Trégua começa na Síria e oposição vê mudança de tática

Dissidentes denunciam prisões e planejam para hoje protesto que deve pôr à prova disposição do regime para seguir plano de paz

LOURIVAL SANTANNA, ENVIADO ESPECIAL / DAMASCO, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2012 | 03h03

Pela primeira vez desde o início do levante, há mais de um ano, o regime sírio cumpriu ontem sua promessa de observar um cessar-fogo, conforme previsto no plano do mediador da ONU e da Liga Árabe, Kofi Annan. O acordo prevê também a retirada das tropas, e isso ainda não foi feito. Em Genebra, representantes da oposição disseram que a diminuição da violência faz parte de uma nova tática de Damasco.

Incidentes isolados deixaram ao menos dois mortos ontem na Síria - número bem inferior das dezenas ou até mesmo centenas de mortos registrados diariamente ao longo da crise síria - e a população viveu um dia de relativa tranquilidade. O grande teste do regime, no entanto, será hoje, em protestos convocados pela oposição. Um dos pontos do plano é a não repressão de manifestações pacíficas.

Num sinal de revigoramento do plano de Annan, a equipe avançada da ONU que esteve na Síria semana passada negociando as condições de monitoramento do cessar-fogo no terreno voltará hoje a Damasco. Se a trégua continuar sendo observada, uma força com 250 a 300 militares, incluindo brasileiros, será formada para observar o seu cumprimento.

Em conversa por telefone, os presidentes dos EUA, Barack Obama, e da França, Nicolas Sarkozy, exortaram Assad a cumprir sua palavra. "O regime será julgada por seus atos", concordaram os líderes ocidentais em nota divulgada à imprensa.

Pouco depois do início do cessar-fogo, às 6 horas locais (0 hora em Brasília), um homem foi morto na cidade de Safsafiyeh, no centro-oeste do país. De acordo com o militante Mussab Hamadi, ouvido pela Associated Press, aparentemente ele era procurado pelas autoridades e tentou fugir ao ser parado em uma barreira militar.

Violência. Houve relatos de que o Exército intensificou as averiguações nas barreiras na Província de Idlib, noroeste do país, obrigando os passageiros a descer e fazendo buscas detalhadas nos carros, o que originou grandes filas nas estradas. De acordo com o militante Fadi al-Yassin, também citado pela AP, tropas leais ao regime fizeram disparos em várias áreas da província, mas não havia informações de vítimas.

A agência oficial de notícias Sana informou que um soldado foi morto quando uma bomba explodiu na beira de uma estrada em Alepo, no norte do país, no momento em que passava um ônibus transportando militares. A agência atribuiu o atentado a "terroristas". De acordo com o governo sírio, 3 mil soldados morreram nesses 13 meses de confrontos; a ONU estima a morte de pelo menos 9 mil civis e militares desertores.

A situação continuava sob controle ontem na área central de Damasco, mas havia uma expectativa em relação às manifestações convocadas para hoje pelo Conselho Nacional Sírio (CNS), a oposição no exílio (com representantes não oficiais dentro do país). Os protestos, que devem ocorrer na saída das mesquitas depois da oração do meio-dia de sexta-feira, a mais importante da semana, testarão os nervos do governo sírio.

"A população vai sair às ruas amanhã e será a maior (manifestação) possível", disse o líder do Conselho Nacional Sírio, Burhan Ghalioun, à agência Reuters, pelo telefone. "Veremos amanhã (hoje) se (o governo) manterá seu compromisso. Ao mesmo tempo em que pedimos ao povo sírio para protestar com vigor, pedimos cautela, pois o regime não vai respeitar o cessar-fogo e vai disparar."

Desabituado a qualquer tipo de oposição, as forças de segurança não tinham nem equipamento - como balas de borracha, bombas de gás lacrimogêneo ou jatos d'água - nem treinamento para controlar multidões sem uso de força letal, quando os protestos começaram, em março do ano passado.

Nova estratégia. Ontem, o CNS denunciou em Genebra o fato de que o acordo estava sendo apenas parcialmente respeitado e que pelo menos 50 pessoas desapareceram, insinuando que teriam sido presas pelo regime. "Os ataques em grande escala, de fato, foram suspensos. Mas não a violência nem o clima de ameaça", alertou Bassma Kodmani, responsável de relações exteriores do conselho.

Segundo ela, tudo indicava que Assad estaria apenas modificando sua estratégia de repressão, para dar a sensação de que cumpria o plano de Annan. "Os ataques em massa foram trocados por atiradores de elite, detenções, desaparecimentos e ações pontuais do Exército."

De acordo com o Conselho Nacional Sírio, soldados abandonaram seus uniformes para poder atuar sem serem identificados. "Além disso, os tanques estão nas ruas, exatamente como a três semanas."

"Depois de já ter usado o plano de Annan como uma cobertura para matar mil pessoas, obviamente que Assad está de acordo em observar um cessar-fogo", declarou Ricken Patel, do grupo Avaaz, que vem operando dentro da Síria na distribuição de celulares e de câmeras para membros da oposição.

"A questão é se Assad vai manter sua promessa quando milhares tomarem as ruas", questionou Patel. / COLABOROU JAMIL CHADE

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