ABBAS MOMANI / AFP
ABBAS MOMANI / AFP

Tranquilizados pela vitória de Biden, palestinos vão retomar cooperação com Israel

Autoridade Palestina tinha encerrado cooperação na segurança para protestar contra os planos de Israel de anexar grandes partes da Cisjordânia. Esses planos agora estão em suspenso

David M. Halbfinger e Adam Rasgon, The New York Times

18 de novembro de 2020 | 13h17

JERUSALÉM - A Autoridade Palestina disse na terça-feira, 17, que retomará a cooperação com Israel, encerrando seis meses de dificuldades financeiras para dezenas de milhares de residentes da Cisjordânia e sinalizando alívio com a eleição de Joe Biden.

Foi um dos primeiros sinais mais claros de que a expectativa de um novo governo em Washington já está influenciando as relações internacionais.

O anúncio palestino desfez uma série de medidas rigorosas impostas por Mahmoud Abbas, o presidente da autoridade, no mês de maio, em um protesto desesperado contra os planos do primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, de anexar unilateralmente grandes regiões da Cisjordânia ocupada.

O governo Trump indicou que apoiaria alguma forma de anexação, o que teria imposto a soberania israelense sobre terras com as quais os palestinos contam para um futuro Estado.

Abbas cortou a coordenação de segurança com Israel, levantando temores de que pudessem ocorrer ataques sem precedentes. Ele também rompeu laços civis, inclusive aqueles que ajudam palestinos a entrar em Israel para trabalho ou tratamento médico.

Ainda mais doloroso para seu próprio povo, Abbas parou de aceitar as transferências de mais de US$ 100 milhões por mês em impostos que Israel coleta em nome dos palestinos, fundos que representam mais de 60% do orçamento da autoridade. A falta de fundos impôs cortes salariais para dezenas de milhares de funcionários do setor público, agravando o que já era uma crise econômica devastadora por causa da pandemia.

“Louvado seja Deus, estou muito aliviado”, disse Rami Kitaneh, 35 anos, enfermeiro do Hospital Oftalmológico Hugo Chávez, na Cisjordânia central, na terça-feira à noite. “Abri mão de muitas coisas desde o início da crise, mas agora posso respirar.”

Os planos de anexação foram arquivados, não cancelados - e não em resposta às táticas de pressão kamikaze dos palestinos. Netanyahu concordou em “suspender” a anexação em troca de um acordo diplomático histórico com os Emirados Árabes Unidos. Esse acordo, e um pacto subsequente com o Bahrein, chocou os palestinos e destruiu décadas de solidariedade árabe à ideia de que era necessário isolar Israel até que os palestinos tivessem seu Estado.

De maneira similar, o redirecionamento de terça-feira destacou a posição severamente enfraquecida dos palestinos com dois meses restantes de um governo Trump que os atacou implacavelmente.

O redirecionamento não foi acompanhado por nenhuma das concessões israelenses que muitas autoridades palestinas esperavam em troca da retomada da cooperação com Israel, por exemplo, uma declaração formal de que a anexação estivesse cancelada. Na realidade, foi a eleição de Biden, que declarou sua oposição aos movimentos unilaterais de Israel, que deu aos palestinos as garantias de que precisavam.

Porta-vozes da Casa Branca e da equipe de transição de Biden não comentaram a decisão palestina.

O anúncio veio apenas dois dias depois que Israel abrira o processo de licitação para a construção de 1.257 casas em Givat Hamatos, um assentamento planejado há anos o qual os críticos dizem que minaria a possibilidade de uma solução de dois Estados para o conflito israelense-palestino. O assentamento impediria a contiguidade territorial em partes de Jerusalém Oriental, cidade que os palestinos querem ter como sua capital.

Na quarta-feira, o secretário de Estado Mike Pompeo deve chegar a Israel, onde se tornará a mais alta autoridade americana a visitar um assentamento israelense, parando em um vinhedo com vista para a região de Ramallah.

Os líderes palestinos tinham muitos motivos para retomar a cooperação com Israel e poucos motivos para não o fazer. Seus bancos - cuja liquidez se exaurira com a crise de caixa auto-infligida - informaram que não podiam mais emprestar dinheiro à Autoridade Palestina, colocando em risco sua capacidade de operar. Doadores internacionais, principalmente na Europa, vinham insistindo para que os palestinos voltassem a aceitar as transferências de impostos de Israel antes de buscarem mais ajuda.

Especialistas israelenses e palestinos também disseram que os democratas, na tentativa de facilitar um retorno ao processo de paz sob Biden, pediram aos palestinos que tomassem medidas específicas para demonstrar que não serão obstrucionistas caso o novo governo venha a se envolver no conflito israelense-palestino.

Entre essas medidas estava a retomada da cooperação em segurança e da transferência de impostos, bem como um movimento que poderia encontrar considerável oposição entre a população palestina: reformar a maneira como os palestinos que cumprem pena nas prisões israelenses, inclusive por ataques violentos, são compensados financeiramente, um arranjo que os críticos chamam de “pagar para matar.”

Diana Buttu, ex-assessora da equipe de negociações palestinas que agora costuma criticar Abbas, disse que algumas autoridades em Ramallah o aconselharam a “fazer uma pausa” antes de retomar a cooperação com Israel, argumentando que “voltar ao status quo ante é voltar ao que nos trouxe o status quo.”

Mas ela disse que, em vez disso, Abbas e seus assessores escolheram antecipar a era Biden restabelecendo os laços com os Estados Unidos, sinalizando uma renovação das negociações de paz com Israel e retomando a cooperação bilateral, na esperança de fazer com que o novo governo reverta tantos movimentos de Trump quanto possível.

“Toda a sua resposta ao governo Trump foi dizer: ‘Oi, ainda estamos aqui’”, disse Buttu. “Mas isso não vai trazer nenhuma mudança em nada. Na verdade, dá a Israel uma pequena permissão. Particularmente agora, quando você vê o último anúncio de assentamento e a visita de Pompeo - é como se eles estivessem recompensando Israel”.

A retomada da coordenação foi anunciada no Twitter por Hussein al-Sheikh, ministro da Autoridade Palestina que supervisiona as relações com Israel e é um dos conselheiros mais próximos de Abbas. Dizendo que Israel havia reconfirmado seu compromisso com os acordos anteriores com os palestinos, ele escreveu: “o relacionamento com #Israel vai voltar a ser como era.”

Em uma entrevista, ele também expressou esperança de que as relações com Washington “voltem a ser como eram antes” e disse acreditar que a decisão da autoridade abriria terreno para que a Casa Branca de Biden, junto com a comunidade internacional, tentasse avançar “o processo político entre nós e os israelenses.”

Mas Michael Milshtein, ex-oficial militar israelense com vasta experiência nas negociações com os palestinos, disse que há outra razão para Abbas voltar a cooperar com Israel e deixar o dinheiro fluir novamente.

“Os palestinos precisavam encontrar um jeito de livrar a própria cara”, disse ele. “As eleições americanas deram isso a eles”. / Michael Crowley contribuiu com reportagem de Washington. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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