GILLES , LAPOUGE , É CORRESPONDENTE EM PARIS, GILLES , LAPOUGE , É CORRESPONDENTE EM PARIS, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2013 | 02h05

O caso das três mulheres curdas encontradas mortas em Paris, na quarta-feira, não tem a ver apenas com homicídio. Foi um ato político. Uma delas, Sakine Cansiz, fazia parte do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), movimento de inspiração marxista-leninista que reivindica a independência da região curda. O grupo e o Estado turco travam desde 1980 uma guerra selvagem que já fez 30 mil mortos.

No estágio atual das investigações, todas as hipóteses estão sobre a mesa. Mas, uma coisa é certa: o massacre foi realizado por profissionais. Duas vítimas foram abatidas com uma disparo certeiro na cabeça. A terceira levou um tiro na barriga e outro na cabeça. A que movimento pertenceriam os assassinos profissionais? Ninguém sabe.

Os numerosos curdos que vivem em Paris - e se aglomeraram em torno da cena do crime - denunciaram o governo do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan. O líder turco sempre empreendeu uma luta impiedosa contra os independentistas curdos.

A essa acusação, autoridades turcas responderam com uma outra: o assassinato não foi cometido por agentes de Erdogan, mas pelos próprios curdos. O vice-premiê da Turquia, Bülent Arinz, denunciou a "atrocidade" em Paris.

Há algum tempo, o governo de Erdogan manteve contatos com alguns líderes curdos. O negociador do lado dos guerrilheiros foi um personagem de peso: Abdullah Ocalan, chamado de "Tio". Quem é ele? Veterano guerrilheiro, Ocalan caiu nas mãos dos turcos em 1999. Ficou preso em Imrali, no Mar de Marmara. Foi maltratado. Recentemente, suas condições na prisão abrandaram e o diálogo foi retomado.

Por que Erdogan busca a negociação? Por duas razões. A primeira é que o PKK emitiu uma ordem de greve de fome a todos os prisioneiros curdos que se encontram nas prisões turcas, de maneira que centenas de mortes poderão ocorrer dentro de algumas semanas. Além disso, Erdogan pretende se candidatar à presidência da Turquia em 2014 e deseja que a guerrilha deponha as armas antes disso.

Podemos imaginar o seguinte cenário: os negociadores do PKK teriam feito concessões excessivas em troca do fim dos combates. Então, algumas facções mais fanáticas da diáspora curda na França quiseram torpedear as conversações, que consideram uma traição. O fato de uma das mulheres assassinadas, Sakine Cansiz, ser próxima de Ocalan, dá crédito a essa tese.

Circula uma terceira hipótese, mais rocambolesca: o crime teria sido perpetrado pelos Lobos Cinzentos, movimento turco de extrema direita que teve seu momento de triste glória há 30 anos, quando um de seus membros, Mahmet Ali Agca, atirou contra o papa João Paulo II. Por que? Mistério. Os caminhos do mal são impenetráveis. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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