REUTERS/Alexandre Meneghini
REUTERS/Alexandre Meneghini

Transição em Cuba deve colocar fã de rock para destravar reformas de Raúl

Parlamento cubano deve escolher como sucessor o primeiro vice-presidente, Miguel Díaz-Canel; será a primeira vez desde que o ditador Fulgencio Batista fugiu e Fidel assumiu o poder em Havana que um Castro não estará no comando

O Estado de S.Paulo

17 Abril 2018 | 21h53

HAVANA - Da corrida espacial à queda do Muro de Berlim e à era da internet, os cubanos mantiveram uma constante: sempre um Castro governou o país. Isso está prestes a mudar. Espera-se que Raúl Castro, de 86 anos, deixe o cargo de presidente de Cuba nesta quarta-feira, 18, encerrando a série histórica dos dois irmãos que estremeceram a política mundial ao longo do século 20. 

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A Assembleia Nacional de Cuba se reúnem nesta quarta-feira, 17, e seus membros devem votar na quinta-feira, 18, para referendar o substituto de Raúl: Miguel Díaz-Canel, de 57 anos. Nascido após a revolução, Díaz-Canel cresceu em Santa Clara. Os moradores dali lembram-se de Díaz-Canel usando o cabelo longo e abertamente fã dos Beatles, que eram desaprovados por comunistas fervorosos. 

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O jovem professor foi nomeado primeiro-secretário do partido na Província de Villa Clara, em 1994, e ganhou a reputação de ser um servidor público com um estilo de vida modesto. Moradores disseram à Associated Press que Diaz-Canel foi o primeiro que não se mudou para uma casa nova ao assumir o cargo.

Como primeiro-secretário de Villa Clara, ele era um defensor ativo de El Menjunje, um centro cultural que hospedou shows de rock e se tornou foco de atividades de cubanos gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros, entre eles o primeiro show de drag queens no país. Diaz-Canel era conhecido por levar seus filhos ao clube, uma afirmação incomum de apoio em uma sociedade em que a antipatia pelos homossexuais é profundamente enraizada.

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A transição desta semana não significará o fim da liderança dos Castros, uma vez que Raúl permanecerá como chefe do poderoso Partido Comunista. Mas Raúl Castro estabeleceu as bases para sua saída durante anos e a passagem da tocha é altamente simbólica.

Quando Raúl tomou as rédeas de Fidel, em 2008, um Castro ainda estava no comando. Desta vez, a sucessão equivale a um esforço para construir uma nova geração de líderes sem o nome de Castro, uma ação considerada essencial para consolidar o papel central do sistema comunista de Cuba.

“Trata-se de institucionalizar o regime”, disse Jorge Domínguez, especialista em Cuba e professor de ciência política da Universidade Harvard. “É Raúl Castro dizendo: ‘Eu sou presidente, mas tenho um mandato e depois alguém vai liderar’. Se você é alguém que realmente quer que o regime resista, é o que Raúl precisa fazer.”

A transição ocorre após quase dez anos de uma lenta abertura, que começou a alterar o tecido da vida cubana. O acesso à internet ainda é baixo, mas os pontos de Wi-Fi estão mais disponíveis do que nunca. Existem mais de 5 milhões de celulares no país de 11,5 milhões de pessoas. Mais de 550 mil cubanos trabalham no setor privado. 

No entanto, em um país onde as pessoas andam em Chevys e Fords da década de 50, a vida cubana pode ficar presa no tempo e atormentada por problemas que nunca desapareceram.

Os habitantes falam em escassez periódica – ovos, batatas, papel higiênico. O desejo de progresso apresenta à elite de Cuba um desafio crescente: como e se deve seguir mais de perto os passos de sociedades comunistas como a China e o Vietnã, que conseguiram cercar o sistema de partido único enquanto expandiam vastamente o setor privado. 

A abertura econômica de Cuba foi muito mais lenta e se desdobrou aos trancos e barrancos. “Podemos descobrir que a única maneira de preservar as conquistas da revolução é mudar o país de maneira substancial”, diz Carlos Alzugaray, ex-diplomata cubano. / W.POST e AP

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