Três faces atribuídas a Barack

Nem se quisesse Obama conseguiria ser Poliana, John Wayne e Kissinger, como o acusam

Thomas L. Friedman*, The New York Times/O Estado de S.Paulo

18 de março de 2014 | 02h09

O presidente Barack Obama é certamente o primeiro presidente a ser acusado de agir como Poliana, John Wayne e Henry Kissinger, em política externa, no mesmo mês. Desde que o presidente russo, Vladimir Putin, apoderou-se da Crimeia, os conservadores denunciaram Obama como um homem que não compreende que mundo implacável e hobbesiano é esse em que vivemos. Ele é uma Poliana - sempre procurando ver o lado bom das pessoas.

Os liberais criticam Obama pelo hábito, como o definem, de usar drones a torto e a direito e por ter ordenado o assassinato cirúrgico de centenas de indivíduos. Ele é um novo John Wayne, aplicando a justiça dos vigilantes (do Velho Oeste) contra os que prejudicaram, ou poderiam prejudicar, os EUA. E, só para complementar, Obama tem sido acusado pelos críticos da direita e da esquerda de ser um hiper-realista à maneira de Kissinger, que se contenta em observar o regime sírio esmagar seu povo, porque, embora seja trágico, os interesses americanos naquele país são mínimos.

Não deve ser fácil ser Poliana, John Wayne e Henry Kissinger ao mesmo tempo. Portanto, quem é Obama - na realidade - em política externa? Eu diria que ele é menos Poliana do que seus críticos afirmam, mais John Wayne e Henry Kissinger do que ele admite, mas ainda indefinido no que se refere aos maiores desafios à liderança em política externa - que vão além da Crimeia, mas que já se delineiam no horizonte.

Se Obama foi um guerreiro relutante na Crimeia, é porque ela foi por muito tempo uma parte da Rússia, é sede de uma base naval russa e ali grande parte da população é favorável à Rússia. Obama agiu acertadamente ao se referir a sanções limitadas em resposta ao sequestro da Crimeia por Putin e ao buscar simplesmente usar a diplomacia para impedir uma disputa maior em razão da Ucrânia.

Putin organizou, basicamente da noite para o dia, um referendo sobre a secessão em que se joga o futuro da Crimeia - sem dar tempo à oposição para preparar sua campanha. A península está sob ocupação militar russa, o que constitui uma violação da Constituição da Ucrânia, efetivamente com duas opções: "Vote 1 se você quer se tornar parte da Rússia" ou "Vote 2 se você quer se tornar parte da Rússia". Não é assim que age um líder forte, seguro.

Se Obama foi um realista kissingeriano com sua relutância em mergulhar na guerra civil síria, ou na Ucrânia, é porque ele aprendeu com o Iraque e o Afeganistão que o fato de existirem homens maus nessas nações não significa que seus adversários sejam todos bonzinhos. A grande maioria dos líderes em todos esses países mostrou-se mais interessada em usar sua liberdade para saquear em lugar de libertar.

Quando surgirem reformadores autênticos na Síria ou na Ucrânia, os EUA deverão ajudá-los, mas, contrariamente a John McCain, a maioria dos americanos não está mais disposta a pender para o lado de quem dança pela sua música (ver Hamid Karzai). Eles agora suspeitam que terão de pagar pela ajuda e pelas contas de gás de países que não compreendem.

Quanto a Obama-John Wayne, "o drone mais rápido do Oeste", todo presidente americano precisa de um pouco disso mesmo no mundo de hoje. Há legiões de raivosos, investidos de um poder excessivo que desejam o mal dos EUA e têm acesso a foguetes e vivem em países onde não há governo.

Por isso não tenho nenhum problema com Obama como John Wayne ou Henry Kissinger. Se vocês quiserem criticá-lo ou elogiá-lo por sua política externa, os testes reais são de dois tipos: Como ele está se saindo liderando indiretamente a questão da Ucrânia? Como ele está se saindo liderando diretamente a questão da Rússia, do Irã e da China?

Provavelmente, não haverá como salvar a Crimeia das mãos de Putin no curto prazo, mas será bom se ele se movimentar atrás da Crimeia e absorva partes do leste da Ucrânia em que residem cidadãos de língua russa. É preciso estar pronto para oferecer armas ao governo ucraniano para impedir isso. Mas não se deve perder de vista o fato de que o segredo para manter outras partes da Ucrânia fora do alcance da Rússia depende da capacidade dos ucranianos de se unir de maneira a fundir tanto a maioria que vê seu futuro ao lado da União Europeia quanto a minoria de russófonos que ainda sentem alguma afinidade com a Rússia.

Se o drama da Ucrânia significar que a Ucrânia unida se volte contra Putin, que tenta reintegrar a Ucrânia no império russo, o líder russo perderá. Mas se os ucranianos estiverem divididos, se os partidos ultranacionalistas desse país dominarem e os pró-russos forem isolados, Putin desacreditará o movimento de libertação ucraniano e usará as divisões para justificar suas intervenções. Os ucranianos já perderam 25 anos não conseguindo se organizar, como fez a Polônia.

As três grandes questões que Obama deve encarar são: mudar o caráter do governo da Rússia, impedir que o Irã construa a bomba e impedir uma guerra no Mar do Sul da China entre Pequim e Tóquio. Eu deixaria a China e o Irã para depois. Mas quanto à Rússia, me oponho energicamente à expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) porque não existe nenhum grande problema geopolítico que se possa resolver sem a cooperação da Rússia. Isso exige que a Rússia não defina sua grandeza opondo-se aos EUA e recriando o império soviético. Está cada vez mais claro que essa jamais será a Rússia de Putin, que significa corrupção total, repressão cada vez maior e intransigência com o Ocidente. Putin busca dignidade para a Rússia em todos os lugares errados - e de todas as maneiras erradas. Mas somente o povo da Rússia poderá substituir o putinismo.

A ajuda que EUA e UE poderão oferecer, e levará tempo, será sob a forma de novas políticas energéticas que diminuam a dependência da Europa do gás russo - o elemento fundamental do putinismo. Mas os americanos também precisam trabalhar mais assiduamente para que o país se torne um exemplo convincente de capitalismo e democracia, não apenas o "menos ruim" do mundo no que diz respeito à economia e não apenas a melhor democracia que o dinheiro pode comprar no que diz respeito à política.

*Thomas L. Friedman é colunista.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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