Tragédia na Venezuela contamina campanha

Oposição acha que a culpa é do governo e base de Chávez denuncia uso político do caso

CARACAS, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2012 | 03h04

Desde a explosão na refinaria de Amuay, a maior da Venezuela, no sábado, a oposição ao presidente Hugo Chávez passou a usar o incidente como exemplo do abandono da infraestrutura do país por parte do governo federal. Antes da explosão, o tema já tinha vindo à tona em razão da queda de uma ponte que une Anzoátegui a Miranda, no dia 15.

A pouco mais de um mês da eleição presidencial de 7 de outubro, a oposição não poupa críticas ao Executivo pelas más condições de manutenção dos equipamentos públicos do país e a suposta falta de investimentos do governo em reformas que previnam acidentes. Ontem, quando o número de mortos em Amuay se elevou a 48 e o incêndio causado pela explosão continuava pelo terceiro dia seguido - espalhando-se para outro tanque de combustível -, o candidato que disputará a presidência com Chávez, Henrique Capriles, exigiu uma investigação que determine as causas e os culpados pela explosão.

"Acidentes se produzem por alguma razão e os venezuelanos estão esperando que exista uma resposta contundente, uma investigação séria, responsável e transparente para ver qual foi a circunstância (da tragédia)", disse Capriles, em resposta à afirmação feita pelo presidente no domingo, que após visita ao local declarou que a "atividade (da refinaria) deve continuar". "Parece-me irresponsável, insensível, de uma cara de pau gigantesca dizer isso", criticou Capriles.

O vice-presidente do governista Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), Diosdado Cabello, qualificou de "irresponsabilidade" afirmar que a explosão foi resultado da falta de manutenção, acusando a oposição de buscar tirar vantagem política da tragédia.

Analistas concordam que o governo é visto pela população como "o culpado natural" pela tragédia. Mas, segundo o cientista político Oscar Reyes, Capriles deve ter cuidado ao mencionar a explosão da refinaria para conquistar eleitores. "Os setores mais radicais da oposição apressaram-se em culpar Chávez, no momento em que as vítimas e suas famílias eram a primeira preocupação. Isso pode prejudicar Capriles, que deve ressaltar a solidariedade e exigir investigação." Para Reyes, a campanha do opositor deve criticar problemas como a alta criminalidade e a falta de energia.

O economista Ronald Balza disse que o mais recente relatório de atividades da estatal PDVSA sugere que nem todos os investimentos previstos para a manutenção nas instalações da estatal foram aplicados conforme o previsto.

A cientista política Margarita López, porém, disse que "o eleitor venezuelano enfrenta um dilema, pois, apesar de sentir na pele os problemas estruturais, deve escolher entre reformas de longo prazo (prometidas pela oposição) ou manter as ajudas sociais bancadas pelos petrodólares que Chávez aplica diretamente no país". / GUILHERME RUSSO, COM AFP

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