AFP PHOTO / PHILIPPE HUGUEN
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Travessia de imigrantes por túnel do Canal da Mancha expõe crise imigratória na Europa

Em 2015, Eurotunnel diz ter interceptado mais de 37 mil imigrantes tentando atravessar o percurso; grupo pede indenização da França e da Grã-Bretanha

Andrei Netto, correspondente / Paris, O Estado de S. Paulo

29 de julho de 2015 | 10h00

PARIS - Pela segunda noite consecutiva, mais de 2 mil imigrantes tentaram invadir na madrugada desta quarta-feira, 29, o Eurotunnel, túnel que liga a França à Grã-Bretanha sob o Canal da Mancha. A invasão resultou na morte de um sudanês - a nona morte desde junho -, atropelado por um caminhão que realizava a travessia. Nesta quarta, o Ministério do Interior francês anunciou o reforço do policiamento na região com o envio de 120 policiais da tropa de choque. A concentração de estrangeiros em Passo de Calais é um dos mais agudos sintomas da crise imigratória na Europa Ocidental, que vem se agravando com o passar do tempo.  

O Ministério do Interior da França estima que 3 mil estrangeiros estão neste momento acampados a céu aberto ou em abrigos humanitários em Passo de Calais, no extremo norte do país, à espera de uma oportunidade para cruzar o Canal da Mancha, chegando à Inglaterra, destino que almejam. Nas últimas semanas, uma série de paralisações trabalhistas envolvendo o grupo Eurotunnel, que explora o túnel sob o canal, e a companhia marítima MyFerryLink, vem interrompendo o trânsito de embarcações. 

Desde então, entre 1,5 mil e 2 mil imigrantes tentam embarcar de forma clandestina em caminhões que realizam o transporte de cargas entre os dois países e manobram em um pátio de 650 hectares do lado francês.   

Nessa semana, as tentativas se intensificaram. A última delas aconteceu entre a noite de terça e a manhã desta quarta-feira, 29, segundo confirmou o Ministério do Interior. Para tanto, os estrangeiros precisam atravessar uma autoestrada perigosa e esconder-se no interior ou sob o chassi de caminhões, correndo risco de vida. Nessa tentativa, um imigrante sudanês de cerca de 30 anos acabou morto, atingido por um veículo. "Quando eles conseguem acessar o pátio, há filas de caminhões que esperam e cujos motoristas não veem o que se passa ao seu redor ou embaixo de seus veículos", explicou em entrevista à rádio France Info. "É assim que acontecem dramas como o desta noite." 

Pressionado pela situação, o ministro francês do Interior, Bernard Cazeneuve, realizou pronunciamento para informar que 120 policiais das Companhias Republicanas de Segurança (CRS), a tropa de choque francesa, serão deslocados para a região, assim como agentes da Gendarmeria, a polícia militar. "O Estado multiplicou por cinco os meios das forças de ordem dedicadas à gestão da situação em Passo de Calais desde 2012", argumentou.

Lado britânico. Em Londres, a ministra do Interior, Theresa May, convocou uma reunião do Gabinete de Urgência - que agrupa órgãos de segurança - para discutir a crise imigratória em Calais. Uma das primeiras medidas anunciadas foi a ampliação de € 4,7 milhões para € 10 milhões no volume de recursos destinados ao reforço das barreiras de segurança. Mas a falta de um acordo entre os governos da França e da Grã-Bretanha para o acolhimento dos estrangeiros é um dos problemas que agrava a situação. 

Os dois governos também pressionam a direção da Eurotunnel, empresa que administra o túnel, a também reforçar seus efetivos de segurança privada. A companhia alega já ter interceptado 37 mil tentativas de invasão em 2015 e pede um total de € 9,7 milhões em indenização aos dois governos por supostas perdas relativas à queda da receita e aos investimentos em proteção do sítio. "O grupo também deve assumir suas responsabilidades", afirmou Cazeneuve. 

Enquanto a crise imigratória volta a ganhar um pico de tensão em terra firme, no Mar Mediterrâneo, uma das principais portas de entrada de imigrantes irregulares na Europa, um novo barco com mais de 400 estrangeiros foi salvo nas últimas horas. As primeiras informações são de que pelo menos 18 pessoas teriam morrido na travessia. 

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