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Trauma da separação persiste após crianças se juntarem aos pais

Segundo especialistas, muitas crianças podem apresentar ansiedade de separação, chorar incontrolavelmente, ter problemas para dormir, pesadelos recorrentes e distúrbios alimentares

William Wan / WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2018 | 05h00

Muito tempo após os lamentos e as lágrimas, o trauma da separação pode permanecer na mente das crianças, mesmo após elas se reunirem com os pais, dizem especialistas.

Para algumas pessoas, a crise pode parecer resolvida após o presidente Donald Trump assinar um decreto para manter juntas as famílias de imigrantes. Mas especialistas alertam que, para muitas crianças, o dano psíquico da separação exigirá tratamento por profissionais de saúde mental – serviços que dificilmente venham a receber em razão das políticas do governo americano para migrantes ilegais.

“Não é como uma funilaria, onde você conserta o amassado e tudo parece novo. Estamos falando da mente de crianças”, disse Luís Zayas, professor de psiquiatria na Universidade do Texas, em Austin. “O governo deveria pagar por isso, mas o triste para a maioria dessas crianças é que esse trauma provavelmente não será tratado.”

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As crianças que passaram por uma separação traumática muitas vezes agarram-se desesperadamente aos pais depois de se reunirem e rejeitam perdê-los de vista, dizem terapeutas. Muitos sofrem de ansiedade de separação, choram incontrolavelmente e têm problemas para dormir e pesadelos recorrentes.

Outros desenvolvem distúrbios alimentares, problemas de confiança e raiva, em alguns casos contra os pais. “Vemos algumas crianças até mesmo atacarem os pais. Elas nem sempre entendem o motivo da separação e até colocam a culpa neles. Têm dificuldade em se reconectar”, disse.

Zayas lembrou de uma menina de 8 anos que ele atendeu, depois que as autoridades a separaram dos pais ilegais. Mesmo dois anos depois do incidente, “ela não podia se separar deles, nunca. Tinha pesadelos e medo sempre que via qualquer veículo da polícia. Ela vivia o temor extremo de que seus pais fizessem algo errado e fossem levados de novo”.

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“Não tratado, o trauma pode levar a problemas profundos, como transtorno de estresse pós-traumático, abuso de drogas, alcoolismo e comportamento suicida”, disse Saeed Cardoso Jodi Berger, professor da Universidade de Houston, que estuda os efeitos do trauma sobre imigrantes. Crianças interceptadas na fronteira, muitas vezes, acabam sofrendo de transtorno de estresse pós-traumático, também porque suas famílias estão fugindo da violência. 

Cardoso e outros dizem que também se preocupam com o que acontece com as crianças quando elas são reunidas aos pais. Alguns podem ser reunidos, mas permanecem em centros de detenção com sua família. Estudos mostram que a detenção de longo prazo pode ter efeitos prejudiciais sobre as crianças, razão pela qual existem algumas regras que limitam o tempo que as autoridades podem manter as crianças em detenção.

Estudos mostraram que meninos mantidos em detenção, mesmo por curtos períodos, como duas ou três semanas, podem desenvolver comportamento antissocial, violência e problemas de abuso de drogas. Garotas adolescentes mais frequentemente apresentam transtornos depressivos e abuso de substâncias.

E aqueles que são deportados de volta para certos países - tais como Honduras, El Salvador e Guatemala, que têm as maiores taxas de homicídio do mundo para crianças e adolescentes - terão de enfrentar muitos dos mesmos perigos e traumas dos quais estavam fugindo, especialistas apontam.

Outros psicólogos e defensores de crianças apontam que, embora a ordem de Trump interrompa as recentes separações entre pais e filhos na fronteira, ela não aborda as políticas de imigração que estão fazendo com que as crianças sejam separadas dos pais em uma escala maior. Em 2015, por exemplo, o Departamento de Segurança Interna deportou mais de 12 mil pais imigrantes com crianças cidadãs dos Estados Unidos - fazendo com que muitas dessas famílias se dividissem.

"Essa indignação enfrentada nos últimos dias, é só um exemplo. Gostaria que as pessoas tivessem em mente que isso continua acontecendo em nosso país todos os dias", disse Cardoso. "O que temos focado na fronteira é apenas um microcosmo do trauma que está ocorrendo e continuará a ocorrer."

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