Lourival Sant?Anna/Estadão
Lourival Sant?Anna/Estadão

Tráfico humano movimenta 300 milhões de euros

Segundo Europol, muitos narcotraficantes já abandonaram o comércio de drogas para se dedicarem exclusivamente aos refugiados

Jamil Chade ENVIADO ESPECIAL PASSAU, ALEMANHA, O Estado de S. Paulo

06 Setembro 2015 | 07h00

Vendendo um sonho a desesperados, milhares de traficantes de pessoas lucram com a crise de refugiados e fazem uma economia paralela ganhar força. Estimativas apontam que o fluxo de dinheiro já chega a 300 milhões de euros em 2015, pagos pelos ilegais por uma chance de entrar na União Europeia (UE). Muitos são enganados e mais de 3,7 mil já morreram no caminho.

Com a dificuldade da UE em lidar com a crise, a venda de esperança ganhou proporções inéditas. Criminosos comuns em busca de lucros ou redes criminosas passaram a explorar os imigrantes. Segundo a Europol, 3 mil pessoas estariam envolvidas, principalmente nos Bálcãs. Segundo investigações, muitos já deixaram o tráfico de cigarros ou de drogas para se concentrar nos refugiados. 

No total, 130 investigações estão ocorrendo sobre redes de traficantes – 40 envolvem narcotraficantes que passaram a ver a crise como oportunidade mais rentável. Apenas no caminhão onde 71 corpos foram encontrados numa estrada austríaca, a estimativa da polícia é de que os traficantes coletaram 100 mil euros das vítimas.

Refugiados que conversaram com o Estado durante a semana revelam que as redes começam a operar na Turquia. Nas lojas de algumas cidades da costa, barcos infláveis ou com pequenos motores estão praticamente esgotados. Parte do 1,9 milhão de sírios vivendo na Turquia espera chegar à UE navegando de forma precária. 

Quem também lucra com isso são os comerciantes. Segundo os refugiados, foi difícil encontrar coletes salva-vidas para vender em cidades como Bodrum, diante da procura. Nas mesmas lojas, outro produto muito vendido é o apito, para o caso de o barco naufragar. 

As casas de câmbio turcas também ganham. Para tentar ter certa segurança, os refugiados exigem garantias de que serão levados à Europa. Um acordo é feito e o candidato a cruzar o mar deposita o dinheiro em uma dessas casas. Se em uma semana ele não for levado, o refugiado recupera o dinheiro. Mas, mesmo assim, o estabelecimento comercial fica com mais de 50 euros. 

Ao lado do comércio regular, autoridades apontam que um mercado paralelo já surgiu: a venda de passaportes falsificados. Os mais procurados são os sírios, já que isso representa certa garantia de que aquelas pessoas conseguirão status de refugiado. 

Mohamed, de Alepo, na Síria, gastou 4,5 mil euros para chegar à Alemanha. Ele diz que o preço do “táxi” – como são chamados os carros dos traficantes – aumentou desde que a Hungria passou a impedir a circulação de trens. “As negociações com os traficantes eram feitas na estação de Budapeste, diante dos guardas”, contou, segurando a passagem que comprou e não pôde usar. 

Um dos refugiados diz que há acordo de tabelar os preços da viagem entre os traficantes. “Na Turquia, pesquisei com seis grupos. Todos deram o mesmo preço para chegar à Grécia de barco”, contou Ahmad. A tabela previa 1 mil euros para barcos infláveis e 3 mil euros para embarcações maiores. 

Ali, de 23 anos, não quer sua foto publicada nem seu nome completo revelado. Ele acredita que sua família – que ficou na Turquia – pode ser punida pelos criminosos se ele for identificado. Caminhando pela Sérvia, achou que fosse morrer. “Nosso grupo tinha oito pessoas e o traficante. Quando vimos a polícia, nos escondemos e o traficante tirou uma arma da sacola e nos disse que nos mataria se alguém dissesse que ele era o responsável pelo grupo.” 

Pelo caminho, a reportagem ouviu relatos de refugiados que desmaiaram por falta de oxigênio nos caminhões e explicações sobre a falta de preparo para a viagem. A maioria não sabia nadar e todos admitiam que “a única saída” era o traficante. “Só quem vive uma guerra sabe o que é fugir”, disse Nizar.

Até as vans que transportam os refugiados se transformaram em negócio. Parte da frota é a sobra de um esquema criado ironicamente pelo governo alemão, em 2008 e 2009, para incentivar o mercado de veículos. Os donos tinham o direito de trocar de carro, com um bônus de 2 mil euros. Por anos, os veículos ficaram em depósitos. Mas, desde o ano passado, são comprados por “empresários” do Leste Europeu por valores baixos. 

Em Passau, autoridades indicaram que estão à “caça” dessas redes. Segundo a polícia alemã, 250 pessoas foram presas desde janeiro. “Eles são muito organizados e isso virou um grande negócio”, disse o inspetor Thomas Schweikl. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.