Três jornais sofrem ataques no México

Em busca de proteção, 'El Mañana' não cobre mais a guerra entre cartéis e Exército

CIDADE DO MÉXICO, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2012 | 03h05

Redações de três jornais do norte do México foram ontem alvo de granadas e disparos atribuídos a integrantes de cartéis da droga. Os ataques destruíram parte dos escritórios, mas não deixaram vítimas. Em editorial, o El Mañana - publicação de Nuevo Laredo, na fronteira com os EUA, que sofrera um ataque semelhante em maio - reforçou que deixará de cobrir de seu escritório principal a guerra entre os narcotraficantes.

Segundo nota do jornal, um disparo de lança-granadas arrasou parte da fachada do prédio, no centro de Nuevo Laredo, às 6h19. Até a noite de ontem, nenhum grupo criminoso havia reivindicado a autoria dos atentados contra El Mañana e os outros dois diários - La Silla, de Monterrey, e Linda Vista, de Guadalupe, ambos pertencentes à mesma empresa.

A política de simplesmente parar de noticiar os crimes tem sido uma estratégia cada vez mais usada por jornais do norte do México para evitar os ataques dos narcotraficantes. Mas esta é a primeira vez que uma publicação anuncia abertamente que deixará de cobrir a violência.

"El Mañana é um instrumento para liberdade e democracia, portanto não se submeterá à mesquinhez de nenhum grupo delinquente de poder", afirmou o jornal em seu editorial de ontem. "Por isso, este jornal, apelando à compreensão da opinião pública, se absterá, pelo tempo que for necessário, de publicar qualquer informação que derive das disputas violentas que afligem nossa cidade e outras regiões do país."

O texto terminava denunciando a agressão ao direito de livre informação. "O conselho editorial e administrativo da empresa chegou a essa decisão lamentável obrigado pelas circunstâncias que todos conhecemos e pela falta de condições para o livre exercício do jornalismo."

Situada no Estado de Tamaulipas, um dos mais violentos do México, na fronteira com os EUA, Nuevo Laredo tem sido palco de um amplo confronto envolvendo três bandos criminosos. De um lado, está o Cartel do Golfo, que é aliado ao de Sinaloa. De outro, está a organização Los Zetas.

Os outros dois ataques de ontem ocorreram no Estado vizinho de Nuevo León. Ambos os jornais que foram alvo de tiros e granadas pertencem ao grupo El Norte, que não anunciou mudanças editoriais.

O Comitê de Proteção de Jornalistas (CPJ), com sede em Nova York, chamou a atenção para o alarmante resultado da guerra às drogas no México, lançada em dezembro de 2006 pelo presidente Felipe Calderón. Segundo a organização, 48 jornalistas que cobriam o embate entre cartéis e autoridades foram assassinados por narcotraficantes ou desapareceram.

A Comissão Nacional de Direitos Humanos do México afirma que, desde 2000, o número de repórteres mortos é de 81. Outros 16 foram sequestrados.

Nas páginas policiais das publicações que pararam de noticiar a guerra às drogas, o foco é em temas como acidentes nas estradas. Em casos de homicídio, os editores publicam apenas comunicados oficiais da polícia, sem fazer nenhuma investigação independente.

Jornais que não chegaram a parar de publicar informações sobre os narcotraficantes evitam citar nomes de cartéis e, na maioria das vezes, omitem a identidade do repórter responsável pela matéria.

Mais ataques. Ainda ontem, oito pessoas foram assassinadas em crimes supostamente ligados à disputa entre narcotraficantes em Jalisco, noroeste do México, e Sinaloa, no norte.

No primeiro caso, homens armados atacaram uma casa e mataram quatro pessoas de uma mesma família. / AP e EFE

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