Três Egitos em conflito

'O bom, o mau e o feio' do país árabe: interesses distintos dentro e fora do gabinete golpista

H. A. Hellyer , O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2014 | 02h09

Desde que os militares destituíram o presidente egípcio Mohamed Morsi em 3 de julho, o referendo sobre uma Constituição emendada é o primeiro teste eleitoral que o governo interino apoiado pelos golpistas enfrenta. Adversários e apoiadores da consulta apresentam-na não como um voto numa Carta, mas no novo governo. No momento em que observadores externos e egípcios aguardam os resultados do referendo e o iminente aniversário da revolução de 25 de janeiro, todos se perguntam: o que vem em seguida?

O Estado egípcio não é unificado - e sim uma coleção de instituições preocupadas com a própria independência. O Conselho Supremo das Forças Armadas tem seus interesses, distintos dos do Ministério do Interior, distintos do gabinete do premiê Hazem al-Beblawi. Como organismo coletivo, o Estado tem apoio da maior parte da mídia permitida (há pouca diferença entre a privada e a estatal).

O apoio da maioria está vinculado à popularidade do establishment militar. Os militares foram muito populares durante toda era pós-Hosni Mubarak até 3 de julho, com confiança de 80% a 95% da população. Pouco antes de 3 de julho, ela estava em 90% - depois, provavelmente caiu em razão da ausência do apoio da Irmandade Muçulmana, do lado dos militares até então. No entanto, os militares seguem em posição vantajosa ante qualquer outra força no país. A questão é: o que ocorrerá com esse apoio ao Estado - e aos militares - se o general Abdel-Fattah al-Sisi concorrer à presidência? Se ele o fizer, provavelmente terá uma vitória folgada. Ele pode ser o homem mais poderoso do país agora, mas não está governando abertamente. Com uma presidência de Sisi, isso mudaria.

Presidente, Sisi terá de enfrentar problemas econômicos graves e problemas de segurança que devem se intensificar. Os ataques de militantes provavelmente continuarão. Isso pode estar vinculado ao aumento da repressão. De qualquer modo, atentados são desestabilizadores, bem como protestos constantes, que afetam a imagem internacional do Egito. Se o próximo presidente for incapaz de enfrentar essas questões, poderia uma massa crítica se insurgir contra ele? Se isso um dia ocorrer (e não há nenhuma garantia de que ocorrerá), será que se refletiria negativamente no establishment militar? Não necessariamente - Mubarak era um militar que virou presidente e sua queda não comoveu os militares. A principal fonte de oposição é a Irmandade Muçulmana - e a Aliança Antigolpe que ela lidera. Na Irmandade, membros do primeiro e do segundo escalão, assim como do terceiro, estão presos ou no exílio. Seu principal objetivo é obstruir os rumos do Estado na esperança de que isso acarrete uma melhoria do destino político da entidade. Não está claro, porém, se a insatisfação com o governo levaria a um aumento da popularidade da Irmandade.

Além disso, a Irmandade é impedida de atrair apoio mais amplo dentro e fora do Egito. Perdeu aprovação durante o mandato de Morsi - e seu apoio pouco antes da deposição estava em até 20%. Numa arena pública onde a mídia é polarizada e há meses descreve a Irmandade como terrorista, a entidade terá dificuldade de recuperar terreno, mesmo que o governo se torne mais impopular. A Irmandade tem outro desafio: manter seus seguidores. A repressão do Estado e a perseguição histérica à Irmandade na mídia têm consequências. O modus operandi da Irmandade não é terrorista e grupos não ligados a ela estão reivindicando responsabilidade pela atual violência política. Mas não está claro que efeito a repressão contínua poderá ter. É plausível que grande quantidade de membros e simpatizantes da Irmandade peguem em armas.

O "bom" na história do "bom, o mau e o feio" (do filme traduzido no Brasil como Três Homens em Conflito) na cena política e na épica luta pelo poder no Egito encontra apoio em não mais que 10% da população. Na era Mubarak, uma pequena comunidade de jornalistas e ativistas por direitos civis se agitou por mudanças - e encontrou um catalisador que levou aos protestos de 25 de janeiro de 2011.

Nos últimos anos, seus membros se multiplicaram - e constituem uma força respeitável. Grupos de defesa dos direitos humanos, certas empresas de mídia, figuras proeminentes de diferentes partidos, alguns intelectuais, ONGs e alguns movimentos políticos constituem esse "centro independente". Críticos tanto do Estado como da Irmandade, eles são pressionados pelos dois. Os favoráveis às autoridades tendem a ver esses independentes como subversivos. Os partidários da Irmandade os percebem como insuficientemente contra os militares. Esses independentes não têm potencial para se tornar uma força política de peso. No entanto, são a principal força que propõe reformas e rejeita a polarização.

Tentativas bilaterais dos EUA para se aproximar das autoridades egípcias não têm muita esperança de sucesso. Uma tentativa multilateral pode ter sucesso.

*H. A. Hellyer é pesquisador da Brookings Institution, especialista em política árabe.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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