NYT | 25.11.2015
NYT | 25.11.2015

Treinamento policial contribui para violência contra negros nos EUA

Analistas afirmam que a forma e o ambiente em que oficiais são treinados causam mais mortes de jovens pela polícia

Jéssica Otoboni, O Estado de S. Paulo

02 Janeiro 2016 | 03h00

Em 2015, os Estados Unidos foram palco de grandes manifestações em consequência de inúmeros casos de violência policial contra jovens negros. Analistas ouvidos pelo Estado atribuem esse tipo de crime ao racismo ainda presente na sociedade americana e ao ambiente de treinamento e ação dos policiais. 

“O problema é causado por uma combinação de vários fatores, incluindo a relação difícil entre policiais e jovens em geral, particularmente os que pertencem a minorias”, explica David Murphy, professor de justiça criminal da Western Oregon University. Ele argumenta que o treinamento policial nos EUA tem por base a chamada “força contínua”.

A “força contínua” seria o recurso desenvolvido para guiar as decisões dos policiais com base em suas percepções da natureza e gravidade da ameaça. O objetivo principal da medida é “responder às ameaças com o uso adequado da força física”. Contudo, os diversos casos em que a polícia é acusada de força excessiva mostram que o recurso não funciona da forma como deveria.

Murphy explica que os policiais agem em ambientes relativamente violentos, onde mortes por armas de fogo são comuns. “A subcultura da polícia americana – ideia de ‘nós contra eles’ – tem ajudado a criar esse ambiente. O contexto ajuda a explicar porque o uso da força policial é tão comum.”

O professor destaca que os oficiais são punidos apenas quando a situação sai do controle. Aqueles que violam as políticas da agência estão sujeitos a medidas disciplinares e suspensão. No entanto, “acusações contra policiais são raras e as condenações, ainda mais.”

Racismo. Apesar de analistas afirmarem que as taxas de crimes violentos têm permanecido relativamente baixas nos últimos anos, em comparação aos anos 1970 e 1980, 321 negros foram mortos por policiais em 2015, até meados de dezembro, segundo o site Mapping Police Violence. O portal informa que os negros têm três vezes mais chances de serem mortos por policiais brancos do que policiais negros. Em 98% dos casos, ninguém foi acusado.

De acordo com Michael Campbell, especialista em crimes e correções do Departamento de Criminologia e Justiça Criminal da Universidade de Missouri-St.Louis, parte do problema é o fato de os policiais serem treinados sob uma cultura paramilitar e, depois, serem requisitados para trabalhar em ambientes onde o mais adequado seria um assistente social.

Campbell considera que o “governo de Obama tem sido mais diretamente engajado em problemas raciais do que qualquer outra desde o Movimento dos Direitos Civis”, mas a história americana mostra evidências de que o racismo permanece na cultura do país, outro fator importante que explica o alto índice de mortes de jovens negros por policiais brancos. 

Para Murphy, o racismo não é algo inerente à cultura americana, mas continua sendo um sério problema. O professor o atribui em grande parte à história de escravidão e segregação do país.

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