Mohamed Ben Khalifa/AP
Mohamed Ben Khalifa/AP

Traficantes cobram para imigrantes poderem respirar no deck de barcos

Segundo relatos de sobreviventes ouvidos pela ONU, é preciso pagar até 3 mil euros para ter acesso ao deck das embarcações

Jamil Chade, Correspondente / Genebra, O Estado de S. Paulo

28 de agosto de 2015 | 09h37

GENEBRA - Imigrantes relatam que, em barcos superlotados que cruzam diariamente o Mar Mediterrâneo em direção à Europa, traficantes que organizam as rotas estão cobrando para que os passageiros possam respirar.

Depoimentos coletados pela ONU com sobreviventes indicam que os grupos criminosos tem forçado centenas de pessoas a entrar em porões nas embarcações. Fica no deck do barco apenas quem tem 3 mil euros, uma verdadeira fortuna para imigrantes que abandonaram tudo em seus países de origem e perambulam por anos até chegar aos portos no norte da África.

Abdel, um imigrante sudanês de 25 anos, contou à ONU o que ocorreu em um dos barcos naufragados nesta semana. "Não queríamos descer ao porão. Mas eles nos espancaram com paus para que fôssemos onde queriam", disse. "Não tínhamos ar e tentamos respirar pelas frestas do teto."

"Outros passageiros ficaram com medo de que nosso movimento levaria o barco a naufragar e nos bateram também", disse. Segundo Abdel, quem quisesse deixar o porão para respirar tinha de pagar.

"Traficantes estão cobrando das pessoas para permitir que saiam dos porões para que possam respirar", explicou a porta-voz do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur), Melissa Fleming.

Mahdi, Um outro imigrante, contou que os traficantes cobraram 3 mil euros para que ele, sua esposa e uma filha pudessem fazer a travessia no deck do barco. Mahdi, um cirurgião de Bagdá, admite que poucos poderiam pagar por aquele luxo.

Para a ONU, um dos elementos de maior preocupação nas últimas semanas tem sido o asfixiamento dessas pessoas transportadas nos poros das embarcações. Na quarta-feira, um barco com 124 pessoas chegou a Lampedusa, no sul da Itália. Nele, três nigerianas tinham morrido por falta de ar.

No mesmo dia, outras 16 pessoas foram levadas para hospitais por queimaduras de gasolina que vazou no porão. No dia seguinte, mais um barco com três pessoas mortas, intoxicadas pela fumaça do motor, foi localizado. Uma das vítimas viajava com uma criança de três semanas.

"Muitos imigrantes iniciam a travessia em condições de saúde deploráveis, depois de passar meses tentando fugir de conflitos", disse Federico Soda, diretor da Organização Internacional de Migrações.

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