Divulgação/AP
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Trégua em Gaza deu a Morsi capital político inesperado

Ação de líder ligado à Irmandade Muçulmana tirou o Egito da irrelevância à qual foi lançado por Israel e EUA durante era Mubarak

MICHAEL BIRNBAUM, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2012 | 02h19

Um dia antes de adotar medidas que reforçam seu poder internamente, o presidente egípcio, Mohamed Morsi, emergiu, na quarta-feira, como o autor incontestável de uma façanha do mais alto nível na diplomacia internacional entre Israel e o Hamas, assinalando a estreia do Egito pós-revolução como uma força de grande influência na região.

Um mês depois de assumir, o primeiro líder democraticamente eleito do Egito tornou-se o principal interlocutor entre Israel e o Hamas. Os israelenses castigavam a Faixa de Gaza com ataques aéreos e os militantes disparavam foguetes sobre as cidades do sul de Israel.

Após dias de negociações no Cairo, o pacto entre Israel e o Hamas marca um retorno importante do Egito ao cenário internacional. O país - durante muito tempo o principal árbitro da influência diplomática e cultural do Oriente Médio - tornara-se irrelevante no governo de Hosni Mubarak, cujos 30 anos de reinado terminaram no ano passado.

As rápidas mudanças no Egito deixaram os EUA e Israel com um parceiro menos flexível, mas mais forte, dizem os analistas, porque Morsi, um islamista, pode afirmar que fala pelo povo egípcio, algo que Mubarak nunca conseguiu. E a promessa do Egito de subscrever a trégua pode lançar as bases para o Cairo tornar-se um mensageiro de confiança nas futuras negociações de paz.

Morsi conquistou a confiança de Israel, que por muito tempo não aceitou a abordagem de Mubarak em relação ao vizinho do outro lado do Sinai. Desta vez, o Egito adotou uma posição firme ao lado dos palestinos, mas obteve a paz temporária. O acordo entre Israel e Hamas, que há muito rejeitam o reconhecimento recíproco, intermediado por um governo islâmico vizinho, seria impensável antes que a Primavera Árabe trouxesse uma nova organização à região.

"O novo governo do Egito assume a responsabilidade e a liderança que tornaram este país um marco fundamental de estabilidade e paz regional", afirmou a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, na quarta-feira, anunciando o acordo de cessar-fogo, ao lado do chanceler egípcio Mohamed Amr.

Suas palavras foram reiteradas pelo primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, que falou minutos antes de a trégua entrar em vigor, na noite de quarta-feira. "Gostaria de expressar minha apreciação pelos esforços do Egito com vistas a um cessar-fogo", disse ele, em Jerusalém. O Egito "não esqueceu de sua posição de nação árabe", afirmou no Cairo Khaled Meshal, líder do Hamas, um braço da Irmandade Muçulmana do Egito, estreitamente alinhada com Morsi.

A evolução do Egito é particularmente importante porque a Turquia, outro país que procura ampliar a influência na região, assumiu uma posição mais agressiva contra Israel. Morsi agiu rapidamente, condenando o ataque israelense, para ganhar tempo com a opinião pública do seu país. Mas manteve a comunicação da inteligência egípcia com o seu equivalente israelense. E falou seis vezes com o presidente Barack Obama, convencendo-o de que era preciso concluir um acordo. 

É CORRESPONDENTE NO CAIRO

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