Tragédia com reféns gera polêmica na Rússia

Dois dias depois do resgate dos reféns no teatro russo tomado por rebeldes chechenos, a impressão inicial, de que a operação das forças especiais fora um sucesso, começa a ser substituída por uma forte polêmica sobre o modo como o governo procedeu na crise. O debate é fomentado pelo fato de todos os 118 mortos confirmados, com exceção de dois, terem sido vítimas do gás usado pelas unidades de assalto e, acima de tudo, pela recusa das autoridades em revelar que tipo de substância foi utilizada.Novos relatos de sobreviventes, contrastando com a versão oficial sobre o início da operação de resgate, também alimentam as críticas ao Kremlin.Segundo um funcionário da Embaixada norte-americana em Moscou que pediu para não ser identificado, a substância usada para imobilizar os extremistas chechenos, que estavam em posse de grande quantidade de explosivos, era provavelmente um gás à base de opiáceos (um preparado com ópio).A fonte frisou que essa substância não infringe o tratado sobre proibição de armas químicas, do qual a Rússia é signatária.Essa hipótese coincide com declarações de médicos russos sobre as instruções recebidas das forças de segurança para tratar os reféns intoxicados.Sob anonimato, profissionais de hospitais de Moscou disseram ter sido orientados a dar aos pacientes naloxona, um produto empregado para tratamento de depressões respiratórias secundárias. É utilizado, por exemplo, no tratamento das conseqüências de anestesias cirúrgicas e intoxicações por derivados de morfina (um derivado do ópio) e do álcool.Doses de naloxona foram injetadas em reféns desmaiados na própria sala do teatro, segundo uma fonte médica ouvida pelo diário russo Nezavissimaia Gazeta.Ele contou que as equipes de socorro postadas diante do teatro não receberam formação para aplicar esse antídoto, mas apenas para atendimento a vítimas de explosões.Isso justificaria o fato de terem sido encontrada no teatro grande quantidade de seringas usadas - inicialmente relacionadas pela imprensa moscovita como comprovação do uso de drogas por parte dos rebeldes.Mas há outras fontes no governo indicando que a substância tem origem nas experiências secretas da KGB (a polícia secreta soviética) na Guerra Fria, e alguns especialistas suspeitam que podia tratar-se de armas químicas.As autoridades não informaram aos médicos a composição exata do gás e apenas afirmam que era um anestésico utilizado em cirurgia. "Não temos informações objetivas sobre a natureza do gás, mas o objetivo dos serviços especiais não era matar todo o mundo. Portanto, a utilização de gás sarin ou outro gás venenoso está excluída", insistiu Victor Fominyl, anestesista dos serviços médicos presidenciais. "Não é indispensável saber exatamente de que produto se trata para curar as pessoas."Todos os especialistas concordam em que o número de mortes e vítimas em estado grave foi elevado por causa do estresse, falta de alimentos e de água, idade avançada e doenças como asma, diabete e bronquite.

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