Três anos após invasão, iraquianos temem guerra civil

Nos primeiros anos que se seguiram à invasão, grande parte das vítimas era de xiitas, mortos por ataques organizados por grupos insurgentes formados em sua maioria por sunitas. Mas no último ano, assassinatos de vingança contra sunitas também vêm se multiplicando. A destruição de um templo xiita na cidade de Samarra há menos de um mês contribuiu ainda mais para que a violência sectária ganhasse mais força. Desde então, centenas de pessoas deixaram suas casas em áreas em que elas se sentem ameaçadas, com sunitas deixando regiões com maioria xiita e vice-versa. Em entrevista ao jornal Los Angeles Times, o embaixador americano no Iraque, Zalmay Khalilzad, afirmou acreditar que há potencial para que a violência sectária se transforme em uma guerra civil. Hussein Shahrastani, um importante político xiita iraquiano, disse em uma entrevista à BBC que "o país está gradualmente escorregando para uma situação séria e perigosa". Forças de segurança O desmantelamento das forças de segurança do Iraque durante a invasão é geralmente apontado como uma das grandes falhas da coalizão. Os Estados Unidos afirmam que a reestruturação desse grupo é uma realidade. Na sexta-feira, um comandante militar americano disse que, em breve, 75% do território iraquiano estará sob controle das forças do país. Atualmente, segundo o general Peter Chiarelli, os iraquianos controlam menos de 50%. Para o especialista em segurança Gamaliel Perruci Júnior, do Marietta College, em Ohio, nos Estados Unidos, uma eventual guerra civil no Iraque poderá destruir novamente o sistema de segurança. "No caso de uma guerra civil toda essa força vai desaparecer porque vai ser dividida em torno de três grandes grupos, os xiitas, sunitas e curdos", afirmou. No primeiro de uma série de discursos para marcar o aniversário de três anos da invasão, o presidente dos Estados Unidos George W. Bush voltou a pedir calma à população americana em relação ao Iraque, mas não falou em prazos para a retirada das tropas dos país. Os Estados Unidos mantém mais de cem mil soldados no Iraque. A Grã-Bretanha anunciou recentemente que vai retirar 800 de seus soldados, deixando 7 mil no território iraquiano. Política O embaixador Zalmay Khalilzad disse que a formação de um governo de unidade nacional poderia proporcionar o principal obstáculo aos que parecem querer empurrar o país para uma guerra civil. Mas mais de três meses depois das eleições, a formação de qualquer tipo de governo ainda é uma realidade distante. Há um impasse sobre quem deveria assumir o posto de primeiro-ministro, com a indicação dos xiitas do nome de Ibrahim al-Jaafari fortemente rejeitada por curdos, sunitas e facções seculares cuja cooperação é necessária para a formação de um governo de coalizão. Uma vez que esse problema seja resolvido, disputa sobre o programa político e distribuição de postos podem levar semanas, se não meses. Mortes Não há um número oficial de vítimas civis no Iraque e as estimativas variam entre 10 mil e 100 mil pessoas. A organização Iraq Body Count (Contagem de Corpos no Iraque, em tradução livre) estima que entre cerca de 33 mil e 37 mil civis iraquianos tenham morrido desde março de 2005. "Apesar de o que é descrito como ´violência sectária´ contribuir para uma crescente porção das mortes, o total do último ano inclui 370 mortes de civis causadas por ações militares das forças lideradas pelos Estados Unidos e 2.231 causadas por atividades antiocupação", afirma o último relatório do grupo. O governo iraquiano diz que os relatórios do Iraq Body Count são equivocados. Entre as forças de segurança iraquianas, já houve mais de 4 mil mortes de acordo com o grupo Iraq Coalition Casualty Count. As baixas entre os militares americanos passaram de 2.300. Entre as tropas britânicas, 103 morreram. O conflito no Iraque já é o mais sangrento da história da imprensa, segundo o News Safety Institute. De acordo com o grupo, 101 profissionais de 16 países morreram em território iraquiano desde março de 2003.

Agencia Estado,

20 Março 2006 | 10h09

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