Três líderes dos EUA e o enigma de Putin

Durante 15 anos, presidentes americanos tentaram compreender o presidente russo, mas se enganaram em suas avaliações

Peter Baker*, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2014 | 02h04

Bill Clinton o considerava frio e preocupante, mas previu que seria um líder duro e capaz. George W. Bush queria que ele fosse um amigo e parceiro na guerra ao terror, mas, com o tempo, se desiludiu. Barack Obama tentou contorná-lo fortalecendo seu protegido no Kremlin, o que funcionou por algum tempo, mas as relações entre Rússia e EUA se deterioraram a tal ponto que atingiram hoje seu pior nível desde o fim da Guerra Fria.

Por 15 anos, Vladimir Putin confundiu os presidentes americanos que tentavam compreendê-lo e se enganavam repetidamente a seu respeito. Ele desafiou seus pressupostos e repeliu seus esforços de amizade. Cada um dos três presidentes tentou, à sua maneira, forjar uma nova relação histórica, apesar de ilusória, com a Rússia e viu seus esforços torpedeados pelo duro mestre em artes marciais e ex-coronel da KGB. Eles imaginaram que Putin fosse algo que ele não é ou acharam que poderiam manipulá-lo. Eles o viram por suas próprias lentes, acreditando que Putin via os interesses da Rússia como os americanos achavam que ele deveria ver. E subestimaram seu senso de agravo. Se sobrou alguma ilusão em Washington, ela foi final e irrevogavelmente abalada pela tomada da Crimeia por Putin e pela troca de sanções que se seguiu. O debate agora mudou de como trabalhar com Putin para como contê-lo.

Olhando retrospectivamente, assessores dos três presidentes apresentam histórias parecidas: seu homem não era ingênuo sobre Putin e o via como ele era, mas achava que não havia muita escolha senão melhorar a relação.

Clinton foi o primeiro a encontrar Putin, mas seu intercâmbio não durou muito pela condição dos respectivos mandatos. Ele passou boa parte de sua presidência construindo um forte relacionamento com o presidente Boris Yeltsin, antecessor de Putin, e deu o benefício da dúvida ao sucessor escolhido a dedo, que se tornou primeiro-ministro da Rússia em 1999 e presidente na véspera do ano-novo.

Clinton teve seus receios, particularmente quando Putin travou uma guerra brutal na república separatista da Chechênia e reprimiu a mídia independente. Ele, privadamente, insistiu para que Yeltsin controlasse seu sucessor. Clinton também se sentiu desdenhado por Putin, que pareceu desinteressado em se entender com um presidente em fim de mandato.

No entanto, a imagem na época era a de que Putin era um modernizador que poderia consolidar a forma bruta de democracia e capitalismo que Yeltsin havia introduzido na Rússia. George Kennan, renomado especialista em Kremlin, achava que Putin "era suficientemente jovem, hábil e realista para compreender que a transição corrente da Rússia requeria que ele não apenas cooptasse a estrutura de poder, mas a transformasse".

Bush chegou ao cargo cético sobre Putin, chamando-o privadamente de "sujeito frio", mas se entendeu bem com ele durante seu primeiro encontro na Eslovênia, em junho de 2001. Putin havia feito uma ponte com o Bush religioso contando-lhe uma história sobre uma cruz que sua mãe havia lhe dado e como a cruz fora a única coisa que sobrevivera ao incêndio em sua casa de campo.

Nem todos ficaram convencidos. O vice-presidente de Bush, Dick Cheney, disse privadamente a pessoas na época que, quando via Putin, pensava: "KGB, KGB, KGB". Bush, porém, estava determinado a apagar a divisão histórica e cortejou Putin durante visitas do líder russo a Camp David e ao rancho de Bush no Texas.

Putin gostava de se gabar de que foi o primeiro líder estrangeiro a telefonar para Bush após os ataques de 11 de setembro de 2001 e permitiu a entrada de tropas americanas na Ásia Central como uma base de operações contra o Afeganistão.

No entanto, Putin nunca sentiu que Bush correspondeu e a relação azedou durante a guerra do Iraque e a crescente repressão do Kremlin a dissidentes em casa. No segundo mandato de Bush, os dois discutiam sobre a democracia russa, o que chegou ao auge durante uma reunião irritada na Eslováquia, em 2005.

Se Bush não empreendeu as ações positivas mais fortes, seu sucessor logo tornou a questão irrelevante. Ao assumir o cargo, Obama decidiu pôr fim ao isolamento da Rússia em razão da Geórgia, preferindo reconstruir as relações. Diferentemente de seus antecessores, ele tentaria forjar uma relação sem estreitar laços com Putin, mas contornando-o.

Cumprindo ostensivamente o limite constitucional de dois mandatos da Rússia, Putin havia deixado a presidência e instalado seu assessor, Dmitri Medvedev, em seu lugar, enquanto assumia como primeiro-ministro. Assim, Obama decidiu tratar Medvedev como se fosse realmente o líder.

Durante algum tempo, a aposta de Obama em Medvedev pareceu funcionar. No entanto, Putin não era pessoa para ser ignorada e, em 2012, ele voltou à presidência e deixou claro que não permitiria que Obama o desconsiderasse.

O caso da Crimeia provocou um debate em Washington: Putin teria mudado nos últimos 15 anos e se tornado de certa forma desequilibrado ou ele simplesmente vê o mundo em termos completamente distintos dos do Ocidente, termos que tornam difícil, se não impossível, encontrar um terreno comum? Essa é a pergunta que esse presidente, e provavelmente o próximo, farão por algum tempo.

*Peter Baker é colunista.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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