Marco Ugarte/AP
Marco Ugarte/AP

Tráfico usa comércio legal para lavar dólares

Narcotraficantes compram produtos nos EUA, exportam e revendem no México

Tracy Wilkinson e Ken Ellingwood - Los Angeles Times

27 de dezembro de 2011 | 21h45

LOS ANGELES - "É um método excelente", disse um agente secreto da imigração dos EUA. "Você esconde o dinheiro da droga em muitos negócios legítimos e é o que estão fazendo. Você pode fazer uma auditoria completa na contabilidade deles e tudo o que vai achar são produtos importados e exportados."

 

Essa é a maneira como as coisas funcionam: em vez de transportar o dinheiro para o México em malas e caminhões, as equipes que lavam o dinheiro dos cartéis nos EUA usam os dólares para comprar produtos e, em seguida, exportá-los. Eles criam toda a documentação necessária para dar uma aparência de legalidade à transação. Assim, a receita com a droga transforma-se em fundos legítimos obtidos numa operação comercial.

 

O dinheiro da droga vira tomates ou parafusos de fabricação chinesa, que são transportados e revendidos no México. Com isso, os cartéis alcançam dois objetivos de uma vez só: transferem a receita obtida para seu país e convertem dólares em pesos, numa transação fácil de ser declarada às autoridades.

 

O esquema, usado há bastante tempo pelos cartéis colombianos, agora foi adotado pelos traficantes mexicanos, principalmente após novas restrições impostas pelo governo do México, que incluem limites para a compra de bens de grande valor, como casas e barcos. Depois de muitos anos usando dólares para comprar artigos de luxo e pagar seus fornecedores, os cartéis se viram, repentinamente, precisando de pesos e a lavagem de dinheiro feita por meio do comércio resolveu o problema.

 

"É a melhor maneira de ocultar seus ganhos", disse Raymond Villanueva, que dirige a divisão da agência de imigração que investiga a lavagem de dinheiro internacional. Quem começou a usar essa técnica no México foi Blanca Cazares, que trabalhava para o cartel de Sinaloa. Em 2008, ela foi indiciada por lavagem de dinheiro em Los Angeles e está foragida.

 

De acordo com investigadores americanos, há alguns anos, ela começou a importar seda e parafusos da Ásia para Los Angeles. Depois, os exportava para o México, onde os produtos eram revendidos a preços muito altos em sua cadeia de butiques Chika’s.

 

Embora os cartéis mexicanos estejam começando a usar esse esquema, os colombianos já dominam o método há tempos. "Os mexicanos estão progredindo rapidamente. Eles se relacionam muito bem com os colombianos e aprenderam com eles", disse um policial americano que trabalha na Cidade do México.

 

Ursinhos de pelúcia

 

A tática dificulta a repressão. No ano passado, autoridades americanas indiciaram a empresa Angel Toy por lavagem de dinheiro. Ela é conhecida pela fabricação de ursinhos e coelhinhos de pelúcia. Os três principais executivos da companhia foram presos.

 

Segundo investigadores, durante anos eles chegavam à fábrica carregando malas de dinheiro proveniente da venda de cocaína. Eles se referiam aos dólares como "papéis", "doces" ou "pneus", sem fazer nenhuma menção a brinquedos.

 

No local, os empregados dividiam o dinheiro em maços de pouco menos de US$ 10 mil, valor acima do qual os bancos são obrigados a informar o depósito. Parte dos dólares era enviada à Ásia para compra de brinquedos que, posteriormente, eram exportados para a Colômbia, onde eram vendidos em pesos colombianos - em seguida, já convertido, o dinheiro era transferido para narcotraficantes do país.

 

Depois de uma longa operação, três executivos da empresa e um vendedor colombiano foram indiciados por crime fiscal. "A investigação rastreou, durante quatro anos, mais de US$ 8 milhões em depósitos em dinheiro, nenhum superior a US$ 10 mil", disseram os promotores.

 

As operações comerciais, com frequência, envolvem um terceiro país, o que deixa ainda mais obscura a fonte do dinheiro ilícito. Além disso, segundo o policial americano que vive no México, os encarregados de lavar o dinheiro empregam métodos cada vez mais sofisticados, como o uso de faturas e declarações alfandegárias que superestimam ou subvalorizam o produto.

 

Em operação recente, equipes de lavagem de dinheiro estavam exportando dos EUA para o México bolas de polipropileno usadas na fabricação de plástico. O valor excessivamente alto declarado no carregamento, porém, chamou a atenção de investigadores de bancos americanos, que encerraram a operação e suspenderam as cartas de crédito que os suspeitos usavam.

 

Segundo os investigadores, a operação ocultava US$ 1 milhão a cada três semanas. "Você cria toda a papelada dos dois lados da fronteira, mostrando que o produto que está importando tem muito valor, quando, na realidade, pagou menos por ele", afirmou o agente.

 

A lavagem de dinheiro em transações comerciais se beneficia de pontos cegos no comércio internacional. E o enorme volume de comércio legal entre México e EUA - quase US$ 400 bilhões ao ano - faz com que a lavagem seja difícil de ser detectada. "Tentamos pegá-los, mas é muito difícil separar o comércio legal do ilegítimo", disse Shannon O’Neil, especialista do Council of Foreign Relations.

 

Autoridades mexicanas têm sido lentas ao agir contra a lavagem de dinheiro, em parte porque é algo novo, mas também em razão da ausência de transparência. O método ilustra o fato de que os cartéis estão sempre desenvolvendo novos sistemas para fugir da fiscalização. "Eles têm uma indústria que lhes dá a possibilidade de ocultar o dinheiro e separá-lo da atividade ilegal. São milhões de dólares em contêineres que circulam pelo mundo diariamente", disse Villanueva. 

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