Três casos abalam credibilidade de Obama

Perseguição fiscal a membros do Tea Party, vigilância de telefones da 'AP' e ecos de Benghazi embaraçam Casa Branca

DENISE CHRISPIM MARIN , CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2013 | 02h00

Na Casa Branca, quinta-feira, o presidente dos EUA, Barack Obama, era desafiado pela imprensa quando pediu um guarda-chuva para abrigar-se. Como aquela nuvem sobre a sede do governo, três escândalos o atingem, minam sua credibilidade e põem em risco sua agenda de segundo mandato.

As comparações com o Watergate, que culminou com a renúncia de Richard Nixon, em 1974, são exageradas. Mas congressistas republicanos acusam o governo Obama de ser "arrogante", de "mentir", "perseguir a oposição" e "atentar contra a liberdade de imprensa". Parte dos meios de comunicação, antes generosa com Obama, mudou de tom.

Os pesadelos de Obama neste momento foram causados por deslizes de seu governo. Entre 2010 e 2012, o Tea Party, a ala ultraconservadora da oposição republicana, foi atirada na malha-fina pelo IRS, a receita federal americana. E o Departamento de Justiça monitorou 20 telefones da Associated Press, em 2012, para descobrir a fonte confidencial de reportagem sobre um plano de atentado da Al-Qaeda, abortado pela CIA.

Em setembro, a apenas dois meses da eleição presidencial, a embaixadora dos EUA na ONU, Susan Rice, insistiu na versão de que o ataque ao Consulado americano em Benghazi não fora um atentado terrorista. Um mês depois, o governo teve de admitir que fora uma operação de um grupo filiado à Al-Qaeda.

Esses escândalos não tendem a ser superados pelo tempo e as ações do governo Obama estão longe de pôr um ponto final na história. No caso do IRS, organizações democratas não foram alvo do mesmo rigor fiscal e as informações requeridas pelo Fisco aos grupos do Tea Party foram além de dados contábeis. No caso da AP, os "arapongas" do Departamento de Justiça tiveram acesso aos números que receberam e originaram chamadas dos telefones monitorados.

No primeiro momento, a máquina da Casa Branca atuou para "blindar" o presidente. Com atraso, Obama demitiu o diretor do IRS, Steven Miller, e anunciou a liberação de e-mails oficiais sobre a questão de Benghazi.

Chris Kofinis, conselheiro para estratégias políticas do Partido Democrata, considerou "ultrajante" o governo ter apresentado a desculpa de o IRS ser uma "agência independente". Lanny Davis, especialista em crises e ex-conselheiro de Bill Clinton na Casa Branca, afirmou que a cabeça de Miller não bastaria. Katheryn Ruemmeler, conselheira de Obama, estava ciente da ação do IRS contra o Tea Party e deveria também ser demitida.

A reação do presidente ao caso do monitoramento dos telefones da AP transformou-se em uma quarta razão para críticas. Na mesma quinta-feira, Obama recusou-se a admitir a espionagem oficial em um meio de comunicação como erro de seu governo. E, em detrimento da liberdade de imprensa e da 1.ª Emenda da Constituição do país, validou futuras ações similares em nome da segurança nacional. Robert Pastor, diretor do centro de Estudos americanos da American University e ex-conselheiro na presidência de Jimmy Carter, acha que se trata apenas de questões exacerbadas pela polarização política - com exceção do caso da AP, sobre o qual afirmou não estar preparado para comentar.

"Esses escândalos não são escândalos", afirmou. "O ataque de Benghazi só ocorreu porque o Congresso não quis liberar verba adicional para reforçar a segurança de postos no exterior. No caso do IRS, o escândalo não está no fato de o Tea Party ter caído na malha-fina, mas no fato de pedir isenção fiscal", completou.

Em sua avaliação, a consultoria Eurasia Group concluiu não haver impacto na agenda de governo de curto prazo. Mas ele vê prejuízos eleitorais aos democratas se escândalos engrossarem, seja pela falta de habilidade de Obama para lidar com eles ou pelo surgimento de novos fatos.

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