Travando conhecimento

Os problemas que o Egito terá de superar são tremendos, por isso será necessária a união de toda a sociedade e o recolhimento do país para buscar se conhecer de novo

É COLUNISTA, ESCRITOR, GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER, THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, ESCRITOR, GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER, THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2012 | 03h07

Estou sentado na sede de campanha de Abdel Moneim Aboul Fotouh, médico que se separou da Irmandade Muçulmana para candidatar-se à presidência do Egito e tem uma agenda reformadora. Enquanto sua equipe - três jovens profissionais que trabalham voluntariamente - falava-me sobre sua estratégia, um pensamento veio à minha mente: na última semana eu me reuni com egípcios jovens, interessantes e de todas as convicções políticas mais do que nos últimos 30 anos. Não é coincidência. O Egito sob o regime de Hosni Mubarak era um país onde havia apenas uma única pessoa com quem falar, uma pessoa que tinha o poder de decidir. Todo o resto estava apenas esperando por Godot. E as conversas eram todas de cima para baixo.

Não é mais o caso. Os egípcios estão reencontrando as próprias vozes e redescobrindo quem são seus vizinhos. Em alguns aspectos, estão assombrados. Um líder da Irmandade Muçulmana disse-me ter ficado bastante surpreso quando as eleições mostraram quantos muçulmanos salafistas vivem no Egito. Quando os fundamentalistas afirmam que não tinham a mínima ideia de que existiam tantos deles muito mais ortodoxos, imagine o quão surpresos ficaram os liberais. Os generais egípcios espantaram-se com a quantidade de jovens não ligados a nenhuma religião dispostos a enfrentar os tanques nas ruas para obrigar o Exército a ceder o poder. Hoje, na vida egípcia, reina uma certa atmosfera, do gênero "ah, você vive aqui também?".

Quanto mais tempo você permanece neste país, mais claro fica que o Egito ainda não teve a sua revolução. O que houve foi uma revolta. O regime militar que tem governado o país desde 1952 continua no poder - somente um conselho militar substituiu os Mubaraks. Mas a revolta levantou a pesada tampa que abafava esta sociedade e permitiu a entrada de oxigênio. Isto, mais do que as recentes eleições parlamentares, permitiu a todas essas pessoas, partidos e vozes - de todas as esferas da vida egípcia - emergirem. É importante que o próximo presidente do Egito esteja disposto a dialogar com essas forças emergentes.

Mas para o Egito ter uma revolução democrática - uma verdadeira mudança na estrutura do poder e das instituições - todos estes partidos recém-eleitos terão de encontrar um modo de trabalhar para ter uma nova Constituição e um novo presidente. O que não será fácil. Os problemas sociais e econômicos que o país terá de superar são tremendos. Será necessária a união de toda a sociedade, mas as divisões e a falta de confiança entre os novos e antigos centros de poder - o Exército, a polícia de segurança, os jovens da Praça Tahrir, os islâmicos, cristãos, a maioria silenciosa, os liberais - são enormes. Este país necessita de um recolhimento para procurar se conhecer de novo.

Medo. Não é surpresa. Todos os autocratas árabes, como Mubarak, governaram seus países da mesma maneira : "cobrando para dar proteção", diz Daniel Brumberg, codiretor da área de Estudos de Democracia Estudos de Governança na Universidade Georgetown. Grupos diferentes - minorias religiosas ou étnicas, o setor empresarial, islâmicos e ativistas seculares - foram colocados um contra o outro e "protegidos" pelo líder no topo da pirâmide. Todos viviam com medo de todos.

A notícia auspiciosa é que a política real manifestou-se aqui e alguns egípcios estão trabalhando para criar um elo de confiança entre os novos centros de poder. É o caso de Amr Hamzawy, liberal que acabou de ser eleito para o Parlamento que será inaugurado na segunda-feira. Ele e outras pessoas já iniciaram um debate com os partidos islâmicos sobre como vão cooperar para aprovar leis que levem o Egito a crescer novamente e mostrar que os novos detentores do poder conseguirão construir um país melhor.

Referindo-se aos novos membros do Parlamento, Hamzawy disse que "estamos nos apresentando uns aos outros. Mas temos a sociedade que nos aguarda. Temos que fazer o que esperam de nós. O grande desafio é transcender a polarização das eleições. Não conseguiremos fazer nada se houver uma polarização no Parlamento. É preciso superar as diferenças ideológicas.

Os liberais têm em torno de 20% das cadeiras. O Islã político tem dois terços. De modo que nossa tarefa é trabalhar para levar os moderados do lado do Islã político para o centro. Nosso desafio é definir esse novo centro estratégico para o Egito".

De alguma maneira, as novas e velhas forças devem agora encontrar um modo de partilhar o poder para reconstruir este país. O Egito desperdiçou grande parte dos últimos 30 anos. Não tem mais um minuto a perder. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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