Trechos de livro incendeiam luta pelo Senado nos EUA

A corrida pelo Senado no estado da Virgínia foi manchada neste sábado com a publicação de novos trechos de livros do candidato democrata James Webb, nos quais ele descreve cenas de sexo entre menores e diz que as mulheres não têm aptidão para combater.O caso de Webb parece confirmar que não há campanha eleitoral nos Estados Unidos que não tenha um escândalo relativo à vida pessoal dos candidatos, e acontece depois de o congressista republicano Mark Foley ter renunciado devido ao envio de mensagens de teor sexual a estagiários do Congresso.A equipe eleitoral do candidato republicano George Allen, de 54 anos, sob o argumento de que são degradantes para as mulheres, publicou ao longo da campanha parágrafos de alguns dos oito romances sobre a Guerra do Vietnã que Webb escreveu.PolêmicaOs trechos publicados pelos meios de comunicação americanos são partes do seu livro "Lost Soldier" (Soldado Perdido).Num deles, uma cena de sexo oral de um homem com seu filho de quatro anos é narrada com riqueza de detalhes.Em outro parágrafo publicado, neste caso extraído do livro "Something to Die For" (Algo pelo que Morrer), o escritor e agora candidato narra como uma mulher que faz strip-tease brinca com uma fruta com seus órgãos sexuais e diz que as mulheres não têm condições de lutar numa guerra.O próprio Webb, em declarações feitas a emissora de rádio do jornal "The Washington Post", reconheceu que a dureza e a crueza das cenas em seus romances são "um pouco inapropriadas", inclusive para serem lidas no ar."Não sei porquê você está lendo isto no rádio", disse Webb, de 60 anos, ao locutor da emissora, Mark Plotkin.Webb declarou que a difusão de trechos de seus romances é uma "tática própria de Karl Rove", principal assessor da Casa Branca e arquiteto das vitórias do presidente americano, George W. Bush. Além disso, reiterou que suas descrições são puramente ilustrativas."Não é um ato sexual", disse Webb, em relação a seu livro "Lost Soldiers". "Eu vi como isso ocorria em um casebre de Bangcoc quando estive lá como jornalista", disse.Webb, natural do Missouri e amplamente condecorado na Guerra do Vietnã, foi infante da Marinha, secretário da Marinha durante a administração de Ronald Reagan e subsecretário de Defesa.CríticasOs pedidos para que Webb se retire da campanha pelo Senado não demoraram a chegar. A conservadora Coalizão por Valores Tradicionais, através de sua presidente, Andrea Lafferty, disse sentir náuseas cada vez que tem que ler algum trecho do livro."Democrata ou republicano, um indivíduo assim deveria estar no sofá de seu terapeuta, não no Senado dos EUA", acrescentou Lafferty.Assim, os especialistas prevêem uma resposta de Webb contra Allen, que também teve seu escândalo na disputa eleitoral da Virgínia, pois chamou de "macaco" um voluntário de ascendência hindu que faz parte da campanha eleitoral de Webb.Allen, nascido na Califórnia e que tenta a reeleição, foi tachado de racista várias vezes. Ken Shelton, um radiologista que jogava no time de futebol americano da Virgínia com Allen, lembrou à imprensa que este se referia às pessoas de cor de forma depreciativa.Shelton lembrou inclusive que há 30 anos, após voltar de uma caçada, Allen cortou a cabeça de um cervo e a colocou ao lado de uma caixa do correio da casa de uma pessoa de cor que vivia nas redondezas.Estes episódios foram negados por pessoas próximas a Allen.Agora resta ver se os americanos saberão diferenciar a vida pessoal e a capacidade de governar de seus líderes.Em 1987, o pré-candidato presidencial democrata Gary Hart foi obrigado a desistir da candidatura depois que - após ter negado diversas aventuras amorosas - foi pego em sua casa com a modelo Donna Rice.No entanto, posteriormente, as aventuras do presidente Bill Clinton com uma estagiária não lhe custaram o cargo.

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