AP Photo/Farah Abdi Warsameh
AP Photo/Farah Abdi Warsameh

Tragédia previsível

Atentado na Somália expõe falhas do governo 

The Economist, O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2017 | 05h00

Há dez anos dirigindo ambulâncias em Mogadíscio, Ahmed Said Hassan nunca tinha visto nada igual. Ao chegar ao local do atentado ocorrido no dia 14, o cruzamento de que ele se lembrava como um lugar cheio de vida e movimento, com as calçadas ocupadas por vendedores ambulantes, verdureiros e hóspedes de hotel, transformara-se num cenário pós-apocalíptico: corpos carbonizados jaziam no meio da rua, o Hotel Safari estava reduzido a escombros e, a cem metros dali, era possível sentir o calor do incêndio que se seguiu à explosão. “Não há palavras que descrevam a devastação”, diz Hassan.

Foi o atentado com o maior número de mortes na já trágica história da capital da Somália. A explosão foi particularmente devastadora porque o caminhão usado no atentado, em cuja carroceria misturavam-se explosivos caseiros e militares, explodiu perto de um caminhão de combustível, num cruzamento movimentado do bairro conhecido como Quilômetro Cinco. Bombeiros, policiais e soldados somali, assim como tropas da força de paz da União Africana, acudiram ao local, onde um incêndio se espalhou pelos edifícios próximos. Cerca de meia hora depois, outro carro-bomba explodiu a menos de 300 metros do ponto da primeira detonação, fazendo mais vítimas.

Segundo o governo somali, pelo menos 358 pessoas morreram e centenas ficaram feridas. A maioria apresentava queimaduras tão graves que seu reconhecimento era impossível.

Desde que Mohamed Abdullahi Mohamed (conhecido como “Farmaajo”) assumiu a presidência , em fevereiro, a segurança nacional é prioridade de seu governo. O líder somali tem buscado apoio internacional para enfrentar o grupo jihadista Al-Shabab (Os Jovens). Os EUA aumentaram sua presença militar e passaram a tratar algumas áreas do país como “zonas de hostilidades ativas”, onde são menores exigências para a autorização de ataques com drones e operações em terra. Há um ano, havia 50 soldados americanos em território somali. Hoje já são 400. Mas o esforço americano para coletar informações de inteligência e destruir locais do Al-Shabab para produzir explosivos sofreu alguns reveses. 

Há alguns meses, o governo vinha tentando aumentar a segurança na capital. As autoridades limitaram o número e o tipo de armas que as pessoas podem portar e criaram mais postos de fiscalização na cidade. Também promoveram campanhas de desarmamento voltadas para civis e antigos chefes militares.

Graças a esses esforços, o número de atentados durante o Ramadã e nos meses seguintes foi menor que o habitual. Mas o último atentado mostra que há problemas graves com as forças de segurança do país. Segundo fontes próximas do governo somali, quando estava a caminho de Mogadíscio, o caminhão que transportava os explosivos foi parado em dois postos de fiscalização, mas recebeu autorização para seguir sem que sua carga fosse inspecionada.

As críticas à incompetência do governo para impedir tamanha carnificina se somam à insatisfação crescente e a uma divisão política profunda entre as autoridades regionais e federais do país. Uma semana antes do atentado, os presidentes dos Estados regionais da Somália se recusaram a comparecer a uma convenção constitucional organizada pelo governo federal em Mogadíscio, preferindo realizar um encontro de presidentes regionais em Kismayo, no sul do país. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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