Tratamento especial aos cubanos

Com aproximação entre Havana e Washington, benefícios dados a migrantes que chegam da ilha podem ser revistos

Matt Welch, Los Angeles Times

27 de fevereiro de 2016 | 08h32

Agora que a disputa pela indicação do candidato do Partido Republicano à eleição presidencial americana se resumiu a uma briga entre um potencial construtor de muros e dois indivíduos cujas famílias vieram de Cuba, a controvérsia envolvendo a imigração voltou ao primeiro plano.

Um número recorde de refugiados do experimento comunista falido de Fidel Castro vem entrando nos Estados Unidos pela Flórida e especialmente através da fronteira entre o país e o México. Nos últimos três meses de 2015, mais de 12 mil cubanos bateram à porta dos Estados Unidos. Este ano, o número de migrantes pode atingir o dobro do ano anterior.

Num nítido contraste com outros migrantes da América Latina, os cubanos são acolhidos nos Estados Unidos com dinheiro, têm acesso aos programas sociais e a possibilidade de obter cidadania americana. Isso graças ao Cuban Adjustment Act, de 1966. Agora, no entanto, muitos políticos vêm questionando se, diante da distensão entre Havana e Washington, não é o momento de reformular essa preferência que remonta à Guerra Fria.

“Não acho justo, quero dizer, por que seria algo justo?”, afirmou Donald Trump ao Tampa Tribune. “Você sabe, hoje, temos um sistema para trazer as pessoas para o país, mas o que precisamos é trazer pessoas que sejam fenomenais, com um currículo excelente em termos de realização e de êxitos”.

Será essa uma nova fase de Trump, ousando se referir a algo tabu na Flórida, da mesma maneira que, aparentemente, agiu quando atacou George W. Bush na Carolina do Sul, onde Bush é muito popular? Não exatamente. A política do “pé molhado, pé seco”, com base na qual os cubanos interceptados ainda no mar são forçados a retornar a seu país, mas os que pisam em solo americano são aceitos como refugiados fugindo do comunismo, é cada vez mais atacada por cubano-americanos também.

“Não achamos que os Estados Unidos devem ser extorquidos por pessoas que afirmam ser refugiados e depois se aproveitam do nosso sistema de assistência social”, afirmou Carlos Curbelo, deputado republicano da Flórida ao canal de TV Fox Latino. Em dezembro, Curbelo apresentou o projeto de lei Ato de Oportunidade de Trabalho para Migrantes Cubanos, que estabelece que os migrantes vindos da ilha devem provar que são vítimas de perseguição política para receber quaisquer benefícios do governo.

O senador Marco Rubio, republicano também da Flórida, apresentou uma versão desse projeto de lei ao Senado em janeiro, afirmando que o aumento da imigração cubana se tornou uma “crise de fato”.

“Temos pessoas que vivem em Cuba se aproveitando dos benefícios de nossa previdência social”, disse em discurso em New Hampshire no mês passado. “Eles nunca trabalharam aqui. É um abuso intolerável.”

Mas outro senador cubano-americano que disputa o segundo lugar nas primárias republicanas não se inquieta com a atual situação. Ted Cruz, do Texas, mesmo tendo prometido que todos os cerca de 12 milhões de imigrantes que vivem ilegalmente nos EUA de alguma maneira serão deportados e não terão direito à cidadania, afirma que o Cuban Adjustment Act deve ser mantido até o momento em que o paraíso decadente de Fidel deixe de ser um país comunista.

Desequilíbrio. A discordância e o tratamento desigual ocorrem quando a imigração é administrada a partir de Washington como uma colcha de retalhos e para cada país específico. Como já foi comprovado repetidamente, as consequências inesperadas são a regra, não a exceção. Por exemplo: a retomada das relações diplomáticas entre Cuba e Estados Unidos, que será coroada com a visita histórica do presidente Barack Obama à ilha no próximo mês, é uma das principais razões do forte fluxo migratório. Os cubanos vêm partindo agora enquanto o Cuban Adjustment Act ainda está em vigor, temendo que em breve terão de documentar seu pedido de residência nos EUA como qualquer outra pessoa.

A abolição, no ano passado, dos limites de dinheiro que os americanos podem enviar para seus parentes em Cuba também impulsionou a partida de cubanos para os Estados Unidos, juntamente com a eliminação de vistos de saída decidida por Raúl Castro.

Repentinamente, mais cubanos têm mais dinheiro e já não precisam de autorização do governo para pegar um avião. Não surpreende o fato de eles se dirigirem para o Equador e o México de olho no norte – porque podem.

Não é uma “crise”, mas uma enorme vitória da liberdade política e individual de um povo sofrido. Durante minha visita à ilha no mês passado, pela primeira vez desde 1998, a presença de dinheiro novo e liberdade individual em meio à ruína socialista era palpável e alentadora. Como afirmou Jeff Flake, republicano do Arizona, que fazia parte do meu grupo, hoje, um quarto dos cubanos tem como fonte principal de renda atividades não ligadas ao governo. Uma cifra horrenda no mundo livre, mas miraculosa em Havana.

Em breve, os cubanos terão de entrar na fila com outros potenciais imigrantes de Caribe e América Central. Mas os legisladores americanos deveriam se concentrar em maneiras de reduzir – e não ampliar – essa fila, com regras simples que respeitem a aspiração humana e reflitam a lei da oferta e da procura, não os caprichos efêmeros de políticos em busca de poder. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*MATT WELCH É JORNALISTA

 

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