Traficantes latinos usam submarino para levar droga

Dados da ONU, da agência de fronteiras da Europa e do governo dos EUA indicam que prática ganha cada vez mais força

JAMIL CHADE , CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2012 | 03h08

Traficantes de drogas da América do Sul e da África já estariam transportando um terço de narcóticos que enviam aos Estados Unidos e parte do contrabando para a Europa em submarinos, muitos deles pilotados por controle remoto.

Dados das Nações Unidas, da agência de fronteiras da Europa e do governo americano indicam que a prática vem ganhando adeptos entre os grupos criminosos, cada vez mais ousados na tentativa de escapar à repressão estabelecida por governos e dos sofisticados mecanismos de controle das fronteiras terrestres.

Os traficantes levam os submarinos até locais próximos à costa e fazem o último trajeto em barcos de alta velocidade. Feitos de fibra e navegando na máxima profundidade possível, os submarinos têm conseguido escapar dos controles estabelecidos por grupos de repressão ao tráfico, dos radares e dos satélites.

Com uma autonomia para navegar até 3,5 mil quilômetros e capacidade para transportar mais de dez toneladas de drogas, o uso dos submarinos estaria cada vez mais popular entre os grupos criminosos.

Em seu mais recente relatório, a Frontex - agência de monitoramento das fronteiras da Europa - não deixa dúvidas sobre o fenômeno.

"Há evidências de que cartéis de drogas do oeste da África estão usando submarinos para facilitar seu comércio", indicou o documento. "Esses 'narcossubmarinos' podem transportar relativamente grandes quantidades de drogas e são difíceis de se detectar", afirmou a agência.

Estratégia. O Estado obteve confirmações de que a ONU também lançará um alerta em relação à prática, em seu relatório anual sobre drogas que será publicado no final de junho.

As rotas usadas por essas embarcações seriam das mais complexas. Os submarinos deixam a América do Sul e chegam até a África, um verdadeiro entreposto para a Europa. De lá, submergem outra vez na direção do sul da Europa.

Já em 2006, um submarino foi interceptado na costa norte da Espanha, em Santiago de Compostela. O aparelho havia sido abandonado e a cocaína já havia sido retirada. Mas a ideia naquele momento era de que o incidente era algo isolado.

Na Itália, o grupo mafioso Ndrangheta havia encomendado naquele mesmo ano dez toneladas de cocaína para serem transportadas em um submarino. No entanto, o aparelho foi detectado antes mesmo de sair da América do Sul.

Alexandre Schmidt, do Escritório da ONU sobre Drogas e Crimes, confirma a suspeita do crescimento da prática na rota para a Europa. Ele, porém, indica que a quantidade ainda não é a mesma da que se pode registrar na América Central.

Mesmo assim, o investimento compensaria. Com um carregamento que pode chegar a US$ 400 milhões em drogas, o investimento de US$ 2 milhões na compra do submarino acaba sendo rapidamente abatido.

"Não estamos falando de barcos militares, mas de submarinos menores que podem ser comprados facilmente no mercado internacional por qualquer um que tenha alguns poucos milhões de dólares para gastar", explicou Schmidt.

Busca. Até agora, 72 deles já foram encontrados por diferentes governos em diferentes partes do mundo. Mas os indícios são de que os números seriam bem superiores.

De acordo com a Guarda Costeira de San Diego, nos Estados Unidos, só em 2007 cerca de 40 submarinos deixaram a América do Sul na direção da região.

No ano seguinte, a Marinha dos Estados Unidos diz ter detectado 42 e informou que, no ano, 85 viagens poderiam ter transportado 340 toneladas de drogas.

No entanto, a falta de registros dessas embarcações e o fato de não terem documentos de produção tornam a tarefa de identificar o tamanho da frota ainda mais complicado.

Em 2010 e 2011, submarinos apreendidos no Equador e na Colômbia também confirmam que a prática é cada vez mais generalizada. Um deles havia sido construído com fibra de vidro e chegava a ter ar-condicionado.

Há apenas uma semana, o governo de Bogotá anunciou a captura de mais uma dessas embarcações, desta vez nas proximidades do Porto de Buenaventura, o principal usado pelo país no Oceano Pacífico.

O Departamento de Interior dos Estados Unidos chega a estimar que, hoje, 32% do tráfico de drogas da Colômbia e da América do Sul em direção ao território americano já ocorre em parte graças aos submarinos.

O caso chegou até o Congresso americano que, no ano passado, foi obrigado a tomar uma posição, declarando que "operar e embarcar em barcos submergíveis sem nacionalidade é um sério problema internacional, facilita o crime organizado, incluindo o tráfico de drogas e terrorismo". Para os deputados dos EUA, essa prática "apresenta uma ameaça específica para a segurança da navegação marítima e para a segurança dos Estados Unidos".

Segundo a assessoria de imprensa da Frontex, europeus e americanos já estão compartilhando informações sobre os submarinos capturados e sobre suspeitas de movimentações, no esforço de fechar mais uma porta para os grupos criminosos. Entretanto, eles admitem que a ousadia dos traficantes ganha "proporções sofisticadas" diante dos potenciais lucros.

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