Dave Mustaine/EFE/EPA
Dave Mustaine/EFE/EPA

Travados entre a pandemia e a política, alguns países proíbem vacinas rivais

Ucrânia baniu Sputnik V, governo iraniano recusa imunizantes dos EUA e da Grã-Bretanha e Taiwan barrou importações chinesas

Adam Taylor, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2021 | 10h00

Os governos de todo o mundo estão desesperados por vacinas, com muitos se digladiando publicamente por doses limitadas e acusando outros de estocar insumos. No entanto, mesmo com essa pressa, alguns países não apenas estão recusando doses potenciais produzidas por rivais, mas também as proibindo oficialmente.

A Ucrânia recentemente baniu as vacinas russas, apesar dos novos dados revisados por pares sugerindo que a principal candidata de Moscou, a Sputnik V, tem alta eficácia. O governo iraniano, por sua vez, proibiu todas as vacinas feitas nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha e aprovou a Sputnik V da Rússia.

Em Taiwan, onde as autoridades vêm se manifestando contra as vacinas fabricadas na China desde o ano passado, o governo recentemente reiterou que as importações dessas vacinas serão proibidas e alertou que os civis taiwaneses que vivem na China podem ficar em quarentena quando voltarem para casa.

É uma inversão da lógica do nacionalismo da vacina, que levou nações poderosas a colher o máximo de doses que conseguiam na esperança de sair da pandemia. Mais de 80 milhões de doses de vacinas já foram distribuídas em mais de 50 países, com alguns deles avançando rapidamente na vacinação.

Mas a Ucrânia, o Irã e o Taiwan não iniciaram formalmente seus programas de imunização. E, se Taiwan vem recebendo muitos elogios por seu enfrentamento bem-sucedido à pandemia, a Ucrânia e o Irã estão com muitas dificuldades, com um número considerável de mortos.

Para os especialistas, é uma tendência alarmante, embora não necessariamente surpreendente.

“É uma combinação de cálculos políticos: além da chance de adquirir de fato as doses, existem as preocupações quanto à eficácia e à segurança das vacinas”, disse Yanzhong Huang, pesquisador sênior do Conselho de Relações Exteriores.

Pavlo Kovtoniuk, vice-ministro da saúde da Ucrânia de 2016 a 2019, disse que a preocupação de Kiev com as vacinas promovidas por Moscou não era apenas política, mas uma questão de segurança nacional.

“Nas últimas décadas, e especialmente durante os sete anos que antecederam a guerra não declarada, a Ucrânia entendeu muito bem o que é uma guerra híbrida”, disse Kovtoniuk.

Ucrânia

Apesar da crescente raiva política diante da falta de vacina no país, os parlamentares ucranianos aprovaram na semana passada um projeto de lei que bane oficialmente as vacinas feitas na Rússia.

Com uma população de mais de 40 milhões, a Ucrânia é um dos maiores países europeus que ainda não iniciou a campanha oficial de vacinação. O presidente Volodmir Zelenski está enfrentando seus mais baixos índices de aprovação durante uma pandemia que infectou 1,25 milhão de pessoas e causou mais de 23 mil mortes.

Parte da preocupação diz respeito aos aspectos de segurança e eficiência: os dados dos testes da Fase 3 da Sputnik V foram divulgados muito depois de a vacina ser lançada na Rússia.

Embora os novos dados divulgados na terça-feira possam aliviar as preocupações científicas, as tensões nacionais permanecem. Desde 2014, a Ucrânia tem um relacionamento tenso com a Rússia, que apoiou rebeldes separatistas no leste do país e anexou a península da Crimeia.

O governo russo já havia começado a administrar a Sputnik V na Crimeia, que é vista como parte da Ucrânia pela maioria das potências internacionais. Esta semana, áreas separatistas apoiadas pela Rússia no leste da Ucrânia também começaram a receber a vacina.

Embora seja improvável que Kiev reverta sua decisão sobre as vacinas russas, neste momento ela tem poucas alternativas.

Por meio do programa global Covax, Kiev garantiu 8 milhões de doses da vacina desenvolvida pela gigante farmacêutica norte-americana Pfizer e pela alemã BioNTech. A primeira rodada, que acontece no final deste mês, deve trazer apenas 200 mil doses.

A Ucrânia também recorreu a Pequim para aumentar seus suprimentos, assinando um acordo para 1,8 milhão de doses da vacina chinesa Sinovac, em dezembro.

Kovtoniuk disse que, se a Ucrânia não puder obter mais vacinas dos Estados Unidos ou da Europa, pode recorrer a mais produtores chineses. Ele disse que era a Rússia, não a Ucrânia, que estava politizando o fornecimento de vacinas. “É uma questão de política e influência acima de tudo para a Rússia, não para a Ucrânia”, disse ele.

Irã

O Irã foi gravemente atingido pelo coronavírus, com mais de 1,42 milhão de casos registrados e quase 60 mil mortes. Mas, em janeiro, o líder supremo anunciou que o país havia proibido a importação de vacinas feitas nos Estados Unidos ou na Grã-Bretanha.

O aiatolá Ali Khamenei fez o anúncio em discurso televisionado no dia 8 de janeiro, qualificando as vacinas de “proibidas”. O líder supremo apontou a vacina Pfizer-BioNTech como um dos produtos que seriam proibidos, apesar de sua aprovação por outras nações e da alta eficiência comprovada.

“Eles são completamente indignos de confiança”, disse. “Se eles conseguiram mesmo criar uma vacina (...) por que querem nos dar? Por que eles próprios não a usam?”.

O Irã aprovou a Sputnik V no final de janeiro e esperava colaborar na fabricação de algumas doses. A mídia estatal informou que as primeiras doses da Sputnik V devem chegar esta semana. O Irã também deverá receber 1 milhão de doses da China.

Amir Afkhami, especialista no sistema de saúde pública do país na Universidade George Washington, disse que embora o Irã tenha sido relativamente bem-sucedido no recente enfrentamento à pandemia, o líder supremo iraniano tem “um longo histórico de propagar teorias conspiratórias em torno de questões biomédicas”.

Afkhami disse que há alguns motivos práticos para o Irã preferir uma vacina russa em vez de uma vacina americana: com uma estimativa de US $ 9,95 por dose, a Sputnik V é provavelmente uma das vacinas mais baratas disponíveis. No entanto, ele disse que a justificativa era uma tentativa de “retratar o regime como competente depois dos muitos erros cometidos durante a pandemia”.

O movimento de Khamenei para bloquear algumas vacinas estrangeiras ocorreu em meio a alegações iranianas de que as sanções financeiras dos Estados Unidos estavam barrando o acesso ao Covax, que comprou doses de uma série de vacinas apoiadas pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha.

O Conselho de Medicina Iraniano, principal associação de médicos do país, rejeitou a decisão após o anúncio de Khamenei. “Todas as decisões devem ser baseadas na ciência”, disse o grupo em carta pública. 

Taiwan

As autoridades taiwanesas reiteraram no mês passado que a importação de vacinas feitas na China estava proibida, com o Conselho de Assuntos Interiores da ilha dizendo à Reuters que a vacinação era uma questão médica e que “não deveria ser usada como propaganda política”.

O anúncio foi feito após relatos de que a China, que reivindica soberania sobre o governo autônomo de Taiwan, estava oferecendo uma vacina gratuita para cerca de 400 mil cidadãos taiwaneses que vivem na China.

O governo de Taiwan lançou dúvidas sobre as vacinas feitas por empresas chinesas, como a Sinopharm e a Sinovac, divulgando regras que dizem que qualquer pessoa que receber as vacinas será obrigada a entrar em quarentena ao chegar em Taiwan.

Huang disse que as vacinas chinesas suscitam preocupações genuínas com a saúde. Assim como os desenvolvedores da Sputnik V, os desenvolvedores chineses não divulgaram os dados completos da Fase 3 antes de disponibilizarem suas vacinas. Os primeiros dados de alguns países sugeriram que elas eram notavelmente menos eficazes do que algumas rivais.

“Existem preocupações políticas, mas também existem grandes preocupações sobre a segurança e a eficácia das vacinas fabricadas na China”, disse Huang.

Embora as vacinações não devam começar antes de março, Taiwan adquiriu cerca de 15 milhões de doses para sua população de 25 milhões de habitantes – 10 milhões diretamente da AstraZeneca e 5 milhões de doses por meio do programa Covax.

Um representante do Escritório de Representação Econômica e Cultural de Taipei nos Estados Unidos disse que havia negociações em andamento para mais 5 milhões de doses.

No entanto, Taiwan tem um luxo que a Ucrânia e o Irã não têm: um surto relativamente contido. Com apenas 912 casos confirmados, 8 mortes e fronteiras rigidamente controladas, a vida está relativamente normal na ilha, embora as reuniões em massa continuem desencorajadas. / Tradução de Renato Prelorentzou 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.