Joyce N. Boghosian / Casa Branca
Joyce N. Boghosian / Casa Branca

Tratamento de covid ministrado a Trump sugere quadro de saúde mais sério

Presidente dos EUA está internado em centro militar médico e Casa Branca fornece informações contraditórias

Gina Kolata e Apoorva Mandavilli, The New York Times

04 de outubro de 2020 | 10h43

O presidente Donald Trump, infectado com o novo coronavírus, ficará no hospital militar Walter Reed por um número indefinido de dias, disse seu médico no sábado, 3. O presidente americano passa por um regime de cinco dias de medicamentos antivirais para a covid-19 que indica que sua condição pode ser mais grave do que havia sido revelada publicamente. Na quinta-feira, 1, ele recebeu outra medicação que ainda está em fases iniciais de testes.

Em uma coletiva de imprensa no sábado do lado de fora do centro médico, o dr. Sean Conley, médico de Trump, pintou um quadro otimista sobre a condição do presidente, dizendo que ele estava indo bem, sem febre e sem necessidade de oxigênio suplementar. Mas imediatamente depois, Mark Meadows, o chefe de gabinete da Casa Branca, contradisse essa avaliação e disse que os sinais vitais de Trump nas últimas 48 horas "eram muito preocupantes" e que os próximos dois dias seriam críticos.

Especialistas médicos que têm seguido os detalhes esboçados e conflitantes divulgados pela Casa Branca e pelo centro Walter Reed sobre a condição do presidente ficaram divididos sobre os tratamentos experimentais que Trump, de 74 anos, já recebeu. Mas os médicos consultados em geral saudaram o acompanhamento de perto feito no complexo médico militar, observando seus fatores de risco — um homem mais velho ligeiramente obeso — para desenvolver uma forma mais séria da doença.

"Transferi-lo para Walter Reed foi a coisa certa", disse Carlos del Rio, professor de medicina da Universidade Emory em Atlanta. "Porque qualquer um de nós que tenha visto pacientes com covid, especialmente pacientes de sua idade, pode dizer que num minuto eles parecem bem e no minuto seguinte não".

Os médicos na coletiva de imprensa enfatizaram o período crítico de tempo — cerca de 7 a 10 dias após a infecção — em que a condição de um paciente pode piorar. Algumas pessoas respondem a uma infecção com uma resposta imune forte demais, que pode piorar a doença e até mesmo se provar fatal.

Especialistas em doenças infecciosas disseram que era difícil comentar sobre a condição de Trump ou avaliar seu tratamento com as poucas e contraditórias informações que haviam sido divulgadas publicamente, mas alguns disseram que estavam preocupados.

"É um pesadelo", disse Jeremy Faust, médico de emergência do Brigham and Women's Hospital em Boston. "Quando soubemos desta doença pela primeira vez, eram os pacientes que se encaixavam na descrição do presidente que mais nos preocupavam".

Peter Chin-Hong, especialista em doenças infecciosas da Universidade da Califórnia em São Francisco, disse que ficaria surpreso se Trump estivesse se sentindo melhor tão rapidamente. O que acontece frequentemente, disse ele, é que um paciente terá alta do hospital, mas uma semana depois fica muito pior e tem que ser readmitido.

"É o que chamamos de 'cair do precipício', normalmente ocorre em uma semana a 10 dias (depois da infecção)", disse ele.

Os médicos na conferência de imprensa evitaram perguntas sobre se o presidente alguma vez precisou de oxigênio; não quiseram dizer qual tinha sido sua temperatura ou níveis de oxigenação nos últimos dias; e ofereceram uma linha de tempo confusa do diagnóstico da doença, que conflitava com a revelação feita a 1h na sexta-feira pelo próprio Trump, cerca de 36 horas antes da coletiva de imprensa, de que ele havia testado positivo para o coronavírus.

Mais tarde, Conley emitiu uma correção que concordava com as declarações anteriores da Casa Branca.

"É uma situação muito estranha", disse Andre Kalil, especialista em doenças infecciosas do Centro Médico da Universidade de Nebraska. "Ele está sendo tratado em excesso ou em falta? Nós não sabemos".

Um dos tratamentos ministrados a Trump, uma combinação de anticorpos monoclonais com Regeneron, está em fase inicial dos testes, e há apenas uma declaração recente da empresa fabricante a respeito de sua eficácia. Em um ensaio, o tratamento foi oferecido a pessoas recentemente expostas ou infectadas, especialmente aquelas que podem não ser capazes de gerar uma resposta imune forte por si mesmas. Por sua idade e sexo, Trump cai no subgrupo de pessoas cujo sistema imunológico pode não ser capaz de se defender do coronavírus por si só.

Alguns especialistas são otimistas quanto ao funcionamento do medicamento Regeneron e apoiam a administração de uma terapia que ataque diretamente o vírus. Os anticorpos monoclonais em geral são bastante seguros, dizem os especialistas, e outros medicamentos similares têm sido usados para tratar pacientes com HIV e ebola. "É um risco justificado e menor", disse John Moore, virologista da Escola de Medicina Weill Cornell.

Outros especialistas são céticos. "Na minha opinião estes anticorpos são experimentais", disse Kalil, pesquisador principal do estudo federal que mostrou que outro medicamento, o Remdesivir, que também está sendo dado a Trump, acelerou a recuperação em pacientes hospitalizados com a covid-19.

"Não sei quão seguros (esses tratamentos) são para o presidente", continuou Kalil. "Eles não devem ser ministrados fora de um ensaio clínico".

Remdesivir é o padrão de tratamento no momento para alguns pacientes da covid-19, portanto alguns participantes do ensaio com Regeneron em pessoas hospitalizadas com a covid-19 provavelmente já receberam ambas as medicações.

Uma informação importante são os níveis de oxigênio no sangue de Trump. Os médicos disseram que seu nível era de 96% no sábado de manhã. As leituras normais do oxímetro de pulso geralmente variam de 95% a 100%. Valores abaixo de 90% são considerados baixos.

Rochelle Walensky, chefe da divisão de doenças infecciosas do Massachusetts General Hospital, disse que embora os níveis de Trump não fossem "perfeitos", alguns idosos com outras condições médicas podem ter níveis em torno de 96% quando estão caminhando. Os níveis de oxigênio são um indicador importante de que a doença está progredindo para uma fase severa.

Quando perguntado se Trump estava recebendo oxigênio suplementar, o médico responsável, Sean Conley, respondeu: "Ele não está com oxigênio neste momento" e "ele não precisou de nenhum (oxigênio) nesta manhã, hoje, de maneira alguma".

"Eles foram muito enfáticos ao dizer quando ele não estava recebendo oxigênio", comentou Walensky. "Isso implica dizer que ele recebeu oxigênio (em algum momento). Talvez ele tenha apresentado sintomas graves o suficiente para receber oxigênio, ou talvez seus níveis de oxigênio tenham caído tanto que eles sentiram que ele precisava de oxigênio". Ou, disse ela, "pode ser que quando o transportaram, eles apenas lhe deram uma quantidade mínima de oxigênio"

"Não ajuda que ele tenha sido evasivo", disse a especialista, referindo-se a Conley. /THE NEW YORK TIMES

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