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Moisés Naím
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Três ideias equivocadas

É fácil equivocar-se hoje em dia. A turbulência geopolítica, as crises econômicas e as convulsões sociais se sucedem numa velocidade que não há tempo para se pensar com calma e avaliar bem o que ocorre no mundo. Algumas ideias erradas se arraigaram tanto entre especialistas como na opinião pública. Estas são três delas.

Moisés Naím, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2014 | 02h04

1. Vladimir Putin é o líder mais poderoso do mundo. Por enquanto. Mas qual a durabilidade do enorme poder que ele hoje acumula? Não muita. A economia russa, que não vinha bem antes do conflito com a Ucrânia, debilitou-se ainda mais com as graves sanções impostas pelos EUA e a Europa. O valor do rublo caiu ao seu menor nível, a fuga de capitais é enorme (US$ 74 bilhões no primeiro semestre), o investimento parou e a atividade econômica se contraiu. O Kremlin teve de lançar mão dos fundos de pensão para manter grandes empresas cujas finanças desmoronaram com a perda de acesso aos mercados financeiros internacionais.

A produção de petróleo caiu e os novos investimentos dos quais depende a produção futura pararam. O machismo bélico de Putin deu vida nova e maior protagonismo a uma organização que ele detesta e estava em vias de extinção: a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). E nesta semana confirmou-se o fracasso de Putin para deter a aproximação da Ucrânia da Europa, ao ser ratificado pelo Parlamento deste país e pelo da União Europeia um acordo de associação. Putin continuará sendo um líder importante e suas ações terão consequências mundiais. Mas suas políticas econômicas, suas relações internacionais e sua política doméstica são insustentáveis.

2. Obama fracassou. A popularidade de Barack Obama é metade da de Putin. A resistência do presidente americano em intervir militarmente de maneira mais agressiva na Síria, na Ucrânia ou contra o Estado Islâmico lhe valeram severas críticas. Seu fracasso em conseguir o apoio do Congresso para aprovar leis indispensáveis tornaram comum afirmar que Obama é um novato que não sabe manejar o poder ou que os EUA já não são ou não sabem atuar como uma superpotência.

Essa afirmação tem base numa superestimação do poder dos EUA. E na crença de que para os problemas serem solucionados basta o presidente decidir intervir. Isso nunca foi correto. O presidente dos EUA tem menos poder do que tinham seus antecessores. Obama saiu-se muito melhor do que admitem os que acreditam que seu cargo dá poderes quase sobre-humanos.

3. A China é a próxima superpotência. É inevitável que dentro de alguns anos a China tenha a maior economia do mundo. Suas Forças Armadas também estão crescendo rapidamente. Sua influência na África, na América Latina e entre seus vizinhos asiáticos é inquestionável. A capacidade do governo chinês de realizar grandes obras de infraestrutura também é inquestionável e seu êxito econômico e social é fenomenal.

Isso faz muitos suporem que a China será a nova potência hegemônica do século 21. Não acredito. Existem duas Chinas: uma industrializada, moderna, dos arranha-céus, da globalização e do grande dinamismo econômico. Outra é pobre, com enormes necessidades insatisfeitas de moradia, saúde, educação, água, eletricidade, etc. A renda de 48% da população é um terço da que ganham seus compatriotas.

É particularmente surpreendente que o governo chinês revele grande insegurança. Ele gasta mais em segurança interna do que na defesa externa. Os esforços governamentais para controlar a informação, censurar a internet e limitar o livre intercâmbio de ideias já são lendários. É óbvio que a China terá cada vez mais peso na economia e na política do mundo. Mas ela não será a potência dominante. No século 21, nenhum país poderá fazer esse papel. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É ESCRITOR VENEZUELANO E MEMBRO DO CARNEGIE ENDOWMENT

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