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Transição para democracias em países árabes pode esbarrar no Exército

Para especialistas ouvidos pelo 'estadão.com.br', forças armadas poderão tentar resistir no poder

Bruna Ribeiro, do estadão.com.br,

24 de janeiro de 2012 | 17h41

SÃO PAULO - As imagens do corpo do ditador Muamar Kadafi, carregado como um troféu pelos insurgentes na Líbia, transmitiram o sentimento de vitória e alívio do povo. O mesmo aconteceu com a queda de Hosni Mubarak, do Egito, e Zine al-Abidine Ben Ali, da Tunísia. O que é um grande mistério, depois de muita luta, é o caminho que cada país tomará para a construção da democracia. Começa aí uma nova batalha.

 

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O coordenador da Faculdade de Relações Internacionais da FMU, Manuel Nabais da Furriela, explica que o processo de transição varia de país para país. No Brasil, após a ditadura militar, ela foi organizada pelos próprios militares. Mas o problema de formação de partidos políticos atrapalha o processo democrático no Oriente Médio. "Você tem alguns grupos mais ou menos organizados, mas chegar a partidos políticos é um grande desafio para a sociedade". Por isso, para Furriela, deve-se levar em conta a peculiaridade cultural da região, que torna a transição diferente. "Outro aspecto é que a visão deles do que é democracia não é necessariamente a ocidental", disse.

 

A ausência de instituições democráticas é apontada pelo professor de pós-graduação em Política e Relações Internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp), Renatho Costa, como um dos maiores complicadores da transição democrática nos países que protagonizaram a Primavera Árabe. "Nas ditaduras, por muito tempo, se podou todas as formas de manifestações da sociedade. Nesse momento de reconstruir as instituições, fica o receio de até que ponto os militares querem também deixar o poder", disse Costa.

 

Segundo o professor, no Egito, a Irmandade Muçulmana tem se manifestado contra esse processo. "Eles veem com desconfiança se os militares criarão um órgão para conduzir esse processo de transição que trabalhará acima dos poderes do primeiro-ministro ou presidente".

Segundo Furriela, os militares, nos países árabes em geral, são uma das poucas forças organizadas na sociedade. "Com a ausência de representações, você acaba partindo para aquelas organizações que não são políticas, mas são organizações institucionalizadas", disse. "Elas são organizadas e têm uma liderança, o que favorece que elas se instalem no poder e ajudem a reorganizar o país".

 

Quem poderia ajudar?

 

O departamento interno da ONU chamado Conselho de Tutela poderia ajudar os Estados em questões mais emergenciais, de acordo com o professor da FMU. "Ou simplesmente tentar ajudar a organizar as eleições, como fórum de entendimento entre os grupos políticos que estão se formando, por meio de um instrumento de diálogos com esses grupos do Exército, principalmente das forças armadas, que se estruturaram politicamente", disse. Mas, para ele, tal papel não tem sido colocado em prática. "Seria o ideal".

 

Já a participação da Otan nesse processo de transição democrática parece questionável. Furriela explica que a organização atlântica favoreceu na derrubada de Kadafi, ao se colocar contra o regime totalitário líbio, mas não ajudará na construção da democracia. "Não acredito que uma organização militar será a grande solucionadora dos problemas ali".

 

Costa concorda que este não seria um procedimento padrão da Otan. "Mas uma vez que ela atuou, como na Líbia, não existe possibilidade de abandonar o país de uma vez. Ela vai continuar dando suporte ao grupo que apoiou", concluiu. Esse suporte seria na intenção de colaborar para que o país não entre em uma guerra civil interna, mas não propriamente na construção da democracia.

 

Para o professor, a comunidade internacional também pode pensar em maneiras para fortalecer a economia, melhorar as condições de vida e criar programas para dar suporte aos países.

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