corell mora em Council Bluffs, quase na divisa com o Nebraska e próximo ao Rio Missouri. Em tom de comemoração ela diz que não sofreu com as enchentes de março do ano passado, mas começa a contar histórias trágicas de amigos e funcionários próximos.

"Um colega de trabalho do meu marido precisou sair do apartamento, que é no térreo, ficou completamente alagado", disse. Vídeos e fotos da última primavera nas divisas de Iowa com Illinois e Nebraska mostram ruas e fazendas alagadas, trechos de rodovias interestadual fechadas e os silos, usados para armazenamento de grãos, em meio a verdadeiros rios. O custo econômico de perdas em cidades como Davenport é estimado em US$ 30 milhões. 

Fazendeiros reportaram no ano passado não terem sido capazes de plantar em 19 milhões de acres, sendo boa parte em regiões onde o Meio-Oeste experimentou chuvas acima do normal. O Iowa Flood Center, fundado após uma enchente que assolou o Estado em 2008, informa que apesar de as enchentes decorrem de uma série de diferentes fatores, as mudanças climáticas têm agravado o quadro de temperaturas extremas e precipitações acima da média.

A cobrança do eleitorado pela ação sobre mudança climática fez Biden colocar o tema no centro da campanha. Em julho, anunciou um plano para investir US$ 2 trilhões em quatro anos para aumentar o uso de energia limpa em transporte, engenharia e eletricidade.  "Quando Donald Trump pensa em mudança climática, a única palavra que ele diz é 'fraude'. Quando eu penso em mudança climática, a palavra em que penso é 'emprego'", disse Biden, que tenta se firmar como o candidato comprometido com o desenvolvimento sustentável, em contraposição a Trump, que retirou os EUA do Acordo de Paris e costuma dizer que o mundo deveria evitar discursos ambientais "alarmistas".

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Crise climática afeta agronegócio em Iowa e vira tema de prévias democratas

Estado americano, que deu ontem o pontapé inicial para a temporada de primárias que definirá o adversário de Donald Trump na eleição presidencial de novembro, sofre com enchentes e altas temperaturas que prejudicam a safra de grãos

Beatriz Bulla / Enviada Especial, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2020 | 05h00

DES MOINES, EUA - As enchentes de março de 2019 e as altas temperaturas que vêm afetando a safra de grãos têm virado a cabeça dos agricultores de Iowa, Estado americano que deu ontem o pontapé inicial na temporada de primárias que definirão o rival de Donald Trump na eleição presidencial de novembro. O setor rural, que sempre foi refratário ao tema, começa a mudar de opinião e o aquecimento global ganhou força na campanha nacional do Partido Democrata

Em 2008, segundo pesquisa do Instituto Pew, apenas 1% dos americanos diziam que a crise climática estava no topo dos problemas do país. Em 2013, o porcentual já era de 40% e, no ano passado, chegou a 57% – um aumento puxado por eleitores democratas, segundo o instituto. Como a economia de Iowa gira entorno do agronegócio, o assunto começou a ser levado a sério pelos produtores locais.

Ontem, passava pouco das 17 horas em Des Moines, maior cidade do Estado, quando Joe Biden subiu ao palco para seu último comício antes da votação. A plateia vibrava com as críticas a Trump em um ginásio lotado quando um grito o interrompeu: “Pare de receber dinheiro de combustíveis fósseis”. A ativista foi retirada por seguranças, mas a cena vem se repetindo na campanha democrata, cujo eleitorado cobra cada vez mais o uso de energia limpa. 

Todos os pré-candidatos democratas colocaram no topo de suas campanhas a preocupação com a crise climática. No segundo semestre de 2019, eles participaram de um debate para discutir apenas políticas de desenvolvimento sustentável. 

As propostas passam pelo apoio ao “Green New Deal”, plano ambicioso de eliminar a poluição e adotar energia renovável até 2050, e pelo compromisso em recolocar os EUA nos acordos climáticos de Paris – engavetados pela Casa Branca.

Em Iowa, a crise climática entrou de vez no radar dos produtores rurais após as fortes chuvas que fizeram os rios Mississippi e Missouri transbordarem. De maneira cirúrgica, os democratas passaram a prometer programas de incentivo à proteção climática direcionados especificamente a fazendeiros e agências de pesquisa agrícola. 

Rachell Corell vive em Council Bluffs, na divisa com Nebraska, às margens do Rio Missouri. Ela diz que não sofreu com as enchentes, mas amigos viveram experiências trágicas. “Um colega de trabalho do meu marido precisou sair do apartamento térreo que ficou alagado”, disse. Vídeos e fotos de março de 2019 mostram ruas e fazendas alagadas, trechos de rodovias fechados e os silos destruídos. As perdas foram estimadas em US$ 30 milhões. 

Em outubro, a Agência Oceânica e Atmosférica Nacional registrou que 2019 foi o ano mais úmido de que se tem notícia. Fazendeiros reclamaram que não conseguiram plantar em 19 milhões de acres, sendo boa parte em regiões cobertas pela água.

Em 2018, um estudo da Universidade Estadual de Iowa apontou que o aumento das chuvas estava entre as principais preocupações dos fazendeiros. O professor de agronomia Andy VanLoocke diz que em três dos últimos quatro anos as safras foram atrasadas em razão das chuvas. Segundo o Iowa Flood Center, as mudanças climáticas são responsáveis pelo aumento da temperatura e pelas precipitações acima da média.

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No dia 3 de novembro de 2020, 224 milhões de eleitores americanos irão às urnas e darão seu veredicto sobre a presidência de Donald Trump; veja o que mais está em jogo

 

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Fazendeiros que elegeram Trump se mantêm fiéis, apesar dos prejuízos

Produtores rurais dos EUA viram seu lucro despencar por causa da guerra comercial com a China, mas maioria ainda apoia a reeleição do presidente americano

Beatriz Bulla, ENVIADA ESPECIAL / IOWA e ILLINOIS, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2020 | 07h00

Wendel Lutz bufa e permanece alguns segundos com olhar vago, enquanto toma fôlego para descrever como foram os últimos anos em sua fazenda, na área rural de Champaign, no Estado de Illinois. “Esses bons resultados da economia? Não estão aqui”, começa. Ele foi um dos eleitores de Donald Trump, em 2016. Para 2020, diz que seu voto está indefinido, apesar de dar todos os sinais de concordar com a plataforma do presidente.

Terceira geração de fazendeiros da família, Lutz mora com a irmã nas casas da propriedade comprada por seus avós. Assim como ele, os fazendeiros americanos foram castigados em dois anos de guerra comercial travada pela Casa Branca com a China. O preço da soja despencou e as exportações do grão para os chineses, que compram um terço da produção americana, também. 

É difícil encontrar quem esteja feliz com a situação econômica entre os produtores de grãos. Com queda média de 10% na receita dos fazendeiros no ano passado, o apoio a Trump aparece tímido nas conversas no setor rural, mas continua presente.

O índice de aprovação do presidente americano em zonas rurais nunca esteve abaixo dos 50% (o menor foi de 52%, em maio de 2019). Segundo uma pesquisa do Instituto Gallup do começo do ano, 60% dos moradores de zonas rurais aprovam o governo Trump – ante 42% das zonas urbanas.

Os americanos figuram entre os maiores exportadores de grãos no comércio global. O censo de 2010 apontava que 60 milhões de americanos, 20% da população, vivia em áreas rurais, estando a maioria ao leste do Rio Mississippi, que corta o país de norte a sul e divide os Estados de Illinois e Iowa.

Juntos, os dois Estados produzem um terço de toda a safra de milho do país e estão no topo da produção de soja. Os grãos, e o gado, são as principais produções das fazendas americanas, que em sua maioria (87%) são tocadas por famílias.

Da fazenda de 200 hectares onde produz soja e milho, Lutz ecoa insatisfação com as recentes perdas, mas diz que a situação já vinha se deteriorando antes da guerra de tarifas com Pequim. “Eu ouvi muitas histórias de pessoas tentando pagar alugueis mais baixos, e muitos não conseguem. Pegue qualquer setor da economia, ganhe apenas 70% do que você ganhava e tente pagar as suas contas do mesmo jeito”, diz Lutz.

Durante a conversa, o fazendeiro mostra desconfiança dos chineses, critica a qualidade dos grãos produzidos na América do Sul, fala de problemas com aumento das chuvas mas minimiza a crise climática. Para ele, “só uma peste mundial” esvaziaria os armazéns a ponto de atrair a atenção do mundo para a importância das safras. 

Na outra margem

Dave Walton está entre os fazendeiros que ficam do lado oeste do rio, em Iowa. Ele diz que seu voto na eleição em 2020 “ainda está em disputa”. “Sou registrado como eleitor independente, voto no melhor candidato, independentemente de partido”, afirma, no início da conversa sobre política.

Ele é a quarta geração de fazendeiros de sua família. O terreno onde cultiva soja, milho e cria gado foi comprado por seu bisavô, em 1901. O pai, que nasceu e cresceu ali, ainda mora na propriedade. Walton e a família vivem em uma casa a 3 quilômetros de distância.

Mas não demora muito para que o fazendeiro mostre sua preferência: “Há coisas das quais posso discordar de Trump, mas ele merece crédito por ter feito a campanha eleitoral dizendo que levaria adiante algumas questões, como a da China. Talvez não tenha sido a abordagem mais fácil para nós pessoalmente, mas é preciso dizer: ele enfrenta alguns temas que outros políticos não encaram”. 

Nos últimos dois anos, Walton viu sua renda familiar cair em ao menos 20% e a produção de grãos, tradicionalmente dividida igualmente entre milho e soja, mudar. A briga com Pequim evoluiu mais rápido do que os fazendeiros esperavam, com a escalada de tarifas de ambos os lados. O valor de produtos agrícolas exportados para a China caiu de US$ 19,5 bilhões em 2017 para US$ 9,2 bilhões em 2018. 

Na fazenda de Walton, 60% do terreno passou a ser destinado ao milho e o restante à soja. “Foi muito penoso. Algumas conversas com o banco foram dificílimas. Saímos de um nível de lucro para a beira da falência”, conta. Mas a confiança em Trump permanece. “No longo prazo, estaremos melhores. Era preciso lidar com a China”, afirma.

A fazenda de Dave Walton fica na região de Wilton, uma cidade com pouco menos de 3 mil habitantes que está a 3 horas de carro da capital de Illinois e a 2 horas da capital de Iowa. Do centro urbano mais movimentado de Davenport até a fazenda, são 48 km na estrada cruzando campos cobertos por neve em janeiro e onde, no verão, estão as plantações de grãos. 

Trump selou a trégua com os chineses, com a assinatura da primeira fase de um acordo comercial em dezembro, antes de entrar no ano eleitoral. O setor rural foi responsável por boa parte dos votos que o fizeram chegar à Casa Branca. Nas regiões urbanas, Hillary Clinton saiu na frente, mas Trump ganhou 62% dos votos das pequenas cidades rurais dos EUA, enquanto a democrata recebeu 34%. Em 2020, ao menos nestas duas margens do Mississippi, o apoio deve continuar.

Distância dos democratas

Na véspera do final de semana de aquecimento das prévias democratas, no começo de fevereiro, em um comício em Iowa, Trump fez uma declaração de amor aos fazendeiros do Estado, pouco depois de fazer uma ameaça: “Se eu não vencer, suas fazendas irão para o inferno”.

O discurso de que ele é o melhor nome para brigar pelos fazendeiros e que o cenário pode se deteriorar caso um dos democratas vença já se espalha no campo. Para Dave Walton, fazendeiro na região de Wilton, em Iowa, candidatos democratas podem demonstrar fraqueza na negociação com os chineses e impor um revés nas negociações. 

“Temos que ser cuidadosos com o candidato que escolhemos. Esses acordos comerciais ainda não estão completos. Se tivermos uma mudança e o próximo governo for muito flexível no comércio ou fraco na política externa, nós definitivamente podemos sofrer”, diz. 

Não é apenas a questão comercial que afasta os fazendeiros dos candidatos democratas. Ao citar os problemas que vê em cada um deles, Walton isenta de críticas apenas um dos nomes: o da senadora Amy Klobuchar. Tida como a mais conservadora entre os democratas, ela aparece sempre na lanterna das pesquisas eleitorais, em quinto lugar nas intenções de voto.

“Votei no Trump porque não queria a alternativa a ele em 2016. Essas outras pessoas, eu não sei, o jeito que agem, que se comportam, nenhum deles é muito bom”, afirma Wendel Lutz, fazendeiro de Illinois. Ambos receberam pagamentos do governo, na verba injetada no setor rural afetado diretamente pela guerra comercial, mas afirmam que o dinheiro não foi suficiente para repor as perdas. 

“Muitas das pessoas com quem converso olham para Joe Biden da mesma forma que olhavam para Hillary Clinton. Ele esteve no governo por anos, não é o candidato que vai mudar as coisas, porque se fosse já teria feito”, afirma Walton. 

Se em Biden o problema é ser parte do establishment, Pete Buttigieg, para o fazendeiro, não mostrou experiência suficiente. “Não estou seguro sobre sua experiência”, afirma Walton. “Ele era um prefeito. Daremos uma chance a ele para ser líder não só do nosso país, mas um líder mundial, com tão pouca experiência?”, questiona.

No lado do espectro progressista, composto por Sanders e por Elizabeth Warren, fazendeiros apontam um medo: a tributação de renda alta. Parte da plataforma democrata durante as prévias é focada na taxação de bilionários como estratégia para financiar saúde e educação. “Há alguns candidatos no lado democrata que prometem que irão pagar por alguns de seus programas com mais imposto, isso nunca é uma coisa boa. Taxar a renda vai reduzir a renda”, afirma Walton.

 

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Rival de Trump nas eleições começa a ser definido em Iowa, nos EUA

Estado produtor de grãos tem 1% da população, mas é chave em eleição americana

Beatriz Bulla, enviada especial a Des Moines, Iowa

02 de fevereiro de 2020 | 05h00

Vinte oito pessoas e um golden retriever se espremiam em cadeiras improvisadas e um sofá de dois lugares no comitê de campanha de Joe Biden em Iowa City na quinta-feira. Entre alguns apoiadores e muitos indecisos, eleitores da região buscavam ouvir de Jill Biden, mulher do ex-vice-presidente, por que ela considera seu marido o melhor nome democrata para disputar a eleição presidencial de 2020. 

A resposta da candidata a primeira-dama apareceu nos primeiros minutos de discurso: “Joe é o único que bate Trump nas pesquisas eleitorais nos Estados pêndulo”. “Quando estiverem cansados, andando no frio para fazer campanha, pensem no que sentiram no dia depois da eleição de Trump em 2016 para continuar a caminhar”, emendou. O Estado é considerado pêndulo, pois oscila entre democratas e republicanos no voto presidencial. 

A largada da campanha eleitoral dos EUA, com as primeiras prévias marcadas para amanhã, deveria ser sobre os democratas, que começam a definir o nome que irá concorrer à Casa Branca. Mas a disputa interna da oposição é sobre Trump. “Eu quero alguém que bata Trump, isso é o mais importante agora. Biden, Warren e Bernie têm o apoio público, apoiam coisas similares. O que precisamos é tirar o presidente”, diz Maggie Martin, eleitora democrata em West Des Moines. “Meu candidato é o Pete Buttigieg, mas quero qualquer um que possa vencer Donald Trump nesse momento”, também diz Courtney Lighfoot. O processo de impeachment contra Trump, aprovado pela Câmara, de maioria democrata, chega a sua etapa final nesta semana. A previsão é de que o Senado rejeite a acusação contra o presidente nesta quarta-feira. 

Desde o final da década de 70, a escolha de quem serão os candidatos a presidente nos EUA saiu do controle dos líderes partidários e passou a ser feita pela população. Iowa, onde vive só 1% dos americanos, é o primeiro Estado a indicar sua preferência. Quem larga bem é beneficiado por um efeito cascata em outras prévias. 

O peso do Estado na política nacional é considerado desproporcional, se analisados o tamanho da população local, a falta de representação de minorias e apenas seis votos no Colégio Eleitoral. Nos EUA, o sistema de voto é indireto e o Colégio Eleitoral é decisivo. Os eleitores escolhem os delegados do colegiado que, por sua vez, define o presidente. O número de eleitores de cada Estado é definido pela população e representação na Câmara. O Estado com maior número de delegados é a Califórnia, tendo 55 de 538 cadeiras. São necessários 270 votos para ser eleito à Casa Branca. Na maioria dos Estados, o candidato que tem o maior número de votos dos cidadãos leva todos os votos dos delegados daquele estado. Em 2016, Hillary Clinton ganhou de Trump no voto popular mas perdeu o voto do Colégio Eleitoral.

Iowa ainda tem a seu favor o fato de concentrar parte relevante da produção de grãos americana – soja e milho – e portanto atrair as atenções de qualquer presidente. Iowa e Illinois são os principais produtores de milho dos EUA, respondendo normalmente por um terço da safra do país. O milho é usado para produção de etanol, ração animal e exportação. “Iowa é um filtro. Os eleitores do Estado e os candidatos levam esse processo lá muito a sério”, diz John Zogby, estatístico americano dedicado às pesquisas eleitorais. 

Depois de votar em Bush em 2004, os moradores de Iowa ajudaram a eleger e reeleger Obama, mas em 2016 ajudaram Trump a chegar à Casa Branca. Se a eleição presidencial fosse hoje e se resumisse a Iowa, Trump ganharia de todos os candidatos, com as margens mais apertadas nas disputas contra Biden e Buttigieg (2 pontos e 1 ponto porcentual de diferença do republicano, respectivamente). Os dois são tidos como os mais moderados na oposição e atraem o voto do Estado rural e predominantemente branco. Em 2016, Trump recebeu 51,2% dos votos e Hillary, 41,7%. 

Moradores de Des Moines são orgulhosos pelo fato de o voto no Estado variar. “Eu quero o melhor para o país, não necessariamente votar só em um republicano ou só em um democrata”, afirmou Todd Christi, motorista de Uber. “Desde quando o Obama foi eleito virou isso ‘do meu jeito ou então nada’. Eles não aceitaram ter um negro como presidente”, disse Gregory Allen, nascido na Pensilvânia e morador de Des Moines. Allen foi a primeira pessoa negra que a reportagem viu depois de dois dias percorrendo quatro cidades do Estado. Pouco mais de 3 milhões de habitantes moram em Iowa, sendo 91% brancos. 

Em um cenário disperso na oposição, eleitores justificam a escolha com base na chance de cada um dos candidatos se viabilizar e atrair votos suficientes contra Trump. Os favoritos são Joe Biden e o senador Bernie Sanders, com 27% de intenções de voto dos eleitores cada. O ex-prefeito de South Bend, Indiana, Pete Buttigieg e a senadora Elizabeth Warren aparecem com 18% e 16%, respectivamente. Os dados são do agregador de pesquisas eleitorais FiveThirtyEight. 

Os partidos fazem primárias e caucuses nos Estados para definir os delegados que representarão cada região na convenção nacional da legenda. Esses delegados não se confundem com os do Colégio Eleitoral. O nome que obtiver a maioria simples dos votos dos delegados do partido é nomeado candidato. O bilionário Michael Bloomberg não participa das primárias em Iowa. Bernie e Warren são considerados o polo mais à esquerda entre os candidatos, enquanto Biden e Buttigieg são apontados como centristas. 

Resposta de Trump

Os termômetros marcavam -2ºC em Des Moines, na noite de quinta-feira, e a divisão política ficou fisicamente visível nas ruas. Trump quis marcar presença em um comício na capital de Iowa. “Eu não vou perder esse Estado”, disse, sob aplausos. Na praça em frente, manifestantes contra Trump gritavam palavras de ordem olhando para a massa de bonés “Trump 2020”. Os anti-Trump eram eleitores de Warren, Bernie, Biden, Pete, com broches de campanhas e cartazes variados. A coesão no grupo, disperso até nos gritos de guerra, era em torno da crítica ao presidente. Do outro lado, eleitores do presidente revidavam em uníssono pedindo “four more years” (mais quatro anos). 

A divisão – dentro e fora do partido democrata – sobre como enfrentar Trump deixou sequelas para parte dos candidatos. Na sexta-feira à noite, Bernie Sanders lotou um ginásio com eleitores, mas teve de participar via telefone pois não conseguiu viajar de Washington, onde estava na votação do impeachment de Trump, a Des Moines a tempo de seu próprio comício. 

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