Trégua unilateral das Farc divide opiniões na Colômbia

Especialistas ouvidos pela BBC Mundo, o serviço espanhol da BBC, analisaram armistício temporário do grupo guerrilheiro.

Arturo Wallace, BBC

20 de novembro de 2012 | 09h39

O cessar-fogo unilateral anunciado nesta segunda-feira pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) gerou reações antagônicas no país sul-americano.

Para marcar o início das conversações de paz em Havana, em Cuba, o negociador-chefe das Farc, Iván Márquez, ordenou aos guerrilheiros "o fim de todos os tipos de operações militares ofensivas contra as forças de segurança e os atos de sabotagem contra as infraestruturas privada ou pública, durante o período entre a meia-noite do dia 20 de novembro de 2012 até a meia-noite do dia 20 de janeiro de 2013".

Se uns consideram o gesto um incentivo ao processo de paz e cobram uma iniciativa semelhante do governo colombiano, outros pedem cautela. Houve até quem achasse que o armistício temporário era, na verdade, uma armadilha.

No entanto, o ministro da Defesa da Colômbia, Juan Carlos Pinzón, disse nesta segunda-feira que as forças de segurança do país vão manter suas operações militares, apesar da trégua unilateral das Farc.

Para entender o impacto desse cessar-fogo temporário nas negociações de paz e no futuro das Farc, a BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, conversou com dois especialistas com visões diametralmente opostos. Confira clicando nas abas abaixo.

León Valencia

BBC Mundo: Qual a importância do cessar-fogo anunciado pelas FARC?

Valencia: Achei um gesto ousado, mas importante, pois dá maior credibilidade às negociações de paz. A iniciativa já foi usada em outros processos de paz: a Frente de Libertação Nacional de El Salvador, em um momento de muitas dúvidas no país, também lançou mão de um gesto parecido. O grupo determinou um cessar-fogo unilateral para enviar uma mensagem de tranquilidade à sociedade salvadorenha, o que foi muito bem recebido. Eu espero que ocorra o mesmo na Colômbia.

Espero também que as Farc tenham controle suficiente sobre suas tropas - e acredito nisso - para transformar tal iniciativa em algo verdadeiro e sincero. Pois a partir daí o processo avança para uma competição de gestos positivos. Isso é muito importante em um processo de paz porque um gesto positivo normalmente gera outro igualmente positivo.

BBC Mundo: E o que seria um gesto positivo por parte do governo? O presidente colombiano (Juan Manuel Santos) também poderia pedir um cessar-fogo do lado dos militares?

Valencia: Acho essa hipótese pouco provável, pois uma decisão como essa está cercada de muitas pressões. De um lado, há as forças armadas, que têm insistido em manter o confronto e descartam qualquer negociação com as Farc. De outro, a ala partidária de direita representada pela figura do presidente, que tampouco quer o fim das ações ofensivas. Por exemplo: ao retribuir o gesto tomado pelas Farc, o governo daria um tiro político no próprio pé. A administração de Santos teme que, ao trabalhar com uma iniciativa semelhante à do grupo guerrilheiro, provoque um mau-estar nas Forças Armadas e na ultra-direita que a apóia.

BBC Mundo: Esta não é a primeira trégua anunciada pelas Farc. O que há de tão diferente agora? A duração? O momento?

Valencia: O momento. Especialmente porque as Farc controlam muitas áreas do país. Nesse sentido, a proximidade do Natal é uma ocasião perfeita. Em primeiro lugar, com a iniciativa, as Farc passam uma mensagem positiva para o público. Em segundo, ganham tempo para engrossar suas fileiras, pois os militares tendem a depor as armas durante as festividades do fim do ano.

BBC Mundo: Mas se as Farc não respeitarem sua própria trégua, não são os que mais saem perdendo?

Valencia: Tal risco sempre existe. Mas não se pode esquecer que as substituições no alto escalão das Farc ocorrem de forma muita mais rápida e fácil do que em um ministério do governo, por exemplo. Assim, o impacto na popularidade não é tão alto.

BBC Mundo: Se o governo realmente continuar a empreender ações defensivas ante os guerrilheiros em trégua, as negociações não podem sair prejudicadas?

Valencia: A trégua uniliteral significa o fim das ações ofensivas, e não de todas as ações das Farc. Ninguém vai ficar parado se eles atacarem. Eles (as Farc) vão reagir, vão se defender. É claro que alguns setores militares defenderão a ideia de aproveitar o momento para intensificar as ações contra o grupo. Essa é uma questão de extremamente complicada.

León Valencia é diretor da Corporación Nuevo Arco Iris (CNAI), um think tank sediado na Colômbia.

Rafael Guarín

BBC Mundo: Qual é a importância do cessar-fogo anunciado pelas Farc?

Guarín: Esta não é a primeira vez que as FARC declararam o fim de suas atividades violentas na Colômbia. Durante o governo do presidente Pastrana (1998-2002), o grupo declarou um armistício também no Natal. Em 1982, fez o mesmo, sem que isso significasse a deposição em absoluto das armas.

O que o país precisa neste processo de paz para garantir seu sucesso é uma decisão final e irreversível: as Farc têm de abandonar, de vez, a violência. Não adianta de nada, portanto, uma trégua de dois meses.

BBC Mundo: Mas isso já não é um avanço? O Sr. não acha que tal iniciativa não dá maior credibilidade ao processo de paz em curso?

Guarín: Obviamente, trata-se de um movimento por parte das Farc para conferir credibilidade ao processo de paz e ganhar legitimidade. Mas também de entender o anúncio do grupo dentro do que Mauricio Jaramillo (um dos primeiros negociadores do processo de paz) disse em 4 de Setembro: que as Farc lutariam pelo fim bilateral das hostilidades. E isso quer dizer amortecer a pressão militar sobre o grupo.

A contra-insurgência é baseada em dois aspectos centrais: o isolamento político e a pressão militar. As Farc romperam o isolamento político com o início das negociações de paz. Agora, o grupo pretende romper a pressão militar postulando o fim das hostilidades.

Em outras palavras, as Farc querem criar um ambiente para pressionar o governo a suspender as operações militares contra eles, o que seria um erro grave.

BBC Mundo: E qual é a probabilidade de que o presidente Santos reivindique um cessar-fogo por parte dos militares?

Guarín: O governo conhece as Farc e não deixará ser enganado pelo grupo. Porque, ao fim e ao cabo, o que eles (Farc) querem é uma trégua bilateral para arrefecer as operações militares. Além disso, embora as pesquisas feitas na Colômbia indiquem que a população torce para que o processo de paz gere resultados positivos, ninguém quer mais ser enganado pelas Farc. As pessoas não querem mais impunidade para os guerrilheiros, não querem permitir aos criminosos sair imunes de acusações de crimes de guerra. Por essa razão, acho difícil que o país concorde com um cessar-fogo bilateral.

BBC Mundo: Se é provável que as Farc não esperem uma trégua por parte do governo, por que o grupo tomou tal decisão?

Guarín: A lógica dos membros dessas organizações é alcançar os seus objetivos através da combinação de ações políticas e violentas. A escalada brutal das ações (militar das Farc) nas últimas semanas está ligada à estratégia política da organização na mesa de negociações em Cuba: eles aumentam a violência para demonstrar que têm capacidade para continuar a fazer estragos e convencer os colombianos, por uma trégua unilateral, por exemplo, que depende do Estado colombiano o processo de paz.

BBC Mundo: Mas não é para isso que serve justamente o processo de paz?

Guarín: Sim, mas Iván Márquez (o negociador-chefe das Farc) já disse que se as duas partes não alcançarem um acordo que atendam interesses mútuos, o que ele propõe é um pacto para regularizar a guerra. Em outras palavras, algo que dê às Farc legitimidade política para continuar patrocinando a violência no país.

É por essa razão que recomendo cautela neste momento. Digo isso sem qualquer paixão política. Essas pessoas não estão brincando em serviço. Timoshenko (Rodrigo Londoño, o líder das Farc) participou de uma mesa de negociação em 1984 com o governo de Belisario Betancourt. Naquela ocasião, Iván Márquez também desempenhou um papel importante. Estamos falando de pessoas que têm participado de processos de paz há 30 anos, mas continuam promovendo atos de violência. Por isso, todo cuidado é pouco ao comemorar a vitória antes da hora. Senão, o risco de decepção é grande.

Rafael Guarín é advogado e colunista de jornais colombianos e internacionais. Foi professor da Universidad del Rosario, em Bogotá, na Colômbia, onde lecionou ciência política. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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