Traficantes lucram com tragédia do Nepal

Ao menos 950 mil crianças vivem em tendas e gangues se aproveitam para obter até US$ 570 por venda

GORDON, BROWN, GLOBAL VIEWPOINT, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2015 | 02h02

As consequências da tragédia do terremoto no Nepal, que matou 8 mil pessoas e deixou quase 20 mil feridas, se agravam a cada dia. Em num novo desdobramento sinistro, pais estão sendo instruídos a proteger seus filhos de gangues de cruéis traficantes humanos que, segundo relatos, chegam a receber US$ 570 por menina ou menino que fornecem.

Pelo menos 950 mil crianças no Nepal estão vivendo em tendas improvisadas nas ruas ou do lado de fora de escolas e não poderão retornar às aulas durante meses, a menos que medidas urgentes sejam tomadas. Com todas a salas de aula fechadas até o dia 29 num país que, nos últimos anos, perdeu 200 mil garotas para o tráfico e a exploração internacional, crescem os temores de que as crianças distribuídas pelas ruas e campos possam ser presas fáceis desses traficantes.

O governo do Nepal vem transmitindo mensagens pelo rádio para os pais não deixarem seus filhos desprotegidos e ficarem de olho em pessoas suspeitas tentando conversar com meninas nos campos. Assistentes sociais do país - que estimam que, em tempos normais, cerca de 7 mil a 15 mil meninas e jovens mulheres são traficadas anualmente através da longa fronteira para bordeis indianos - temem um crescimento enorme desses números. A Maiti Nepal, uma ONG que atua para impedir o tráfico para a Índia para trabalho sexual forçado e no resgate e reabilitação de sobreviventes, alegou que traficantes nessa área estão recebendo até 30 mil rupias indianas a cada vez em que fornecem uma pessoa.

As garotas não recrutadas para a prostituição podem ser vendidas como escravas domésticas na Índia. Os meninos são levados para trabalhos forçados. A escalada da ameaça de exploração infantil que as crianças desabrigadas agora enfrentam enfatiza a necessidade de uma ajuda humanitária urgente para retirar as crianças das ruas. Impedir o abuso de crianças e levá-las de volta às escolas são dois lados da mesma moeda da proteção infantil.

O Departamento de Educação do Nepal reportou que 14.541 salas de aula foram destruídas e 9.182 danificadas, totalizando 23.723 afetadas.

Enquanto o departamento mobilizou uma equipe de 60 engenheiros voluntários para realizar avaliações estruturais, o premiê prometeu reconstruir os edifícios públicos e a infraestrutura. O custo da primeira fase da reconstrução dos edifícios públicos foi estimado em US$ 2 bilhões.

A ironia é que, até agora, o Nepal deu grandes passos para alcançar a educação universal. Em 2000, cerca de 700 mil crianças estavam fora da escola. Em 2015, esse número havia caído dramaticamente para apenas 45 mil - 1% das crianças do país - com mais meninas que meninos matriculados na educação primária.

Mas esses avanços estão ameaçados após a resposta limitada da educação desde o terremoto. Os grupos de educação e proteção criaram 58 espaços favoráveis a crianças que atendem mais de 5.800 crianças afetadas pelo terremoto com a provisão de atividades artísticas, jogos, esportes e suporte psicossocial. Cerca de 1.100 professores estão instruídos a oferecer mensagens de retorno à escola e ajuda psicossocial imediata. Mas pouco mais pôde ser feito porque, embora o financiamento venha chegando lentamente ao Nepal para saúde, abrigo, alimentos e saneamento, ele virtualmente inexiste quando se trata de educação.

Após o desastre, foi feito um apelo por US$ 21,4 milhões para o setor de educação. Mais de duas semanas depois do terremoto, apenas 1,3% do pedido para essa área foi atendido por uma contribuição única da Suécia ao Plano Internacional.

A necessidade de uma ação preventiva torna-se mais evidente quando vemos a diferença entre a experiência de escolas modernizadas e as outras durante o terremoto. Um dos sinais encorajadores para a prevenção de danos futuros em terremotos é que as escolas que foram modernizadas como precaução contra tremores escaparam da maioria dos danos. O custo médio para modernizar a segurança em terremotos de salas de aula existentes é de cerca de US$ 2,6 mil, e o custo para modernizar salas de aula novas é de mais ou menos US$ 9 mil.

O custo para reconstruir todas as salas de aula seria de aproximadamente US$ 213 milhões. Modernizar todas as salas de aula do país poderia custar outros US$ 450 milhões. Tudo isso depõe a favor de a comunidade internacional criar um fundo humanitário para educação em emergências. Precisamos ser capazes de agir rapidamente e estarmos prontos para fazer doações, acelerando a volta das crianças às escolas e impedindo sua exploração.

Estamos vendo que os custos de um terremoto não são medidos apenas em perdas de vidas e ferimentos, mas também no sofrimento prolongado que vem quando traficantes exploram uma crise para destruir as vidas de meninas e meninos. Isso ressalta a necessidade de nossa proposta de um fundo humanitário para a educação em emergências ser discutida no Fórum Mundial de Educação na Coreia do Sul esta semana - e a necessidade de ela ser aprovada pela comunidade internacional na Cúpula de Oslo sobre Educação e Desenvolvimento, em julho. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É EX-PREMIÊ BRITÂNICO

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