Alejandro Pagni/AFP
Alejandro Pagni/AFP

Traficante liga Chávez à campanha de Cristina na Argentina

Extradição de criminoso preso no Brasil marca semana de fogo para kirchnerismo

Rodrigo Cavalheiro , CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES

05 de julho de 2016 | 05h00

BUENOS AIRES - O traficante argentino Ibar Pérez Corradi, preso em Foz do Iguaçu no dia 19, denunciou lavagem de dinheiro para financiar a eleição de Cristina Kirchner em 2007. Prestes a ser extraditado de Assunção, ele afirmou que a doação de cheques sem fundos por farmácias envolvidas com drogas sintéticas escondia a real origem dos fundos de campanha. E citou US$ 800 mil apreendidos há nove anos em Buenos Aires, vindos da Venezuela. 

Segundo o empresário que transportava o dinheiro em uma maleta, o americano-venezuelano Antonini Wilson, a remessa era uma ajuda de Hugo Chávez para a campanha. Cristina acusou o governo americano de complô. 

Nas gravações divulgadas na noite de domingo, Pérez Corradi não relaciona o dinheiro proveniente da Venezuela ou o chavismo ao narcotráfico. Mas vincula ex-funcionários kirchneristas de primeiro escalão à venda internacional de drogas.

“No tema tanto da cocaína como da efedrina, (José Ramón) Granero prestava contas a Aníbal Fernández e, no tráfico de efedrina legal e ilegal, Ricardo Echegaray estava vinculado com um contêiner disfarçado com azulejos”, diz o traficante em trecho difundido no programa Periodismo Para Todos. Granero era o encarregado da secretaria de combate a drogas, Fernández era o número 2 do kirchnerismo e chefe de gabinete de Cristina, Echegaray era o comandante do Fisco.

A principal acusação contra Pérez Corradi é a participação em um homicídio triplo que vitimou donos das farmácias cuja fachada servia para produção e distribuição de drogas sintéticas. A Justiça investigava a relação entre narcotráfico e o governo anterior, por considerar o valor doado pelas empresas incompatível com sua renda. A origem mais provável para o dinheiro segundo a Justiça são cartéis mexicanos.

Frentes. A disposição de Pérez Corradi de dar sua versão imediatamente chega numa semana em que a ex-presidente, ex-funcionários e aliados irão a uma só corte em causas que cobrem boa parte do código penal. Alguns dos delitos são enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro, fraude financeira, superfaturamento e suborno.

Pelo tribunal de Comodoro Py, no bairro do Retiro, passarão hoje os filhos do empreiteiro kirchnerista Lázaro Báez, acusado de enriquecimento ilícito. Preso desde abril, sua vez de depor será amanhã. Ele até agora não declarou por que foi tão beneficiado por concessões que o levaram a acumular um patrimônio de US$ 140 milhões, mas tem dado sinais de distanciamento de Cristina. “Não é justo que a corda arrebente nele”, disse da prisão em entrevista no fim de semana.

A própria ex-presidente terá de ir ao tribunal para ser notificada na causa que investiga fraude na venda de dólar futuro no fim de seu governo. Espera-se no mesmo dia seu ex-ministro do Planejamento, Julio de Vido, para explicar casas que não saíram do papel.

A motor da celeridade judicial foi o flagrante contra José López, ex-secretário de Obras Públicas, preso ao jogar US$ 8,9 milhões sobre o muro de um convento. O caso marcou uma queda na popularidade de Cristina e uma série de deserções em seu grupo político. 

“Ela poderia ser candidata a senadora por duas províncias na eleição de 2017, mas só voltaria a uma disputa com a certeza de vitória”, diz o sociólogo e consultor Ricardo Rouvier. José López está no lote de kirchneristas que deve depor hoje.

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