Tasneem Alsultan/The New York Times
Tasneem Alsultan/The New York Times

Três meses antes do fim de proibição, mulheres sauditas fazem primeiras aulas de direção

Estudantes da Universidade de Effat fizeram nesta semana um workshop focado na segurança dos motoristas e tiveram sua primeira experiência ao volante de um automóvel; mudança entra em vigor em junho e marcas se preparam para atender novo público

Ben Hubbard / The New York Times, O Estado de S.Paulo

06 Março 2018 | 10h42

JEDDAH, ARÁBIA SAUDITA - Ainda falta mais de 3 meses para que as mulheres possam dirigir automóveis na Arábia Saudita - após a autorização emitida no ano passado pelo rei Salman, em uma das principais reformas recentes anunciadas pelo reino -, mas elas já procuram autoescolas e treinadores para se preparar.

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A estudante de arquitetura Rahaf Alzahrani, de 21 anos, fez nesta semana sua estreia ao volante. Em sua primeira aula, entrou no carro, colocou o cinto de segurança, posicionou os pés nos pedais, soltou o freio de mão e deu um longo suspiro antes de deixar o carro se mover. "Está tudo certo?", perguntou, nervosa, ao instrutor. "Sim, tudo OK", respondeu o profissional.

Como reflexo da mudança, as universidades femininas do país anunciaram que planejam abrir escolas de direção e as montadoras de automóveis já mudaram seus anúncios pensando em lucrar com as novas motoristas - e potenciais compradoras - no país de 32 milhões de habitantes.

O aplicativo de carona paga Uber planeja recrutar mulheres para treinar as motoristas que quiserem trabalhar e muitas concessionárias já criaram horários de venda exclusivos para mulheres. Ford, Nissan, Jaguar e até a Coca-Cola esperam lucrar com a repercussão das mulheres se tornando motoristas.

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A mudança é recebida pelas sauditas com uma mistura muitas vezes complicada de entusiasmo e apreensão, como foi tangível na segunda-feira no campus da Universidade de Effat, na cidade portuária de Jeddah, onde várias mulheres dirigiram um carro pela primeira vez.

O administrador da universidade diz que ainda aguarda o governo criar regulações adequadas para definir se criará ou não uma escola de direção para mulheres. A experiência de segunda foi um workshop oferecido pela Ford com objetivo de melhorar a segurança das motoristas.

Cerca de 15 estudantes tiveram uma palestra teórica antes da aula prática. Todas vestiam abayas, roupas largas que as mulheres sauditas usam para esconder seu corpo em público. A maioria cobria suas cabeças e algumas escondiam também os rostos. 

Na parte teórica do curso, ouviram sobre segurança rodoviária e acidentes de carro - incluindo uma explicação sobre a principal causa deles: pessoas que usam celular enquanto dirigem. No pátio da universidade, fizeram uma atividade usando um óculos que simulava a visão de quem dirige sob efeito de medicamentos ou de bebida alcoólica - o que não deve ser um problema no reino, já que o álcool é proibido. 

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A ação veio um pouco depois, em uma área fechada do estacionamento, onde finalmente experimentaram carros de verdade. Divididas em grupos, entraram nos veículos enquanto um instrutor explicava as principais funções, como a alavanca de câmbio, os pedais para acelerar e frear, o painel de instrumentos, a seta e os limpadores de para-brisa. 

É difícil prever o quanto a permissão para dirigir mudará a vida das mulheres na Arábia Saudita, país onde elas tem pouca vida pública, são segregadas dos homens na maior parte dos ambientes, limitadas a uma pequena quantidade de profissões e encorajadas a ficarem em casa.

Ainda assim, todas as estudantes que participaram do curso se dizem satisfeitas com a mudança e algumas já estão pensando em adquirir modelos específicos de veículos. Uma disse querer um Audi. "É uma carro forte", afirmou. Outra, disse preferir uma Mercedes "como a do pai". Uma terceira disse que dispensaria seu motorista indiano e ficaria com o carro que ele dirige hoje.

Elas concordaram, no entanto, que a possibilidade de dirigir diminuirá a dependência de motoristas para transportá-las e permitirá que planejem suas atividades nos horários que preferirem.

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"Não quero dirigir apenas por dirigir", disse Rehab Alhuwaider, de 21 anos. "Quero ser capaz de controlar minha rotina diária." Para ela, a melhor parte de dirigir vai ser a "sensação liberdade" que as mulheres terão.

O workshop terminou com uma rara oportunidade para as estudantes: a chance de dirigir um carro em um circuito com cones no estacionamento.

Antes de assumir o volante, Rahaf, a estudante de arquitetura, disse que já tinha pilotado Jet Skis no Mar Vermelho e motos no deserto, mas nunca tinha dirigido um carro, o que a deixava nervosa. "Não sei qual é o pedal para frear e qual é o para acelerar", afirmou.

Ela começou devagar, fez a primeira curva, depois a segunda. Se aproximou de um sinal de parada e pisou muito forte no freio, jogando os outros passageiros para frente. Rahaf riu, nervosa, mas continuou até o fim do percurso, onde parou de forma um pouco mais suave.

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"Agradeçam a Deus pela sua segurança", disse o instrutor. A experiência toda ao volante durou poucos minutos, mas mudou completamente a visão da jovem sobre a importância de dirigir. "Foi incrível. Amei. Me senti muito bem de estar atrás do volante."

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