'Traidores' e suas vidas infelizes na Rússia

Após pedir asilo, ex-agente tem muito o que aprender com as histórias de antigos delatores

KATHY LALLY, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2013 | 02h01

Já que Edward Snowden dispõe de bastante tempo, pois está sem saída na zona para passageiros em trânsito do Aeroporto Sheremetyevo, uma boa distração seria ler a respeito dos americanos que buscaram asilo na Rússia. Aqueles que tiveram essa chance - como o jornalista e escritor Peter Savodnik, de Washington -, encontraram histórias de desencanto que podem ser significantes para Snowden. O ex-agente da Agência de Segurança Nacional (NSA) pediu asilo à Rússia no início da semana passada.

"Se a história pode nos oferecer alguma lição", disse Savodnik, "Snowden deve encontrar um purgatório na terra se permanecer na Rússia. Eles o enviarão para uma área remota, sem qualquer possibilidade real de convivência com outras pessoas, bem longe de Moscou".

O passado revela uma série de românticos fracassados que acharam que encontrariam um mundo melhor em solo russo. A maioria deles encontrou um fim infeliz.

Savodnik lançará em novembro seu livro The Interloper: Lee Harvey Oswald Inside the Soviet Union (O intruso: Lee Harvey Oswald na União Soviética), sobre o mais famoso desertor dos EUA, que foi para Moscou em 1959 com a esperança de encontrar uma vida gloriosa no paraíso dos trabalhadores, na então União Soviética. Conseguiu emprego numa fábrica de produtos eletrônicos na tristonha Minsk, onde não encontrou o futuro brilhante dos seus sonhos. Regressou ao seu país em 1962, assassinou o presidente John F. Kennedy no ano seguinte e, dois dias mais tarde, foi morto por Jack Ruby.

Num artigo recente publicado pelo Washington Post, David Barrett, professor de ciências políticas da Universidade Villanova, refere-se a dois funcionários da NSA como precursores de Snowden.

Em 1960, William Martin, de 29 anos, e Bernon Mitchell, de 31, informaram que estavam saindo de férias (Snowden disse ao seu chefe que precisava de tratamento médico) e tornaram-se desertores. Foram para Moscou, onde anunciaram que os EUA se dedicavam à espionagem. Foi o maior ato de violação da segurança americana. Parece familiar? "Eles permaneceram na União Soviética, onde levaram uma vida infeliz", escreveu Barrett. "Embora a Rússia nunca tenha sido uma campeã da democracia ou da liberdade de expressão, nunca reteve os desertores", disse Savodnik.

Joseph Dutkanicz, soldado americano na Alemanha Ocidental, foi recrutado pela KGB em 1958 e desertou em 1960. Trabalhou numa fábrica de televisores em Lvov, na Ucrânia, onde era vigiado constantemente. Queixava-se de que as autoridades queriam enlouquecê-lo. Pediu para voltar ao seu país, mas morreu, supostamente de bebedeira, em 1963.

Robert Webster, de Cleveland, que foi para Moscou em 1959 para montar uma exposição para uma fabricante de plásticos numa feira, apaixonou-se por uma recepcionista do restaurante do Hotel Ucrânia.

Acredita-se que a mulher fosse uma agente da KGB - atualmente, o hotel é um excelente lugar para se sentar diante de uma garrafa de vinho cara e apreciar uma parada de homens musculosos repletos de correntes de ouro que tratam de negócios.

Webster conseguiu um emprego em Leningrado, mas acabou sentindo saudades de casa e regressou em 1962. No entanto, o fez como um estrangeiro que obtivera a permissão para ingressar no país fazendo parte de uma cota de russos, segundo o Defector Study, relatório elaborado para o Congresso americano em 1979.

A história ainda não decidiu como tratará Snowden. Segundo prevê Savodnik, se ele ficar na Rússia, será despachado para um lugar distante de Moscou, onde receberá um apartamento numa khrushchevka - um dos inúmeros edifícios de cinco andares, atualmente em ruínas, construídos às pressas durante a era de Nikita Kruchev, há mais de 50 anos. "Do ponto de vista do Kremlin, Snowden já tinha cumprido seu propósito", disse Savodnik. "Ele causou grande embaraço para a Casa Branca. Se ele tivesse algum informação a dar, a esta altura o governo já teria conseguido. Ora, se você fosse o presidente Vladimir Putin, haveria de querer que Snowden desaparecesse."

Sem dúvida, ele receberia alguma incumbência, mas os russos não lhe confiariam praticamente nenhuma informação importante, segundo Savodnik. O jovem, que talvez estivesse convencido de que poderia mudar o mundo, agora só pode esperar um emprego de soldador ou talvez de bedel. "Ele poderá viver em algum lugar no interior da Rússia, longe de todas as coisas que ele pode achar estimulantes", prosseguiu. "Não será uma vida muito feliz."

Portanto, provavelmente, o governo lhe concederá asilo, mas tornará sua estada desagradável tanto quanto possível. "E ele, provavelmente, acabará se apresentando à embaixada americana para implorar que as autoridades permitam seu regresso."

Volta. Um dos americanos que buscou recentemente asilo na Rússia foi John Robles. Ele se recusou a falar sobre o cotidiano, mas tem contado sua história por meio de mensagens em seu site e no Vkontakte, versão russa do Facebook. Robles, de 47 anos, ensina inglês em Moscou e, em 2007, pediu um novo passaporte americano, mas não pôde recebê-lo - foi acusado de não pagar a pensão alimentícia aos filhos na Califórnia. A revogação do documento fez dele um apátrida e o levou a pedir asilo.

Embora critique os EUA, Robles não se queixa da Rússia. Vive em um apartamento típico de Moscou. Recentemente, escreveu que a água quente voltou - a cidade deixa de fornecê-la no verão por um período, para a limpeza dos canos - e comemorou sua chegada com uma foto da água cheia de ferrugem saindo da torneira da cozinha. Não muito antes disso, ele fazia a eterna pergunta no país: O inverno nunca acaba? / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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