AFP PHOTO / NORBERTO DUARTE
AFP PHOTO / NORBERTO DUARTE

Traficante quer evitar extradição à Argentina

Associado ao aumento da venda de drogas sintéticas durante período kirchnerista, chefão diz temer ser morto por ‘ex-espiões do governo

Rodrigo Cavalheiro , CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES

22 Junho 2016 | 05h00

O foragido mais procurado da Argentina até domingo, quando foi preso em Foz do Iguaçu e levado a Assunção, decidiu ontem dificultar o processo de extradição a seu país. Ibar Pérez Corradi, de 38 anos, afirmou a um juiz temer ser assassinado caso regresse. Ele pediu para ser julgado no Paraguai, onde teve dois filhos em seus quatro anos de fuga. 

Caso aceitasse uma extradição rápida, como deu a entender que faria na segunda-feira, a transferência levaria até 15 dias. Agora, o processo tende a se arrastar por meses. “Ele só ganha tempo. Como são governos em sintonia política e não é preciso traduzir documentos, até o Natal ele deve estar na Argentina”, prevê o advogado criminalista Hugo López.

Carribero, que reconhece o risco de que mandem matar o traficante. “Há gente poderosa interessada em que não fale.” Pérez Corradi disse que temia ser morto por ex-espiões do governo de Cristina Kirchner. 

A Argentina prevê o benefício da delação premiada em casos de narcotráfico, lavagem de dinheiro e terrorismo. O traficante é acusado de planejar um triplo homicídio há oito anos contra três empresários farmacêuticos ligados à venda de efedrina, usada na produção de drogas sintéticas. Procurado pela Interpol e com pedido de extradição dos EUA, ele foi responsável pelo aumento no consumo da substância durante o kirchnerismo. 

Integrantes da coalizão de Mauricio Macri dizem que o governo de Cristina fez vista grossa à atuação do traficante. Durante a campanha eleitoral do ano passado, um condenado pelos três homicídios acusou o último chefe de gabinete de Cristina, Aníbal Fernández, de ser o mandante do crime. O preso afirmou ter levado à casa de Fernández pagamentos de US$ 2 milhões e US$ 3 milhões referentes à venda da droga. Pérez Corradi poderia confirmar ou não esse elo. Na segunda-feira, antes de viajar a Londres para assistir a um campeonato de hóquei, o ex-ministro disse não estar preocupado com a detenção.

 

A conexão entre o último número 2 do kirchnerismo e o narcotráfico não foi provada, mas a suspeita o levou a perder a disputa pelo governo da Província de Buenos Aires. A derrota kirchnerista no principal colégio eleitoral foi determinante para Macri chegar à Casa Rosada. 

Digitais. Pérez Corradi foi capturado com as digitais apagadas. Até chegar a sua localização, o Paraguai destituiu a cúpula policial e deteve agentes que haviam garantido a ele documentos falsos. Pérez Corradi havia vivido em um condomínio no lado paraguaio da tríplice fronteira e passado para o Brasil depois de sua última identidade falsa ser descoberta. Ele estava em Foz em um apartamento com a mãe de seus dois últimos filhos.

A paraguaia Gladys Delgado disse não saber da dupla identidade do marido. “Ele comigo sempre se comportou bem, nunca levantou a voz, nunca me bateu, é um excelente pai. Quando perguntei há uns 15 dias o que tinha ocorrido com suas mãos, disse que tinha queimado os dedos preparando mate.”

Segundo o advogado López Carribero, há antecedentes de criminosos que tentam apagar digitais, mas é incomum investir em um procedimento técnico. No caso de Pérez Corradi, há indícios de uso de ácido e cirurgia plástica. Ele pagou US$ 50 mil pelo serviço.

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